Marcelo Odebrecht é demitido do grupo; saída agrava situação da empresa

João Sorima Neto e Leo Branco
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Pai e filho - Emílio e Marcelo Odebrecht

SÃO PAULO - O ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, foi demitido nesta sexta-feira da empresa fundada por sua família. Em comunicado interno distribuído aos gestores das 20 empresas do grupo, o novo presidente do grupo, Ruy Sampaio, comunicou "que Marcelo não é mais integrante da Odebrecht S.A. e, portanto, não mais poderá utilizar os serviços de qualquer natureza", diz o texto. A demissão foi adiantada pelo colunista do GLOBO, Lauro Jardim.

Marcelo Odebrecht ainda mantinha um cargo de diretor na empresa e recebia salário de mais de R$ 100 mil, mas estava afastado de funções executivas desde que foi preso, em 2015. Ele também utilizava os serviços de um motorista e um advogado do grupo.

"Na condição de ex-integrante e acionista indireto minoritário da companhia, Marcelo Odebrecht terá os mesmo direitos, deveres e tratamento conferidos aos demais acionistas. Doravante, todas as comunicações deverão ser feitas somente através dos mesmos canais utilizados pelos acionistas da família Odebrecht, centralizados na Kieppe, a holding familiar que controla o grupo", diz o texto de Sampaio.

Em nota, Marcelo Odebrecht reagiu à sua demissão, afirmando que seu desligamento é mais um “ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht S.A”, Ruy Sampaio.

“A demissão de Marcelo Odebrecht é apenas a demonstração inequívoca de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht S.A. que, na tentativa de paralisar a apuração pelo compliance de fatos que lhe atingem e que deveriam estar protegidos por sigilo, retalia o denunciante como forma de intimidá-lo”, diz a nota.

A briga entre Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo subiu de temperatura nesta semana, quando houve a troca de presidente. Além de colocar Sampaio, homem de sua confiança na presidência, em substituição a Luciano Guidolin, Emilio deu sinal verde para que outras pessoas ligadas a Marcelo, que permanecem na companhia, sejam substituídas.

O primeiro alvo foi Zaccaria Junior, diretor de relações com a imprensa, e que atuava como assessor de imprensa de Marcelo. A demissão de Zaccaria foi pedida pelo próprio Ruy Sampaio.

- Luciano não queria demitir pessoas ligadas ao Marcelo. Como Ruy Sampaio aceitou a missão dada por Emilio Odebrecht, o novo presidente agora virou o alvo do Marcelo - disse uma pessoa que tem conhecimento dos bastidores da empresa.

Na conta do pai

Sampaio tem longa trajetória no grupo. É funcionário desde 1985, já foi tesoureiro, diretor de finanças internacionais e diretor de investimentos da Odebrecht S.A. Antes de chegar à presidência do Conselho de Administração, ele presidiu a Kieppe Participações, holding da família Odebrecht, controladora da companhia.

Ao chegar ao cargo que já foi ocupado por Marcelo, ele virou seu principal desafeto e alvo de inúmeros e-mails de Marcelo ao setor de compliance da Odebrecht, além de várias diretorias.

Nesses e-mails, aos quais o jornal "Folha de S.Paulo" teve acesso, Marcelo coloca na conta do pai diversos erros que teriam levado o grupo à situação judicial, especialmente omissão a tudo o que acontecia na empresa. Marcelo acusa o pai de ter 'esvaziado' a Kieppe, utilizando ações da holding para comprar fazendas.

Também afirmou que Ruy Sampaio atua em favor dos interesses de seu pai e 'de seus próprios', inclusive para evitar investigações que poderiam incriminá-lo. Marcelo diz ainda que Ruy Sampaio chegou a intermediar e receber pagamentos indevidos, fato que estaria registrado no sistema utilizado pela Odebrecht para gerir o chamado 'departamento de propina'.

Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, nesta sexta-feira, Ruy Sampaio, por sua vez, acusa Marcelo de chantagear a empresa. O novo presidente disse que Marcelo recebeu R$ 240 milhões para assinar o acordo de colaboração com o Ministério Público Federal, no âmbito das investigações da operação Lava-Jato.

Segundo Sampaio, num bilhete escrito 20 dias antes de assinar a colaboração, ele pediu um VGBL (plano de previdência privada) equivalente a seus ativos, mais metade dos ativos depositados na Suíça, que perderia, dinheiro para pagar as multas impostas pelo Ministério Público Federal (MPF) e compromisso de que seria ressarcido de todo patrimônio que viesse a perder.

No total, diz Sampaio, Marcelo queria receber R$ 310 milhões. Para o novo presidente, isso é chantagem com a empresa, em busca de "dinheiro e poder".

Barrado na sede

Marcelo, que vinha visitando a empresa com frequência depois que conseguiu a progressão para o regime semi-aberto, recebeu o primeiro golpe na semana passada, quando foi barrado na entrada da empresa por ordem do pai. Em novos e-mails ao departamento de compliance, Marcelo afirmou que Zaccaria, seu assessor de imprensa, foi demitido por Sampaio exatamente por ajudá-lo na retomada do contato com os jornalistas, depois de sua saída da prisão.

O clima bélico nos bastidores da empresa complica ainda mais a situação da Odebrecht, que está em recuperação judicial com dívidas de R$ 98,5 bilhões, e coloca em xeque a negociação do plano de recuperação que está em negociação com os bancos credores. Na assembleia desta quinta-feira, os credores decidiram suspender o encontro e retomá-lo no próximo dia 29 de janeiro.

- Será que os bancos vão fazer força para deixar a empresa em condições de sobreviver enquanto a família controladora briga nos bastidores ? - questiona uma fonte ligada às negociações.

Especialistas em grandes recuperações judiciais avaliam que se a empresa sobreviver ficará muito menor do que é atualmente, com mais de 20 subsidiárias em 17 áreas de negócios. Para esses especialistas, deve sobrar apenas a construtora, unidade que deu início ao conglomerado. Mas há problemas também na construtora, que está sem presidente desde outubro.

Ainda como presidente do grupo, Luciano Guidolin indicou Juliana Baiardi, que presidia a Atvos, braço do setor sucroalcooleiro da Odebrecht, para comandar a construtora. Foi um pedido de Emílio para substituir Fábio Januário no cargo. Mas para formalizar a indicação, foi criado um conselho, que tinha a própria Juliana como presidente. Mesmo assim, o conselho não aprovou o nome de Juliana e nem indicou outro executivo para o cargo.

Efeito colateral

Uma advogada que representa um grupo de credores avalia que as desavenças entre Marcelo Odebrecht e seu pai Emílio aumentam as incertezas sobre o cumprimento do plano de recuperação, que prevê que a empresa precisa gerar caixa excedente às despesas e compromissos do grupo, para que haja recursos para pagamento dos credores.

— Esse clima nos bastidores da empresa aumenta a desconfiança sobre o cumprimento do plano de recuperação judicial — disse a advogada, que pediu anonimato.

No comunicado interno da empresa em que Emilio Odebrecht anunciou a troca de presidente, ele afirma que as negociações com os credores avançam 'construtivamente'. Diz que com a esperada aprovação do plano e homologação pela Justiça, será concluído um 'ciclo fundamental para a sobrevivência do Grupo Odebrecht.

Marcelo trava uma briga com o pai e outros familiares porque sentiu-se injustiçado depois dos acordos de delação fechados por Emílio e outros executivos com o Ministério Público Federal no âmbito das investigações da Lava-Jato. Para Marcelo, seu pai e os aliados foram beneficiados nas negociações com o MPF.

Marcelo questiona, por exemplo, o fato de seu cunhado, Mauricio Ferro, vice-presidente jurídico do grupo, não ter sido incluído no rol de 78 delatores da empresa, já que considera que este participou de negociações de oferta de propina a políticos. Ele também cortou relações com sua irmã, a advogada Mônica Bahia Odebrecht (que é casada com Ferro). Por isso, desde que saiu da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Marcelo tem a ideia fixa de corrigir o que considera ser injustiças.