Marcelo Odebrecht diz ter contado a Graça Foster e Dilma sobre pagamentos ilegais a PMDB e PT

Por Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito
Ex-presidente Dilma Rousseff e ex-presidente da Petrobras Graça Foster 13/03/2013 REUTERS/Ueslei Marcelino

Por Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O ex-presidente da empreiteira Odebrecht Marcelo Odebrecht disse ao Ministério Público que foi cobrado pela ex-presidente da Petrobras Maria das Graças Foster por pagamentos ilícitos feitos ao PMDB por um contrato no Paraguai, pouco antes das eleições de 2010, mas que o caso foi abafado depois que ele mesmo revelou à executiva e a própria presidente Dilma Rousseff que o PT, teria recebido parte do dinheiro.

Odebrecht contou, em sua delação, que ao ser procurado por Graça Foster, confirmou o pagamento aos dois partidos e, depois de brigar com a presidente da Petrobras, acabou por contar toda a história à própria Dilma Rousseff, mas que não acredita que qualquer uma das duas tivesse conhecimento ou envolvimento.

"Quando eu coloquei o PT desarmei tanto ela quanto Graça.

Eu não acho que as duas estavam envolvidas ou sabiam, mas quando coloquei o PT, como elas iam reagir quando o partido delas estava envolvido", afirmou.

Marcelo revela que recebeu um telefonema de Graça Foster perguntando a ele "que história era essa de pagamentos ilícitos ao PMDB". A história do pagamento teria chegado a ela depois de uma investigação interna, aberta ainda por Sergio Gabrielli, presidente anterior da empresa.

O executivo disse aos procuradores que procurou Marcio Faria, da Odebrecht Óleo e Gás, que operava com o PMDB.

"Ele me contou que houve na véspera da eleição um acerto com o PMDB. Uma verba faturada entrou e a gente deu de volta um valor que entrou na véspera da eleição e saiu para o PMDB na mesma hora", disse Marcelo, citando os nomes do ex-deputado Eduardo Cunha e do ex-ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves. "Ele me disse que o PT sabia e também recebeu uma parte. Bom, eu agora tenho argumentos para conversar com ela."

Marcelo diz que então procurou Graça Foster para confirmar o pagamento ilícito e que, por ter uma relação de confiança com ela, não podia negar os pagamentos, mas que sua defesa seria o fato de o PT ter participado do esquema.

"Ela estava mais preocupada em querer saber quem era que tinha recebido no PMDB. Eu não queria alimentar isso, eles que se entendam. Mas o PT sabia, e também recebeu uma parte. O Vaccari recebeu (João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT). Aí a postura dela mudou", afirmou Odebrecht.

Segundo o executivo, Graça Foster teria dito que colocaria uma pessoa da sua confiança no comando da investigação, mas que não sabe o que aconteceu e a presidente da Petrobras "perdeu o controle" do caso, que levou a uma investigação e denúncia pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra Jorge Luis Zelada, diretor da área internacional da Petrobras, e o então diretor de Contratos Odebrecht Marco Antonio Duran.

O caso levou a uma ruptura entre Marcelo Odebrecht e Graça e chegou aos ouvidos da então presidente Dilma Rousseff, disse o executivo.

"Até então eu nunca tinha tido nenhum tipo de conversa com Graça sobre nenhum tipo de pagamento ilícitos na Petrobras, nem que conhecia nem que fazia. E nem tinha tido com a presidente Dilma nenhum tipo de conversa no que tange a Petrobras, conhecimento de pagamentos indevidos dentro da Petrobras, nem por alto", garantiu Marcelo Odebrecht.

Depois da briga, contou, ele enviou à presidente Dilma --através de Giles Azevedo, então seu chefe de gabinete, ou Anderson Dorneles, seu assistente-- a troca de e-mails ríspida que teve com Graça Foster, mas que, ainda segundo Marcelo, não fazia menção ao dinheiro repassado ilegalmente ao PMDB e ao PT.

"Tive uma reunião com a presidente, não sei se foi por esse assunto ou algum outro, na biblioteca do Palácio da Alvorada. Aí eu fui claro, eu contei tudo que tinha contado para Graça", disse Marcelo Odebrecht.

TEMER

Na conversa, disse o executivo, ele teria "sentido" que Dilma tentava saber, sem ser clara, se o então vice-presidente Michel Temer teria recebido dinheiro do esquema, e tentou avisar Temer.

"Eu achava que ela queria saber se Michel estava envolvido. Você percebe que ela queria instigar quem era a pessoa que estava recebendo isso", afirmou.

"Nesse ínterim eu avisei algumas pessoas. Eu pedi a Claudio Mello (então diretor de relações institucionais da Odebrecht)para avisar caciques do PMDB. 'Faça chegar no ouvido de Temer e algumas pessoas do PMDB, inclusive, que ela pode estar desconfiada dele, que ele recebeu dinheiro", relatou.

Marcelo Odebrecht afirmou ainda não saber se esse foi o único pagamento ao PMDB neste contrato específico, e nem o valor exato, que teria sido entre 10 e 20 milhões de reais. Mas garante que a empresa não teve "lucro" no caso. O pagamento foi feito através de uma previsão no contrato PAC SMS e o dinheiro teria sido pago à Odebrecht e imediatamente repassado ao PMDB.