Marcelo Serrado comemora volta de Crô, agora questionando modelo tradicional de família

Crô às voltas com a família que aparece batendo em sua porta no novo filme (Imagem: divulgação Eny Miranda/Downtown Paris)

Criado por Aguinaldo Silva para ‘Fina Estampa’, exibida pela TV Globo entre 2011 e 2012, Crô é um daqueles personagens que ganham lugar próprio no imaginário popular. Para Marcelo Serrado, ator que lhe deu vida, o mordomo gay e cheio de trejeitos ocupa o mesmo espaço que a Carminha (Adriana Esteves) de ‘Avenida Brasil’ e a Odete Roitman (Beatriz Segall) de ‘Vale Tudo’ na galeria de figuras inesquecíveis das telenovelas brasileiras. E não para por aí: ele já está em seu segundo longa-metragem para os cinemas, ‘Crô em Família’, que estreia na próxima quinta-feira, dia 6 de setembro.

“O Crô foi um divisor de águas na minha carreira”, define Serrado, em entrevista exclusiva ao Yahoo! . “Me levou para um público muito amplo. Foi uma explosão, uma coisa muito maluca. Logo depois da novela estava com um monólogo [intitulado ‘Não Existe Mulher Difícil’] e cheguei a ter que fazer oito sessões num final de semana.”

“Crô virou meme na internet. Foi homenageado por uma escola de samba, uma ala inteira vestida como o personagem. Isso para um ator não tem preço”, diz, numa referência ao desfile da São Clemente, em 2013, no qual os ritmistas usaram gravata borboleta, óculos e topete, enquanto Marcelo Serrado vinha à frente, como Rei da Bateria.

Foi no final daquele ano que aconteceu o lançamento do primeiro filme, e o público respondeu em peso. Com 1,7 milhão de ingressos vendidos, a produção atingiu números do mesmo patamar em que costumam ficar comédias estreladas por Leandro Hassum e Ingrid Guimarães, alguns dos poucos nomes do cinema brasileiro que conseguem levar tanta gente às salas de exibição.

“O Crô é um personagem adorado pelo público, principalmente pelas crianças”, acredita Serrado, confiante de que uma marca semelhante conseguirá ser alcançada novamente desta vez.

Nem mesmo o momento atual, em que parte da comunidade LGBT é crítica quanto à forma com que personagens homossexuais são retratados na mídia (muitas vezes perpetuando estereótipos sobre gays) faz com que o ator acredite menos no potencial de sucesso. Por outro lado, ele admite que algumas medidas preventivas foram tomadas durante a concepção do filme.

“Hoje em dia o mundo tá mais chato, tudo tá mais preocupante. Certos termos que eu usava no primeiro filme já não se repetem mais”, explica. “O humor não tem que ter essa preocupação. Mas acho que, como o mundo está hoje, com esse radicalismo em algumas questões da vida, a gente tem que ter isso em mente para não atingir uma pessoa que talvez pense diferente de você”.

Num pequeno aceno à ideia de dar maior participação à ícones LGBT, partiu de Serrado a ideia de chamar as cantoras Preta Gil e Pablo Vittar para fazerem participações especiais, além de incluir no roteiro o momento chamado por ele de “chá das bichas”, no qual divide a cena com Ferdinando (personagem de Marcus Majella em ‘Vai que Cola’), Dorothy (representada por Luis Miranda na novela ‘Geração Brasil’) e Seu Peru (aluno clássico da ‘Escolinha do Professor Raimundo’, agora vivido por Marcos Caruso).

Este conceito de coletividade, um grupo no qual todos podem ser aceitos exatamente do jeito que são, dialoga com o tema principal do filme: a vida em família e como isto vai muito além do DNA. “A gente tem amigos e laços afetivos que são muitas vezes mais importantes que nossa família biológica”, resume o ator.

Sobre isso, seu colega de elenco Jefferson Schroeder, uma das novas revelações do humor nacional, é ainda mais incisivo: “Acho que estamos em um momento de repensar essas estruturas”, reflete. “Tem político dizendo que família é apenas homem e mulher. Essas pessoas são da época dos dinossauros, presas no passado. Mas a gente precisa de um esforço para que isto seja repensado”.