Marcha sobre Roma de Mussolini faz 100 anos com novos ecos na ultradireita

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - A Marcha sobre Roma, iniciada exatos cem anos atrás, significou a chegada do fascismo de Benito Mussolini ao poder, mas não se reduziu à história italiana —visto que difundiu o desejo de emulação em muitos cantos da Europa— nem ao início do século passado. Elementos que levaram à ditadura de mais de duas décadas continuam a impulsionar a ultradireita contemporânea.

Para além da efeméride óbvia, a data ganha especial atenção na Itália, que, por uma coincidência no calendário, viu tomar posse, nos últimos dias, no Executivo e no Parlamento, líderes cuja história política descende do regime fascista.

Os olhos estarão voltados para a nova primeira-ministra, Giorgia Meloni, fundadora do partido Irmãos da Itália. Sua inserção na política se deu na seção juvenil do Movimento Social Italiano, formado em 1946 por integrantes da fase final do regime de Mussolini. Com ela estão outros herdeiros dessa legenda, como o presidente do Senado, Ignazio Benito La Russa.

Desde a campanha eleitoral, Meloni intensificou esforços para tentar se afastar do fascismo. Em seu primeiro discurso no posto, na terça (25), disse que nunca nutriu simpatia ou proximidade com regimes antidemocráticos. "Por nenhum, incluindo o fascismo", declarou. "As leis raciais de 1938 foram o ponto mais baixo da história italiana, uma vergonha que marcará nossa população para sempre."

Ao mesmo tempo que mantém, sob muitas críticas, símbolos do pós-fascismo —como a chama tricolor que estampa o logo do Irmãos da Itália—, demonstra resistência em condenar de forma enfática o envolvimento de aliados e filiados do partido em atos que remetem ao movimento: gestos típicos, o colecionismo de objetos e a participação em eventos sobre a Marcha sobre Roma.

Anualmente, de forma clandestina ou pública, saudosistas e militantes neofascistas se reúnem em Predappio, pequena cidade da Emilia-Romagna onde Mussolini nasceu e está enterrado. No ano passado, foram cerca de 600 pessoas com camisas pretas, como as esquadras fascistas originais. Neste ano, milhares são esperados para um cortejo neste domingo (30).

"Era um fenômeno folclórico, que reunia nostálgicos vistos como ridículos. Hoje, a vitória do Irmãos da Itália deu certa legitimidade a eles", diz Marco Mondini, professor de história contemporânea na Universidade de Pádua. "Muitos, jovens inclusive, acham que agora estão do lado certo."

Se sobre Meloni paira a dúvida de como fará referência à Marcha sobre Roma, analistas consideram o centenário uma oportunidade para desfazer mitos relacionados à chegada ao poder do fascismo e para reforçar seus danos irreparáveis. Nas últimas semanas, uma leva de livros, mostras e filmes foi lançada com essas intenções.

Um deles é "Roma 1922: Il fascismo e la guerra mai finita" (o fascismo e a guerra que nunca acabou), de Mondini. O historiador detalha o cenário que levou à chegada de Mussolini ao poder, especialmente as consequências da Primeira Guerra (1914-1918). Apesar de formalmente ter saído como parte vencedora, a Itália, como a derrotada Alemanha, vivenciou a continuidade de uma cultura de violência que desembocou, nos anos seguintes, em uma luta política interna feroz.

"A guerra não tinha só mobilizado indústrias, pessoas e Exércitos, mas também propaganda e estados de ânimo, acabando por desencadear o ódio radical pelo inimigo. E o ódio não é fácil de ser desmobilizado", escreve Mondini.

Nos três anos que antecederam a Marcha sobre Roma, acirrou-se na Itália o embate entre fascistas e socialistas, comunistas e anarquistas, considerados inimigos da pátria. Nesse ambiente, o movimento erguido por Mussolini, que usava o medo como instrumento, passou a ganhar apoio, declarado ou não, de forças policiais, funcionários do Estado, industriais e setores da imprensa. "Muitos diziam que o melhor caminho para tirar a Itália daquela guerra civil era deixar os fascistas entrarem no governo."

O cenário, argumenta, permite concluir que a Marcha sobre Roma não foi nem um golpe de Estado nem uma revolução. Foi uma obra coletiva idealizada por Mussolini, com a qual contribuíram ativamente o Exército e a monarquia. "Foi, antes de tudo, uma grandiosa performance teatral. Uma operação midiática e um ato terrorista de guerra psicológica", diz Mondini à reportagem.

O objetivo não era pôr em ação uma insurreição violenta. Mussolini estava ciente que os 25 mil fascistas que se agrupavam no entorno de Roma nos dias finais de outubro —mal armados, sob mau tempo e sem comida suficiente— não eram capazes de vencer um eventual enfrentamento com as forças militares que protegiam a capital, com 30 mil homens. Uma verdadeira resistência por parte do Estado nunca existiu.

O Exército foi um protagonista daqueles meses pré-Marcha, ao considerar os políticos liberais no poder como incapazes de combater o "perigo socialista" e apoiar, inclusive com armas, milícias paramilitares —entre elas as esquadras fascistas, classificadas como as mais violentas ou "eficazes".

Serviços de informação ainda tiveram participação na divulgação de fatos falsos ou distorcidos. Os militares, escreve Mondini, colocaram em prática uma "estratégia de desinformação e exaltação da ameaça subversiva". Legado da Marcha, o uso indevido dos meios de comunicação é ainda um dos principais elos do fascismo histórico com a extrema direita contemporânea.

"Ao analisar jornais nacionalistas, como o Popolo d'Italia [fundado por Mussolini], percebe-se que grande parte do que é publicado é feito de falsidades evidentes. O uso sistemático da mentira é uma das grandes invenções do jornalismo de Mussolini e uma das heranças mais perigosas daquele contexto cultural."

Outro elemento recorrente no debate político atual é o discurso de ódio contra adversários políticos —vistos como inimigo a ser eliminado. Do ponto de vista da linguagem, as disputas políticas se tornam uma espécie de cruzada, uma luta do bem contra o mal. "É um processo muito perigoso, que indica uma degeneração da vida democrática."

Fazendo uso desses instrumentos, Mussolini pavimentou o caminho dos fascistas que culminou com a Marcha sobre Roma —a qual acompanhou inicialmente em Milão, da sede de seu jornal. Sua intenção era amedrontar e ameaçar o Estado enquanto negociava sua entrada no poder, não como parte de uma coalizão, mas como líder com carta branca para formar o próprio governo.

Em 30 de outubro de 1922 Mussolini chegou a Roma e, diante da certeza de que sua ambição seria realizada, deu sinal verde para os fascistas entrarem na capital. No dia seguinte, foi nomeado pelo rei Vittorio Emanuele 3º como primeiro-ministro. No cargo por duas décadas, instalou uma ditadura, instituiu as leis raciais, mandou judeus para campos de concentração, entrou na Segunda Guerra e viu o país ser ocupado pelos nazistas. Quando morreu, em 1945, deixou uma Itália derrotada.

"Quando ouço falar em nostálgicos do fascismo, penso que ainda é preciso explicar que foi uma ditadura que começou querendo criar um império, mas terminou com um país destruído", conclui Mondini.