Marco Feliciano e a falsa dicotomia "maus modos" x "bons princípios"

O Presidente Jair Bolsonaro e o deputado Marco Feliciano durante culto religioso na Câmara dos Deputados. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


O aumento, entre janeiro e agosto, de 82% das queimadas no Brasil em comparação com o mesmo período do ano passado é o exemplo mais didático dos efeitos práticos de discursos ditos polêmicos das autoridades nacionais.

Palavras não se perdem na natureza quando proferidas. São gotículas que se adensam na atmosfera e voltam, um dia, em forma de tempestade. Ou fuligem, para ficar no exemplo do presidente que, antes e depois da posse, se dedicou a atacar o modo de vida dos povos indígenas, condenou a demarcação de suas terras – e, em consequência, o cinturão de proteção ambiental dessas áreas – , difamou órgãos de defesa do meio ambiente e estimulou, com gestos, ações, omissões e promessas indiretas de proteção o avanço criminoso de produtores rurais da região Norte em atos como o “dia do fogo”.

Ainda assim, há quem acredite que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa quando se analisa os oito primeiros meses do governo Bolsonaro. É o que faz o deputado Marco Feliciano (Pode-SP), da tropa de choque governista, em artigo publicado nesta sexta-feira na Folha de S.Paulo.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

No texto, o vice-líder do governo atribui a rejeição sobre o presidente ao estabelecimento de padrões de uma dita intelectualidade, sobretudo na imprensa, à maneira “franca e objetiva” com que se comunica um “homem simples e idealista”.

Essa suposta afetação midiática faria com que as atenções se voltassem o tempo todo à forma, e não ao conteúdo das ações do governo. E se seis em cada dez brasileiros não sabem apontar uma única medida positiva da gestão é porque as energias de quem reporta os fatos foram gastas nesses meses todos com “questões menores” como a calúnia do presidente contra a jornalista Miriam Leitão, o preconceito manifestado contra governadores do Nordeste, chamados de “paraíba”, e a realidade paralela de quem afirma que ninguém passa fome no país – uma força de expressão, segundo Feliciano, que nós, comunicadores, não captamos ou não queremos captar.

Nessas “questões menores” residem “só” os ataques mais frontais, até aqui, às bases da liberdade de imprensa (alimentada pela mentira deslavada de que a jornalista fazia parte de uma rede terrorista) e aos princípios constitucionais da legalidade e a impessoalidade do cargo – em outras palavras, dane-se se o presidente gosta ou não deste ou daquele governador; é obrigação dele tratar a todos de forma distinta – na fala, vale lembrar, Bolsonaro dizia que “não tinha que ter nada” com o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), “o pior de todo os paraíbas”.

O estrago desse tipo de comportamento não é tão visível quanto os focos de incêndio em um país cujo presidente governa sob as brasas do discurso antiambiental, mas são igualmente devastadores.

É parte da construção do “mito” a falsa dicotomia criada por Paulo Guedes e endossada por Feliciano no artigo: antes éramos governados por pessoas de bons modos e maus princípios; hoje, por um presidente com maus modos e bons princípios.

O sofisma ignora as consequências práticas das botinadas em líderes de Estado, nas evidências científicas e em grupos sociais vulneráveis – o que, para ser prático, podem desfazer as pontes diplomáticas e melar acordos comerciais – e faz parecer normal o esforço baseado no bom princípio para instalar um dos filhos na embaixada (aquele que se prepara para sabatina assistindo a vídeos no YouTube) e colocar em risco a autonomia da Polícia Federal e órgãos de investigação enquanto outro filho tem dificuldade para explicar as movimentações financeiras atípicas de gente de sua confiança envolvida com milicianos em seu gabinete de deputado estadual.

Impulsionamento de notícias fake com apoio de empresários, mentira sobre kit gay em rede nacional, uso de equipamento público para transportar parentes e amigos para festa privada, transporte de cocaína em um avião da FAB: nada disso parece escandalizar o deputado que vê apenas “uma revolução nos costumes” injustamente ignorada pela imprensa.

Aparentemente, os editorialistas do país inteiro não se deram conta das benesses a serem colhidas com o fim do horário de verão, a retirada de radares móveis das rodovias federais, a eliminação da multa para quem transportar criança sem segurança, a censura velada na produção cinematográfica nacional, a campanha cocô dia sim/dia não ou a explosão de sangue prometida pela flexibilização da posse e do porte de armas no país.

No mundo paralelo pintado por Feliciano, o governo acabou com o loteamento de cargos ao nomear um ministério técnico e invulnerável à fisiologia política. Pois dava para fazer uma lista de nomes do primeiro escalão que mentiram no currículo ou são investigados por usarem candidatas laranja nas eleições, mas vamos lembrar apenas dos aliados emplacados ontem mesmo pelo centrão em órgãos como o Codevasf e o FDE, enquanto o presidente busca apoio no Congresso para nomear o filho embaixador.

Ao apontar as reformas econômicas como trunfo, Feliciano parece se esquecer das inúmeras puxadas de orelha do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para a falta de empenho do próprio governo em aprovar uma pauta do seu interesse.

A certa altura do texto, o deputado ressalta a economia de quase R$ 1 trilhão com a reforma da Previdência recém-aprovada pela Câmara, demonstrando preocupação com a curva dos gastos públicos, que podem agora ser direcionados a prioridades e não supostas mordomias.

Feliciano poderia começar pelo próprio exemplo. Em abril, ele solicitou à Câmara dos Deputados o reembolso de R$ 157 mil para cobrir gastos referentes a um tratamento odontológico. O valor, conforme mostrou o jornalista Gilberto Dimenstein – possivelmente um outro exemplo de picuinha de coluna social – poderia dar ao parlamentar uma arcada dentária inteira de ouro. Que bom tudo mudou no novo Brasil.