Marco Nanini e Camilla Amado encenam, dentro de uma 'bolha', peça sobre a falta de comunicação

Maria Fortuna
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LEO AVERSA / Agência O Globo
LEO AVERSA / Agência O Globo

A sensação é de que Marco Nanini e Camilla Amado estão dentro de uma embalagem. Protegidos por um plástico que cerca todo o palco do Reduto (espaço cultural mantido pelo ator e pelo sócio, Fernando Libonati, em Botafogo), eles ensaiam isolados do resto da equipe a peça “As cadeiras”, clássico do teatro do absurdo de Eugène Ionesco (1909-1994), que promove uma reflexão exatamente sobre a incomunicabilidade humana. Em cena, a dupla também está separada por outro pedaço de plástico, que vai de um lado a outro e divide o espaço ao meio. Os cuidados contra a Covid-19 ali só não são maiores do que a vontade dos dois atores de voltar à ribalta.

E a maneira de fazer isso acontecer com segurança — afinal, eles estão no grupo de risco da doença, Nanini com 72 anos, e Camilla, com 81 — não foi apenas colocá-los dentro dessa espécie de bolha. Mas encontrar uma linguagem que tivesse como base o teatro sem seguir seu formato tradicional, que poderia colocar em risco artistas e plateia.

A alternativa encontrada pelo diretor Fernando Libonati (produtor de Nanini há mais de 30 anos e que agora estreia na direção) foi filmar a encenação com duas câmeras que captam imagens em 360º e planos distintos, e investir na pós-produção (“mas nosso trunfo são texto e elenco”, reforça Libonati). A ficha técnica também é poderosa, e inclui Gringo Cardia na concepção visual; Amália Lima, na direção de movimento; e Antônio Guedes, no figurino. O resultado será um produto pronto para ir ao ar, que mistura linguagens e se assemelha à videoarte. O público vai poder conferir o projeto a partir de fevereiro, em temporadas que serão realizadas via plataformas digitais.

— Experimentar algo novo aos 72 anos é importantíssimo para mim. Se não, a gente vai se sentindo sem óleo, sabe? — conta Nanini. — Nunca fiquei tanto tempo parado, queria fazer esse exercício, entrar nessa coisa de internet, descobrir novos caminhos. Porque o teatro virou uma coisa quase impossível. Como vamos sobreviver com esse arrocho? De criatividade, de orçamento... Um ano sem levar gente ao teatro, as pessoas começam a não ir mesmo. Foi tudo por água abaixo, não dá para fingir.

Em meio a esse processo de reinvenção, que exige também um mergulho na tecnologia para quem deseja se comunicar, Nanini ainda busca sua própria sintonia.

— Sou da época do on e off. Hoje, não sei mexer em um botão sem errar. Tem sempre alguém me ensinando ou se irritando comigo, mas vou lutando, né? — brinca ele, que fez sua estreia no Zoom com a primeira leitura da peça.

Camilla Amado também tenta se familiarizar com o mundo conectado. Ao ouvir da repórter a sugestão para que colocasse seu celular para carregar, depois de avisar que estava com pouca bateria, ela perguntou:

— Mas não explode se carregar enquanto fala? — disse, antes de soltar uma gargalhada.

Do fracasso ao sucesso

Amigos desde a década de 1970, os dois alimentavam a ideia de um novo trabalho em conjunto há anos. A primeira parceria profissional entre eles aconteceu em 1973, na peça “Encontro no bar”, estrondoso fracasso de público. No ano seguinte, fizeram “As desgraças de uma criança” para pagar as dívidas do espetáculo anterior. Foi um sucesso. Em 2017, antes de estrear “Ubu rei”, Nanini fez algumas leituras no Galpão Gamboa (outro espaço mantido por ele e Libonati), e chamou a atriz para ler “As cadeiras” (que ela havia encenado, aliás, aos 18 anos). O resultado impactou a dupla, e ficou o desejo de tornar a montagem real.

— Quando não foi ninguém em “Encontro no bar”, Nanini me disse: “Não tem problema, tenho um Volkswagen, vamos fazer o Sul, que dá dinheiro”. Amarramos o cenário no carro e fomos. Dez pessoas assistiram em Londrina (risos)— diverte-se Camilla, acrescentando que sua opção pelo teatro em vez da TV, “com salário fixo de 40 mil cruzeiros” na época, lhe renderam “fama de louca”.

O isolamento social, as fake news, a cultura do ódio formam um contexto atual que dialoga diretamente com o tema de “As cadeiras”, segundo seus protagonistas: a falta de diálogo. A trama se passa no farol de uma ilha deserta, onde um casal de idosos vive o último dia de sua existência, preparando-se para a mensagem final que o marido irá transmitir à Humanidade.

— O texto aponta a falta de comunicação, a solidão, as artificialidades do ser humano — reflete Nanini. — Essa incomunicabilidade está presente na rua, no trânsito... As pessoas estão muito egocêntricas.

Para Camilla, Ionesco é vanguarda.

— Quando escreveu o texto, em 1951, ele já sentia que ninguém se comunicava de verdade. A Humanidade não muda, o homem não evolui, é inacreditável o que estamos vivendo.

Eles pretendem propor essa reflexão olhando nos olhos do público quando a vacina sair.

— Se der certo, quero continuar fazendo montagem para a internet, mas principalmente valorizar o teatro ao vivo. É a base de tudo, com uma lista de técnicos imensa. As pessoas esquecem disso, principalmente nesse governo. Acham que vamos lá nos divertir apenas. Também não gostam de artista se reunindo... Mas vamos seguir resistindo— garante Nanini.