De Marcola ao 13º salário: guerra de inverdades e aborto elevam a tensão em debate entre Lula e Bolsonaro

O último debate entre presidenciáveis foi marcado por ataques mútuos baseados em informações falsas, com Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o tempo todo tentando imprimir ao rival a pecha de “mentiroso”, acusação que um fez ao outro muitas vezes. Outro ponto de tensão do debate foi a troca de acusações que protagonizaram sobre o aborto.

A discussão sobre o aborto, uma polêmica recorrente das eleições, desta vez foi trazida à pauta por Lula, frequentemente alvo de falsas acusações pela campanha de Bolsonaro de ter a descriminalização da interrupção da gravidez em seu plano de governo. No entanto, no segundo bloco, Lula confrontou o presidente lendo trechos de um pronunciamento feito por Bolsonaro na Câmara dos Deputados, em 1992, defendendo uma pílula abortiva para controle de natalidade.

— Candidato se lembra desse discurso? “Não adianta uma multidão de brasileiros subnutridos sem condição de servir ao seu país”, concluiu o então deputado que oferece que seja distribuída pílula de aborto para a sociedade brasileira, em 1992, quando era deputado — confrontou Lula, lendo um papel. — Falou isso ou não?

O petista foi buscar nos registros da Câmara um discurso no qual o então deputado Bolsonaro de fato defendeu o controle de natalidade. A sugestão foi feita enquanto ele discursava a respeito de uma notícia sobre um medicamento que a China passaria a distribuir para os cidadãos para controlar a explosão populacional:

“É preciso, portanto, que todos tenhamos os pés no chão e passemos a tratar desse tema sem demagogia sem interesse partidário ou eleitoreiro, porque de nada adiantam nossas convicções religiosas, políticas ou filosóficas, quando se está em jogo, sem dúvida, uma questão bem mais grave e que, de fato, interessa à segurança nacional. Temos de viabilizar este país e apontar o caminho certo do desenvolvimento social e econômico”, disse Bolsonaro em seu discurso à época.

O então parlamentar afirmou que as famílias brasileiras deveriam ser conscientizadas sobre formas de “controlar as proles”, métodos que deveriam constar em currículos escolares. Em outro discurso, feito em agosto de 2003, Bolsonaro voltou a citar as pílulas abortivas como método de controle de natalidade. Em 2018, em sua primeira campanha à Presidência, Bolsonaro assumiu o discurso antiaborto como parte de sua plataforma política conservadora.

Após o ataque de Lula no debate, o presidente reagiu dizendo que não se lembrava mais do discurso de 30 anos atrás, mas que pode ter mudado de opinião. E contra-atacou dizendo que Lula já defendeu a legalização do aborto, chamando-o de “abortista”.

— Não confunda. É pílula do dia seguinte. Outra coisa: trinta anos atrás? Eu posso mudar. Você há poucos dias falou que aborto é questão de saúde pública. Que as madames iam fazer aborto lá fora. Você é abortista, Lula, abortista convicto. E sempre trabalhou com isso.

Lula respondeu:

— Primeiro, sou contra o aborto e minhas mulheres eram contra aborto. Minha mulher é contra o aborto. Eu respeito a vida, porque tenho cinco filhos, oito netos, e uma bisneta. Portanto, se você quiser jogar a culpa do aborto em alguém, jogue em você mesmo porque em mim não cola.

Apesar de repetir que é contra o aborto, o ex-presidente Lula já disse publicamente que o procedimento deveria ser tratado como uma questão de saúde pública, um dos principais argumentos dos defensores da descriminalização. Em abril deste ano, em um debate realizado em São Paulo com a participação de integrantes do Parlamento Europeu, o petista defendeu o direito das mulheres de decidir, afirmando que “madame pode fazer um aborto em Paris” ou “ir para Berlim procurar uma clínica boa”, enquanto mulheres pobres morrem ao tentar fazer o aborto.

— Aqui no Brasil ela não faz porque é proibido, quando na verdade deveria ser transformado numa questão de saúde pública e todo mundo ter direito e não ter vergonha — afirmou, na ocasião.

Um dos exemplos de ataque baseado em informação falsa, ao pautar o tema da flexibilização das armas, Bolsonaro voltou a falar sobre um ato de campanha que Lula fez no Complexo do Alemão, no Rio, em 12 de outubro, afirmando que o petista foi à comunidade encontrar criminosos e que “ninguém entra lá sem a polícia”:

— Não foi para ver o povo ordeiro e trabalhador, que é maioria. Você foi encontrar chefões do narcotráfico. Quis apenas fazer média com esses bandidos?

Em outro momento, o presidente sugeriu ligação do petista com chefes de uma facção paulista, dizendo que Lula não teve coragem de transferir Marco Willians Camacho, o Marcola, para presídio de segurança máxima. A decisão da transferência no entanto, cabe ao governo de São Paulo, não ao federal.

Já Lula, provocado por Bolsonaro desde o início do confronto a desmentir uma propaganda do PT que o acusava de, num eventual segundo mandato, acabar com férias e 13º salário do trabalhador, atribuiu falsamente a suposta declaração ao ministro da Economia, Paulo Guedes:

— Quem falou de 13º e férias foi o Guedes, pede pra sua assessoria dizer que ele não falou que ia acabar com 13º e férias.

No entanto, não há plano conhecido do Ministério da Economia para acabar com os benefícios citados. O que a campanha de Lula vem explorando nos últimos dias é um estudo da pasta para acabar com a correção obrigatória do salário mínimo pela inflação, o que Guedes também vem tentando desmentir.