Marcos Pasquim celebra ‘Kubanacan’ e fala sobre vaidade: ‘Se mulheres botam silicone quando cai, homens colocam cabelo’

Naiara Andrade
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Era uma vez um homem atlético que, com um tiro no peito e completamente nu, caiu do céu durante uma tempestade. Resgatado no mar por pescadores e cuidado por uma moradora da ilha, revelou-se desmemoriado. Não sabia quem era, de onde viera, nem o que estava fazendo ali. Ganhou um nome e apaixonou-se por sua salvadora, com quem viveu uma história de amor por alguns anos, até ser abandonado por ela. Aí, deixou a vida pacata na vila em direção à capital, onde desenvolveu transtorno de personalidade, passando a apresentar uma segunda versão, sombria. Envolveu-se com outras mulheres e foi perseguido, sem entender por que, usando vários disfarces. No fim, recuperado da amnésia, descobriu que era, na verdade, filho do tal homem misterioso que caiu do céu, vindo do futuro por uma máquina do tempo.

Ué, mas não era o próprio que tinha caído do céu? Está difícil de entender? É confuso mesmo! Não foi à toa que a fantasiosa e ágil história de Esteban Maroto prendeu a atenção dos telespectadores há 17 anos, quando “Kubanacan” ocupou a faixa das 19h da Globo: quem perdesse um capítulo da trama escrita por Carlos Lombardi dificilmente compreenderia o que estava por vir. A partir do próximo dia 7, os noveleiros vão poder matar saudade do Pescador Parrudo vivido por Marcos Pasquim e maratonar suas aventuras de trás para frente, e vice-versa, no Globoplay.

— Estou comemorando essa volta de “Kubanacan”! Acho a história boa, engraçada... Essa foi a novela mais longa que já fiz, com 227 capítulos, e a em que eu mais trabalhei. Não fiz um papel só: Esteban era desmemoriado; Dark Esteban, um agente secreto que estava sempre fugindo da polícia, usando disfarces. Então, além dos personagens fixos, eu fiz japonês, francês, russo... Teve de tudo! — diverte-se Pasquim ao relembrar: — Foi ótimo porque pude mostrar minha versatilidade. Mas, ao mesmo tempo, tenso. A gente recebia o texto de um dia para o outro para decorar, e era bastante coisa!

O ator conta que, durante todo aquele 2003, “viveu para trabalhar”. E, quando se viu à beira de uma estafa, pediu arrego ao autor.

— Foi um ano comendo novela, respirando novela... Fora Projac, você só me via na academia, porque tinha que ter um bom condicionamento físico para aguentar o tranco. Então, eu acordava às 7h, tomava café, ia malhar, voltava, comia, ia para a Globo gravar, saía de lá umas 21h/22h, estudava as cenas do dia seguinte até meia-noite e dormia. No terceiro mês de gravação, conversei com Lombardi, que é meu amigo: “Poxa, Lomba, dá um tiro no personagem. Deixa Esteban no hospital por um tempo... Eu estou bem cansado”. Ele ficou meio reticente, é claro. Sua novela está fazendo sucesso e seu protagonista pede uma coisa dessas... É meio absurdo, né? Mas eu fiz, ingenuamente. Aí, ele me deu o tiro. Só que eu acabei trabalhando em dobro, porque Esteban ficou em coma, e eu me desdobrei entre ele e Dark Esteban, o lado negro da força. Falava textos enormes comigo mesmo... Aprendi a tomar cuidado com o que pedir a um autor (risos).

A essa altura, Pasquim já era “o queridinho de Lombardi”, realizando seu quarto trabalho com autoria/supervisão de texto do roteirista (ele havia feito uma participação na terceira temporada de “Malhação”, em 1997, e protagonizado “Uga uga”, em 2000, e “O quinto dos infernos”, em 2002). Outras três parcerias viriam adiante: “Bang bang” e “Pé na jaca”, em 2006, e a série “Guerra e paz”, em 2008. A maioria, tramas muito “acaloradas”, em que a exibição frequente do peitoral definido do ator lhe conferiu um apelido-chiclete: descamisado.

— Essa é uma tônica do autor. As histórias se passavam sempre em lugares quentes. E eu, sendo protagonista, aparecia mais nessa condição. Aí, fiquei com esse estigma. Mas eu não tirava a camisa para me exibir, esse detalhe vinha sempre escrito no roteiro. Em uma cena ou outra, eu até questionava: “Precisa mesmo?”. Mas o autor e o diretor queriam... Eu fazia, né? E deu certo! — afirma o paulistano, cujas cenas calientes até motivaram a descoberta da homossexualidade de um fã: — Eu vi esse comentário no Twitter, ele dizendo que se assumiu gay vendo “Kubanacan”. Que bom que eu pude ajudar de alguma forma, né? (risos)

Curiosamente, sua estreia como ator aconteceu em 1992, na peça teatral “Blue jeans”, em que duas dúzias de bonitões cantavam, dançavam e, em certo momento, ficavam pelados.

— Nunca tive pudores com nudez e não acho que essa constante tenha prejudicado a minha carreira — descarta ele, afirmando que não faria nada diferente: — Ainda em “O quinto dos infernos”, antes de “Kubanacan”, as pessoas começaram a me chamar pelo meu nome, e não mais pelos dos meus personagens. Mesmo que Dom Pedro também fosse um “descamisado”, meus colegas atores me elogiavam bastante. Quando quem entende fala bem do seu trabalho, estar ou não sem camisa não tem a menor importância. Então, isso não me preocupou.

Aos 51 anos, Pasquim mantém o corpo atlético conquistado na juventude como jogador de vôlei e o sorriso maroto da adolescência, quando arrancou suspiros e gritinhos das meninas ao integrar uma boy band chamada Explosão, que chegou a se apresentar em programas de TV.

— Com 14/15 anos, já tinha trabalhado como programador de computador e office boy. Não estava fazendo nada, me convidaram a fazer parte da banda. Ficamos nos apresentando por um ano, tínhamos até fã-clube! Esse foi o meu primeiro contato artístico com o público. Naquela época, os Menudos estavam no auge, e me diziam que eu era parecido com o Robby — recorda o moreno, que se diz “afinadinho”, mas passa longe de encarar o desafio de um reality musical, tipo o “PopStar”: — Eu não me garanto se me colocarem em frente a uma plateia, soltando a voz. Ainda mais que tem júri! Não sou um ator que canta, sou um ator que arranha (risos). É uma frustração não ter vibrato, acho linda aquela tremidinha na voz. Já fiz aulas de canto. Muitas, aliás. Mas não dei continuidade.

Apontado como símbolo sexual até hoje, o galã que já levou mordida na bochecha de uma admiradora mais afoita garante não se incomodar com outras marcas no rosto: as da passagem do tempo. Se nunca se interessou por clareamento nos dentes, quanto mais se submeter à colocação de lentes de contato neles (“Tantos dentistas ligaram me oferecendo e eu não quis... Estou bem assim”). Sua vaidade, afirma, limita-se aos cuidados com o cabelo. Nada a ver com a cor grisalha dos fios, e sim com a possível ausência deles.

— Quando eu tinha uns 34 anos, meu cabelo começou a ficar ralo. Temi a calvície e fiz transplante capilar, como muitos atores. Se mulheres botam silicone quando cai, homens colocam cabelo! (risos). Na minha profissão, o visual influencia muito. Em “Kubanacan”, o cabelão de Esteban era todo meu. Já em “Pé na jaca”, usei megahair até a metade da novela, até o meu crescer de novo — lembra ele, entregando que, depois de ter “cinquentado”, tem revisto seus conceitos: — Agora, já relaxei. Posso ficar careca, que está tudo bem. Imagina fazer um personagem calvo ou gordo! Eu me transformaria fisicamente por um trabalho com o maior prazer do mundo.

Enquanto aguarda convites para voltar à TV — seu último trabalho foi a novela “O tempo não para”, na Globo, em 2018 — e o fim da pandemia para estrear a peça “O chefe” com o ator João Camargo — que também integrou o elenco de “Kubanacan” —, Pasquim tem gravado o filme de ação intitulado “Tração”, do diretor André Luis Camargo:

— Em fins de julho, a gente começou a filmar com todos os cuidados. Estivemos em Florianópolis, Balneário Camboriú, Campinas... A produção é sobre uma equipe de motociclistas. Nos moldes de “Velozes e furiosos”, só que sobre duas rodas. Meu personagem, Ajax, é um piloto de motocross — adianta ele, um apaixonado por motos desde a infância: — Com meus 9 anos de idade, já sabia me equilibrar em moto. Mas não faço saltos e coisas mais arriscadas. Isso, no filme, é com o dublê.

A rotina de trabalho vai voltando aos poucos, em meio a uma pandemia que parece interminável. Por quatro meses, o artista teve a companhia da mãe, Sueli, de 71 anos, em sua casa na Barra:

— Cuidei dela, a gente conversou bastante, comeu junto. Minha mãe ainda pensa que eu eu tenho 15 anos de idade: “Você sabe que vai ser pra sempre o meu Marquinhos”, ela diz — acha graça.

Dois mil e vinte também foi tempo de curtir o amor-próprio e a solteirice, depois do término de um namoro no fim do ano passado.

— Estou solteiro, não sozinho (gargalhadas). E disponível para um relacionamento duradouro. Nunca usei aplicativos de namoro, não costumo me relacionar por meio de redes sociais. Minhas conquistas são mais olhos nos olhos, o que tem estado prejudicado neste momento de isolamento social. Mas quero, sim, achar alguém para ficar junto — confessa o galã, que não recusa a ideia de se casar novamente e dar irmãos à filha Allicia, de 16 anos: — Por que não?