Margaret Atwood, de 'O conto da aia': 'Para mim, a questão do aborto é muito simples: o Estado é dono dos nossos corpos?'

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  • Margaret Atwood
    Margaret Atwood
    Canadian writer

Embora seja a entrevistada, é Margaret Atwood, autora de “O conto da aia”, quem faz as primeiras perguntas. Quer saber como está o clima em São Paulo e se impressiona ao ouvir que até em dezembro houve dias frios. Diz que no Canadá, sua terra natal, os invernos já não são mais tão rigorosos. Pergunta sobre a pandemia, sobre o andamento da vacinação e sobre os ataques do governo brasileiro aos povos indígenas. Atwood, porém, também opina. Fala sobre aborto, sobre a adaptação de sua obra mais célebre para o streaming, sobre a polarização do debate público, sobre viagens a Marte e sobre robôs sexuais. Aos 82 anos, a autora, que participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, se define como uma “escritora bocuda”.

Em 2022, a Rocco publica dois livros seus no Brasil: a antologia de contos “Stone Matress” e o romance “The Heart Goes Last”, que acompanha um casal falido que topa trabalhar (e morar!) num presídio privatizado e se envolve com robôs sexuais. Lançado em 2015, o romance é mais uma das distopias de Atwood, que, para a surpresa de seus leitores, anda interessada também em utopias. Tanto que, no ano que vem, vai oferecer um curso sobre o assunto. A seguir, confira o que ela disse ao GLOBO.

De todas as discussões contemporâneas sobre ética sexual, por que decidiu incluir o debate sobre robôs sexuais em “The Heart Goes Last”?

Porque a história pedia (risos). Os robôs sexuais avançaram muito. São um daqueles temas sobre os quais há posições extremas contra e a favor e quase nenhum meio-termo. Quando somos crianças, existem o bem e o mal, e nada no meio. Na vida real não é assim. Os robôs sexuais são tão perturbadores porque são quase humanos, mas não são humanos.

Você tem criticado a polarização do debate público. No ano passado, assinou um manifesto contra a cultura do cancelamento e foi duramente criticada...

Isso tem se repetido ao longo da minha vida. É o que acontece quando você tem uma opinião. O problema é o que eu chamo de “pensar em duas caixas”. É como se só houvesse duas caixas onde deveríamos encaixar tudo. Não é assim que a natureza funciona. Pense nisso.

Você já disse que não gosta da expressão “intelectual público” e prefere ser uma “escritora bocuda”. Muitos escritores só falam da própria obra, nunca sobre política. Por que você escolheu ser uma “escritora bocuda”?

A maioria das pessoas não pode expressar publicamente suas opiniões por medo de perder o emprego. Jovens escritores evitam controvérsias para não prejudicar suas chances de serem publicados. Um escritor, aliás, não precisa dar sua opinião. Quem exige isso de nós quer que sejamos parte de uma máquina de propaganda. Não tenho obrigação de opinar, mas decidi fazer isso. Tenho falado muito sobre a crise climática, que precisamos resolver ou não continuaremos no planeta por muito tempo.

Embora seja uma escritora proeminente há décadas, a série “The handmaid’s tale” tornou sua obra mais popular. Aumentou a pressão para que se manifeste ou recebe mais críticas às suas opiniões?

Quanto mais proeminente você fica, mais será atacado. Em 1972, eu tinha feito algum sucesso com um livro e um escritor me disse: “Agora você é um alvo e vão atirar em você”. Ele acertou! Digo a jovens escritores: “Se o seu livro for um best-seller, em um ano ao menos três pessoas que você não conhece vão atacá-lo pessoalmente. Prepare-se!” Isso acontece especialmente com jovens mulheres.

O hábito das aias virou uniforme de protestos do movimento feminista. Você mesma participou da luta das argentinas pelo aborto. Como se sente quando sua obra inspira os leitores à ação política?

Me envolvi na luta argentina pelo aborto a pedido do movimento Ni Una Menos, que denuncia os feminicídios. Para mim, a questão do aborto é muito simples: o Estado é dono dos nossos corpos? Quando você é obrigado a servir ao Exército, o Estado é dono do seu corpo e deve pagar por suas roupas, comida, moradia, despesas médicas etc. Se o Estado quer ser dono dos corpos das mulheres, que pague por isso. Sou velha o suficiente para me lembrar de quando o aborto era ilegal na América do Norte e posso dizer que o resultado não era positivo. Limitar o aborto a casos específicos é assassinato judicial.

Você diz que toda utopia contém em si uma distopia. Se é assim, por que você vai dar um curso chamado “Practical utopias: an exploration of the possible” (Utopias práticas: uma exploração do possível)?

Para debater utopias práticas. A maioria das utopias do passado era impraticável. O curso será parecido com projeto de ciência da escola, só que feito por cidadãos que vão tomar decisões bem informados sobre o combate à crise climática. No primeiro módulo, vamos discutir questões materiais: como serão as moradias do futuro, o que vamos vestir, quais serão nossas fontes de energia, o que vamos cultivar etc. Será que vamos cozinhar com energia solar? Se eu estivesse no Brasil, estaria muito interessada nisso. No segundo e no terceiro módulo, vamos debater a organização da sociedade: se haverá dinheiro, classe sociais, leis, gêneros... No mundo real, não há almoço grátis. Nossa tarefa é descobrir qual será o almoço mais barato.

Na Flip, você disse que a sabedoria indígena pode nos ajudar a superar a crise climática. No Brasil, o governo ameaça liberar o garimpo em áreas indígenas...

Vocês vão se arrepender disso. Se destruírem a Amazônia, o que será do mundo? O pensamento indígena me interessa há muito tempo. Cresci no Norte do Canadá. Então, quando diziam que os povos nativos haviam desaparecido, eu sabia que não era verdade. Os indígenas tinham mais poder quando os ingleses queriam se aliar a eles contra os franceses e vice-versa. Após o declínio do comércio de peles, fornecidas pelos nativos, colonos passaram a ser incentivados a invadir terras indígenas, impor suas leis e até matar búfalos para que os nativos não tivessem o que comer. Toda essa história está sendo desenterrada. Os indígenas podem nos ensinar como impedir que nossas utopias igualitárias se tornem ditaduras. Várias sociedades indígenas têm arranjos sociais igualitários em que as habilidades individuais também são premiadas.

A série “The Handmaid’s Tale” está indo para a 5ª temporada e já ultrapassou o que é narrado em “O conto da aia”. Você ainda sente que a história é sua?

Já escrevi para a televisão, então entendo como funciona. Muitos escritores ficariam horrorizados (risos)! Leio os roteiros, faço anotações, mas não tenho nenhum poder de veto. Na série, eles seguiram a regra que uso em meus livros: tudo deve ser inspirado em algo que já aconteceu, esteja acontecendo ou pode acontecer, porque já temos a tecnologia necessária.

O que você gosta de ler?

Tudo! Cresci sem televisão, rádio, telefone e eletricidade. Tudo o que eu fazia era ler, escrever e desenhar. Leio até revista de companhia aérea, caixa de cereal, rótulo de vinho. Aliás, rótulos de vinho são muito poéticos (risos)! Ultimamente, ando interessada por livros sobre História e a crise climática. Tenho estantes só com livros sobre a peste negra, julgamentos de bruxaria, folclore, história militar e feminismo. Meus interesses são muito diversos. Só não me interesso por astrofísica. Não tenho vontade de ir para Marte.

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