Maria Beltrão lança livro baseado em diário que revela suas intimidades e sua fé

Gabriela Germano
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A jornalista Maria Beltrão lança livro

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A jornalista Maria Beltrão lança livro

Quem acompanha Maria Beltrão no “Estúdio i’’, da GloboNews, vai alternar momentos de surpresa com aquela sensação de “ah, eu já sabia’’ ao ler “O amor não se isola’’ (Editora Máquina de Livros, R$ 42). Incentivada pelo marido, a jornalista de 48 anos passou a escrever um diário sobre assuntos aleatórios durante a pandemia. O resultado disso tudo reunido num livro escancara uma Maria tão envolvente quanto aquela que o telespectador vê no vídeo. Toda desenvolta ao lidar com as câmeras, ela pensou em desistir no início da carreira. Um encontro inusitado com Hebe Camargo na noite carioca a ajudou a repensar essa ideia. Nas páginas também estão suas refinadas referências culturais, de poetas brasileiros a musicais da Broadway, ao mesmo tempo em que ela assume assistir ao “BBB’’. Tem choro pela morte de pessoas queridas, mas também a alegria corriqueira da vida em família de uma mulher de fé. Se uma das lições que a pandemia trouxe foi nos fazer enxergar as belezas do cotidiano, mergulhar no dia a dia de quem tem algo a dizer pode ser um deleite. É um prazer conhecer a Maria.

A ideia de você fazer um diário de quarentena foi do seu marido, Luciano. Mas decidir transformar seus registros em um livro para todo mundo ler foi fácil?

Não foi nada fácil porque era uma coisa muito íntima. Como a proposta do Luciano era que eu escrevesse sobre qualquer tema, não necessariamente sobre mim, eu podia falar sobre outros assuntos. Até que um dia uma amiga citou João Ubaldo Ribeiro e achei uma coincidência incrível, porque eu tinha escrito sobre ele e comentei. Ela pediu pra ler e soltou: “Isso é uma crônica! Você precisa escrever um livro’’. As pessoas sempre me perguntavam porque eu não lançava, e minha resposta sempre foi a mesma: “Deus me livre, eu não tenho organização para isso’’. Mas depois desse questionamento, eu comentei com Guedinho (Octavio Guedes, comentarista da GloboNews) que estava escrevendo umas coisas e que ia mandar para ele o que eu tinha feito nos dez primeiros dias para que ele visse se não era muito íntimo. A sorte é que, quando achei que isso poderia virar livro, eu já tinha muito material. Algumas coisas mais íntimas não publiquei, mas 98% do diário estão ali.

Octavio Guedes, portanto, foi quem a encorajou a tornar isso público?

Foi tudo culpa do Guedinho! Quando eu fiz o prefácio do livro dele e do Daniel Sousa (“Essa república vale uma nota’’), ele falou que eu tinha que escrever algo, que meu estilo era muito gostoso, fácil de ler, e que as pessoas se identificariam. Eu sou descomplicada na vida. Eu tenho mania de simplificar tudo mesmo. Meu pai foi ministro da desburocratização (o advogado e economista Helio Beltrão, entre outros cargos, foi ministro de 1979 a 1983, no governo João Baptista Figueiredo). Trago isso dele, gosto de falar claro, sempre em português no lugar do inglês. Mas eu ainda tenho um pouco de vergonha do livro.

Vergonha de quê?

É um livro sobre a minha vidinha, sobre o meu particular. Fico me perguntando se meu cotidiano interessa a mais alguém além de meus amigos e de minha família. Mas eu adoro as coisas cotidianas!

Em meio a essa vergonha, o que foi filtrado do diário original para o livro?

Tirei coisas que entravam na privacidade de outras pessoas citadas. Mas a revisão foi complicada. Reler tudo escrito a mão, achando que um monte de coisa estava mal escrita. Mas eu não podia cair na tentação de tirar a naturalidade do diário. Se eu tentasse estruturar tudo num formato de crônica, perderia essa naturalidade.

No livro, sua família é bem exposta. Além do marido, sua filha Ana, sua mãe, seu tio Milton... Alguém achou que você falou demais?

Não (risos). Ana acabou de ler e disse: “Mãe, esse livro é você!”. Já sobre minha mãe, tive que contar que ela mente. Ela é mentirosa mesmo (risos).

Intimidades e fragilidades suas também são abordadas. Quem vê sua desenvoltura na TV pode se surpreender quando você diz que se achava péssima no vídeo...

Foram pelo menos cinco anos de muita insegurança no início da carreira. Devo ter pedido demissão umas dez vezes. Quando veio a tragédia do 11 de setembro, fiquei dez horas no ar direto e ganhei um elogio. Talvez aí eu tenha visto que tinha mais talento pra improvisar. Mas, por muito tempo, eu me senti deslocada, inadequada para os padrões. Agora, tudo de que eu tinha vergonha naquela época acabou virando minha assinatura.

Sua assinatura é a informalidade ao dar a notícia, você tem uma espontaneidade que se reflete no livro e que a aproxima de diferentes perfis de pessoas. Elas se sentem muito íntimas e passam do ponto no assédio?

As pessoas querem bater papo comigo. Sou faladeira, gosto de conversar mesmo. É isso que esperam de mim. Às vezes, num restaurante, eu até peço para acabar de comer e depois vou lá tirar a foto. Eu adoro ser reconhecida! Meu marido e a Ana até sentam quando eu vou conversar com um fã porque sabem que eu dou atenção.

Você deixa claro no livro que prefere falar de coisas positivas. Como mantém o otimismo nesse momento difícil da pandemia e tendo que dar tanta notícia ruim?

Tenho muita fé, acredito, tenho esperança. Eu converso com Deus sobre as coisas ruins e costumo dizer que ele sempre responde, até sobre os problemas mais difíceis. Quando deixo de rezar, fico mais mesquinha, mais chata. Acho que realmente será surpresa para muita gente que ler o livro o fato de eu realmente rezar muito, eu rezo o terço. Meu diário não é laico. Deus sempre faz com que eu encare os problemas de forma diferente. Eu tenho mania de achar que tudo ocorre para o bem. Rezo antes de entrar no ar e agradeço depois de sair.

O livro é leve, mas com trechos de maior profundidade. Quando você fala da perda de amigos ou do seu pai... Essa fé também a ajuda a encarar a morte?

Meu pai é minha maior referência até hoje. Das qualidades que mais gosto de ter dele, trago a simplicidade, o lutar contra a soberba. Não que eu seja super-humilde, não sou, isso é uma luta diária. Mas acho que puxei a coisa da empatia do papai. Ele era um homem público e eu via como ele falava com as pessoas. Ele nunca teve pressa pra ouvir o outro. Eu sempre li os discursos dele, muito simples, claros. Ele foi minha grande escola de comunicação. E me faz falta todo dia. Mas minha fé mudou minha perspectiva em relação a tudo, ouso dizer que até em relação à morte. Não que eu não vá me desesperar. Eu não consigo nem imaginar a morte de entes queridos. Mas a perspectiva é outra e, no fim do túnel, o sol chegará.

Nada abala o humor?

Eu acho que eu sou mal-humorada em casa. Mas Luciano diz que não (nessa hora o marido interrompe a entrevista e garante que ela é bem-humorada). Ele é um homem gentil, talvez esteja me enganando.

Em muitos trechos você fala que ama comida, cita a dieta... Como lida com o corpo e com o passar do tempo sendo vista todo dia na TV?

Acho que melhorei. Fiquei mais vaidosa conforme fui envelhecendo. Passei a destacar o que tenho de positivo. Eu acho que fiquei mais satisfeita com o tempo e isso passa para o outro. Minha mãe é arqueóloga e meu pai era 18 anos mais velho que ela. Ele dizia: “O bom é que, quanto mais caquético estou, mais ela gosta de mim’’. Eu me comparo a essa fala dele. Quanto mais eu fico velha, mais gosto de mim.

As vendas do livro estão boas. Como é ver tanta gente interessada em sua vida?

Estou muito feliz. No fim, é um livro que fala de amor. Fiquei me perguntando se a Maria revelada ali seria tão interessante assim. Será que esperam uma grande intelectual? Será que vão achar que eu choro demais? Mas estou gostando do retorno. As pessoas dizem que o livro faz bem a elas.

Na orelha, Christiane Pelajo diz que espera ler outras obras suas. Elas virão?

Não consigo imaginar. Eu acho que não vai ter mais essa conjunção perfeita de eu estar escrevendo um livro sem saber. Como digo em um capítulo, uma página em branco é uma das coisas mais aterradoras que conheço. Escrevo para o “Estúdio i’’, mas é a adrenalina que me move.