Maria Bethânia junta música e literatura em podcast: 'A arte é a única saída'

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Maria Bethânia ainda se lembra daprimeira vez que ouviu Mahalia Jackson, cantora americana de voz solene quegravou versões insuperáveis de clássicos da música gospel e do blues. Tinha uns12 ou 13 anos quando, junto do irmão Caetano Veloso e o compositor João Bosco,escutou Mahalia cantar “Summertime”. Mais ou menos na mesma época, recebeu doirmão um exemplar da revista “Senhor” e a indicação para ler a crônica “Osdesastres de Sofia”, assinada por Clarice Lispector. A partir dali, Bethânia setornou “a maior tiete” da escritora.

Não é de estranhar, portanto, queBethânia dedique o primeiro episódio de “Tabuleiro”, programa que ela estreianesta quinta-feira (4) na Rádio Batuta, “a meu irmão Caetano, que me ensinouClarice Lispector e o blues, com suas vozes extraordinárias”. O episódiointercala canções como “Pirate Jenny” (Nina Simone), “Strange Fruit” (BillieHoliday) e “Abalama Blues” (J.B Lenoir) e trechos de romances, contos ecrônicas de Clarice declamados pela cantora. Ao final do episódio, Bethânia lêuma passagem de “Água viva”, que termina com a afirmação “sou uma nota musicalgrave”, e Mahalia começa a cantar “Summertime”, a mesma versão que a baianaouviu adolescente. A voz de Mahalia, porém, logo se transforma na voz de JanisJoplin, interpretando a mesma canção, mas numa “versão enlouquecida”, que Bethâniaconheceu quando já era “mulher e cantora”.

— Acho que Clarice tem alguma coisaa ver com blues: com a dor do blues, a beleza do blues, a esquisitice do blues.Tanto Clarice quanto o blues têm uma coisa criativa, livre e dolorida — dizBethânia, por telefone, ao GLOBO. — Durante esse tempo que passei dentro decasa, ouvi muito blues para sair dessa tristeza da pandemia. O Brasil estámuito difícil.

A certeza de que há realmente umarelação entre Clarice e a música negra americana veio quando o poeta EucanaãFerraz, parceiro de Bethânia no programa, mostrou a cantora um outro trecho de “Águaviva”. “Pode-se transformar a dor em prazer”, diz a narradora, referindo-se aosescravizados que apanhavam de chicote dos brancos, a “um fio de lamento tristee largo e selvático” e ao “jazz em fúria”.

Carta branca

Eleita mês passado para a AcademiaBaiana de Letras, Bethânia conta que o convite para fazer “Tabuleiro” veio doInstituto Moreira Salles (IMS), mantenedor da Rádio Batuta.

— Me disseram que eu podia falar oque quisesse e escutar a música que quisesse no programa. Achei divertido eresolvi unir as duas coisas que eu gosto: literatura e música. É um programa amoroso. É para eugostar (risos) — diz a cantora que, em vez de “falar o quisesse”,preferiu ler trechos de alguns de seus autores preferidos. — Já estou cansadade falar de mim, do que penso, do que acho. Nem sabia que ia dar entrevistasobre o programa. Pensei que ia ser uma coisa escondidinha, pequeninha. Prefiroque os autores falem por mim. É assim que realizo meu ofício, no palco e nodisco. Eles dizem o que eu gostaria de dizer, são meus porta-vozes.

“Tabuleiro” terá seis episódios,disponibilizados às quintas-feiras. Bethânia escolheu as canções e osautores e Eucanaã selecionou os trechos declamados pela cantora. Haveráepisódios dedicados à obra poética e musical de Vinicius de Moraes (com direitoa Anitta cantando “Garota de Ipanema”), à paixão de Carlos Drummond de Andradee Chico Buarque pelo Rio, e aos poetas portugueses, tão queridos por Bethânia.Ela lamenta ter conseguido incluir apenas dois poemas de seu “querido Fernando (Pessoa)” no programa.Além dele, o episódio luso trará versos de Sophia de Mello Breyner, Eugênio de Andrade eManuel Alegre e as vozes de Amália Rodrigues, Luciano Pavarotti e Maria Callas.Caetano vai dividir um episódio com versos de Maiakóvski, Rimbaud, Byron eKeats traduzidos pelo poeta concretista Augusto de Campos.

Haverá ainda um episódio sobre oBrasil, com escritos dos modernistas Mário de Oswald de Andrade e de outrosintelectuais que se atreveram a interrogar o país, como o líder yanomani DaviKopenawa e a arquiteta Lina Bo Bardi, e canções de Milton Nascimento, Cazuza,Luiz Gonzaga e Nana Caymmi. Segundo Eucanaã, neste episódio, os ouvintes vãoescutar Bethânia declamando alguns autores pela primeira vez. A cantora é maisconhecida por suas interpretações de trechos de Clarice e de poetasportugueses, como Pessoa e Sophia de Bello Breyner.

— É uma coisa bonita de ver umaartista com Bethânia, que criou uma carreira tão sólida, com repertóriopróprio, se arriscando e se abrindo para o novo com tanto entusiasmo — dizafirma Eucanaã, que conheceu Pessoa primeiro na voz da cantora e só depois noslivros.

Bethânia, que lançou um novo disco ("Noturno") em julho, diz que passou a pandemiapreocupada em não se contaminar, sem cabeça para leitura.

— O maior esforço é sobreviver a essa violência massiva, que está no ar 24 horas por dia no Brasil. Estamos num períododifícil, que precisa acabar. Estamos todos muito abatidos — diz. — A arte é aúnica saída.

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