Maria Bethânia lança podcast sobre livros para fugir das notícias do Brasil

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***ARQUIVO***ÃO PAULO, SP, 28.08.2019 - A cantora Maria Bethânia durante a festa de 50 anos da Natura, na Casa Natura Musical, em São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***ÃO PAULO, SP, 28.08.2019 - A cantora Maria Bethânia durante a festa de 50 anos da Natura, na Casa Natura Musical, em São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu acho que a leitura tem que ser estimulada o tempo todo", diz Maria Bethânia quando o repórter pergunta se seu novo programa, "Tabuleiro", vem num momento em que os livros precisam ser especialmente incentivados. "E o Brasil é bom que se concentre em alguma coisa bem fora do noticiário, que está muito ruim."

A cantora lança na próxima quinta-feira (4) uma série de seis episódios em áudio que, se os nossos tempos tendem a entender como podcast, ela se delicia em chamar de "programa de rádio".

É na Rádio Batuta, canal ligado ao Instituto Moreira Salles, que ela mescla a leitura de grandes autores às gravações de grandes cantores, uma aproximação de música e literatura que nenhuma pessoa que já tenha assistido à dramaturgia de seus shows vai estranhar.

Cada episódio tem um tema sugerido pela cantora e textos colhidos com a ajuda do poeta Eucanaã Ferraz —ela se apressou em exigir que o primeiro unisse dois de seus amores, Clarice Lispector e o blues americano.

A escolha do repertório, que ela diz rindo que "chega a ser ingênua", se guiou mais pelos afetos que por qualquer outra coisa. "Vêm as memórias da minha adolescência, de quando conheci Clarice e ouvi as primeiras músicas das vozes negras americanas, em espetáculos de teatro, na 'Ópera dos Três Vinténs'. Tanto que eu abro com Nina Simone cantando 'A Jenny dos Piratas'."

Aqui Bethânia se refere a "Pirate Jenny", canção saída de Bertolt Brecht que abre alas para uma seleção com Billie Holiday, de "Stormy Weather" e "Strange Fruit", Mahalia Jackson, de "Summertime" e "Motherless Child", e Alberta Hunter, de "My Handy Man Ain't Handy No More".

Algumas dessas músicas têm forte carga política, o que gera um primeiro estranhamento diante da literatura profundamente introspectiva de Clarice. Mas a seleção textual é pensada em minúcia para realçar o que há de diálogo entre as obras.

"Um fio de lamento triste e largo e selvático está na minha voz que te canta", diz o trecho do romance "Água Viva", que Bethânia lê primeiro. "Os brancos batiam nos negros com chicote. Mas como o cisne segrega um óleo que impermeabiliza a pele —assim a dor dos negros não pode entrar e não dói. Pode-se transformar a dor em prazer. Cisne negro?"

"Isso tem uma força para mim, um vigor, de o negro escravizado sobreviver dançando, cantando, fervendo, estudando", comenta a cantora. "Na pandemia, eu passei a ficar muito em casa, e a música que gostava de ouvir era o blues do Alabama, do Mississippi, com aquele banjo. E achei que dava tudo certo com o que Clarice dizia."

O ouvinte é convidado a entrar nas memórias de uma Bethânia "bem menina", como ela diz. Seu irmão, Caetano Veloso, ganhou certa vez uma assinatura da revista Senhor, em que Clarice escrevia periodicamente. Um dia ele mostrou a ela o conto "Os Desastres de Sofia", e ela se apaixonou "igual você se apaixona por um perfume, por uma música".

A autora de "A Paixão Segundo G.H." arrebatava a rodo os corações de artistas por essa época, prova é Chico Buarque, que dedicou a ela um conto fascinado de seu novo livro "Anos de Chumbo".

Tanto Chico como Caetano, aliás, serão objetos de outros episódios de "Tabuleiro". O compositor de "Olhos nos Olhos" virá junto a poemas de Carlos Drummond de Andrade, enquanto o de "Reconvexo" será misturado com textos de Arthur Rimbaud e Lord Byron.

"O Drummond com sua classe, com sua elegância falando do Rio, traz um Chico muito vivo. Fica diferente do Chico que eu ouço apaixonada", se derrete Bethânia. "Caetano, com sua estranheza e sua afirmação, tem a cara dessas traduções de Augusto de Campos. É tudo que ele adora."

Os demais episódios terão de Vinicius de Moraes a Cazuza, de Davi Kopenawa a Oswald de Andrade. Tamanha fascinação por livros leva a pensar se Bethânia algum dia pensou em escrever um, ao que ela afirma não ter nascido com esse dom. "O que eu escrevo é muito para mim, eu queimo depois. É diferente."

E para ler, não tem "a menor educação, nenhuma disciplina", a única recorrência sendo a atração pelos autores que a acompanharam ao longo da vida, como Fernando Pessoa. "Eu gosto mais de namorar o meu pessoal, que já conheço", diz, num sorriso que se ouve por telefone. "Mas adoro quando me surpreendo."

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TABULEIRO

Quando Toda quinta a partir de 4/11

Onde Rádio Batuta

Preço Grátis

Apresentação Maria Bethânia

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