Maria Bopp, a 'Blogueirinha do Fim do Mundo', fala sobre assédio e cenas de nudez como Bruna Surfistinha

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Maria Bopp se diz fluente em ironia, coisa que nem todo mundo é. Inclusive quem acompanha no Instagram suas postagens como Blogueirinha do Fim do Mundo. “O vídeo que fiz de retrospectiva da pandemia viralizou. Em uma semana ganhei 129 mil seguidores. Pensei que eles tinham entendido, mas muita gente começou a me seguir para ver a influencer sem noção”, conta. Aos desavisados: Maria, 29 anos, é atriz e roteirista; a Blogueirinha é uma personagem criada para as redes sociais e, mais recentemente, para o programa “Saia Justa”, do GNT; sim, muitas das falas, como “Foda-se a vida!”, são reais, ditas por outros influenciadores (no caso, Gabriela Pugliesi); não, ela não passou o ano pandêmico de baladinha em baladinha.

A primeira aparição da Blogueirinha do Fim do Mundo, postada em fevereiro de 2020, foi um tutorial de maquiagem mesclado a tiradas políticas como “espalha [o corretivo] com o dedo mesmo, como espalha fake news no WhatsApp da família”. Até então, Maria era mais conhecida como protagonista da série “Me chama de Bruna”, inspirada na história da garota de programa Bruna Surfistinha. E nem era tão conhecida assim. “Eu tinha muitos seguidores argentinos, chilenos, mexicanos, porque a série (exibida inicialmente no Fox Premium) foi melhor no resto da América Latina do que no Brasil. Só agora que estreou no Globoplay e na Amazon que bombou por aqui.”

Quando a Blogueirinha nasceu, Maria tinha 39 mil seguidores, 75% deles homens. Imediatamente, a proporção de homens e mulheres se inverteu. Hoje a atriz tem 1 milhão de seguidores — e está em um relacionamento sério (mas tóxico) com as redes. “Sou infelizmente viciada em internet”, diz. “Passo mais tempo nela do que gostaria e, por causa disso, tenho a atenção mais fragmentada, leio menos.” Olhar o celular na cama é a primeira e a última coisa que faz no dia. “Às vezes é uma estratégia para acordar: já passo raiva nos primeiros 30 segundos, porque entro no Twitter e vejo alguma notícia. Mas é horrível começar o dia assim. Eu adoraria falar que sou uma pessoa que acorda e faz ioga”.

Maria mora com o namorado, o produtor de cinema Henrique Carvalhaes, que conheceu há 8 anos, nos tempos em que ela trabalhava como continuísta. A casa, no bairro de Pinheiros, em SP, é a mesma que aparece nos vídeos da blogueirinha. O cachorro que late ao fundo na entrevista também já fez suas aparições — “Racista, eu, que tenho um cachorro preto?!”, a Blogueirinha diz em uma postagem. Bettina Bopp, mãe de Maria, comenta em outra: “Mal sabem eles que você cria sozinha, escreve o roteiro no celular, escolhe o figurino e as locações, faz o cabelo, a maquiagem e a luz, se dirige, filma do celular, edita no celular, legenda. Tudo isso enquanto brinca com o Gil (o cachorro)”.

Filha de uma professora de inglês e um terapeuta holístico, Maria cresceu em um prédio no bairro da Vila Olímpia junto com o irmão gêmeo, a irmã dois anos mais velha e muitos amigos. Na adolescência, um trauma: um tio teve um ataque cardíaco e entrou em coma. Ficaria assim por 15 anos até morrer no ano passado, de pneumonia. Dois dias depois, a mãe dele, avó de Maria, também morreu. E foi Maria quem ligou para o tio-avô, o ator José de Abreu, para dar a notícia. “Minha relação com ele é cada vez mais próxima”, diz. “Agora, quando entrei pra militância, ele sempre fala que morre de orgulho, manda mensagem para mim, para minha mãe.”

A militância de Maria, segundo ela, começou na faculdade, quando estudava audiovisual no Centro Universitário Senac. O feminismo veio forte com hashtags como #meuprimeiroassedio. O dela foi com 11 anos, quando viajou para a casa de uma amiga no Guarujá. “Na praia, um velho tirou o pinto para fora e mostrou para nós. Ficamos muito assustadas”. Depois aconteceram outros, inclusive nos sets de filmagem. “Vários, infelizmente. Como continuísta. Porque, quando você vira atriz, parece que se cria uma hierarquia e as pessoas da equipe já não assediam.” Certa vez, de vestido, com um computador no colo, percebeu que um colega tentava tirar uma foto de suas pernas entreabertas. Em outra, o responsável pelo foco de uma cena errou e alegou ter se desconcentrado com o decote de Maria. “Soltou isso alto, e todo mundo riu.” Na época, pré-#metoo, ela não tirou satisfação. “Esses movimentos vieram também para esses homens aprenderem. Muitos podem no fundo ter ódio das feministas, mas acho que alguns aprenderam, sim.”

A passagem para a frente das câmeras foi gradual. No começo da faculdade, Maria fez figuração no filme “As melhores coisas do mundo” — “para ver um set profissional, para ver a Laís Bodansky”. Na ocasião, conheceu uma produtora de elenco que depois a convidou para a série “Oscar Freire 279”, exibida no Multishow em 2011. “Ela falou que tinha uma personagem que era a minha cara, extrovertida, meio mal-humoradinha, meio enxerida, engraçada.” Maria interpretou a prima da protagonista e morreu de vergonha em uma cena de sexo. “Não quis ficar pelada, fiz de sutiã.” Depois morreu de vergonha de novo ao contar que tinha feito o trabalho. “Quando publicavam no meu Facebook ‘Olha você nessa cena’, eu apagava o post.”

Foi em 2015 que Márcia Faria, diretora da “Oscar Freire 279”, a sondou sobre o papel de Bruna Surfistinha. Maria encarou o teste. Passou então de continuísta envergonhada a protagonista da série sobre a prostituta mais famosa do Brasil — com cenas de nudez hoje usadas por haters para tentar atacá-la. “Não fico constrangida, mas acho triste pela misoginia.”

Quando foi chamada para o papel, ficar nua já não era uma grande questão. O dilema era outro: “Estava apreensiva porque, querendo ou não, ia ser vista como uma série com cenas de sexo para o público masculino se deliciar”, diz. “E tinha medo de glamourizar a prostituição. Mas eu resolvi esse dilema fazendo a série. Também amadureci e entendo que as coisas não são excludentes. A gente tende a ver as coisas de forma binária: ou você é prostituta ou você é feminista, os dois não dá. Às vezes dá.”

Essa crise passou, e a Blogueirinha do Fim do Mundo surgiu de outra: “Foi um incômodo meu de muitas celebridades da internet não falarem de política, não se posicionarem. E também uma crítica ao governo”. A personagem apareceu primeiro em um curso em que Maria fez um exercício sobre a peça “Fim de Partida”, de Samuel Beckett. Migrou depois para a internet e, com o início da pandemia, pareceu feita sob medida para tempos apocalípticos.

O tempo é também de tretas, e Maria tem sua cota delas, com figuras que vão de Robinho a Fiuk, sem contar as blogueiras. “A internet às vezes é um lugar em que cada um gosta de se sentir moralmente superior ao outro. Eu inclusa”. A atriz diz que não pretende achincalhar ninguém. “Meu ponto é que as pessoas tenham senso crítico sobre o conteúdo que consomem, porque muitas vezes ele pode ser prejudicial para a autoestima.”

O limite entre a crítica e o bullying não é tão claro, mesmo para ela. “Às vezes eu posso talvez ser destrutiva nos meus vídeos”, diz. “Como somos seres incoerentes, falo de ser gentil e acredito no aprendizado das pessoas, ao mesmo tempo acho que essas pessoas têm que ser expostas e constrangidas publicamente. Porque talvez só assim entendam. Se não é no amor, é pela dor.”