Maria Gadú guia convidados por uma viagem pelo Tapajós, suas belezas e ameaças em série

Enquanto a canoa serpenteia pelos canais da Floresta Encantada, perto de Alter do Chão, no Pará, a cantora e compositora Maria Gadú “batuca” as águas do Rio Tapajós, munida de um grande microfone que capta este e outros sons da mata. Durante quase três semanas, em março, navegar em busca de sonoridades, histórias e personagens foi a rotina de Gadú e seus convidados — o cantor e compositor Lenine, a médica e ex-BBB Thelma de Assis e o influencer Victor di Castro. O resultado da imersão está na série “O som do Rio”, idealizada e produzida por Gadú, estrelada por ela e pela ativista indígena Val Munduruku e dirigida por Carol Quintanilha, em cartaz no YouTube. Em quatro episódios de 18 minutos, a obra tem ainda a participação do youtuber Felipe Castanhari, que faz intervenções didáticas.

“O objetivo era ser dinâmico para atrair o interesse das pessoas”, conta Gadú, que tem se aprofundado cada vez mais nos estudos de antropologia e no ativismo ambiental — ela mesma tem ascendência indígena de povos originários do Rio Negro, embora desconheça mais detalhes: “É uma história que, como tantas outras, foi apagada”. A ideia era promover a interação entre lideranças indígenas e pessoas de fora com pouco ou nenhum conhecimento sobre a região. Os interlocutores da cidade, de certa forma, representam os espectadores da série, que do outro lado da tela vão sendo guiados pelas emoções, perguntas e sobretudo pelo deslumbramento de quem visita o Tapajós. “É muito maravilhoso, espetacular. Não há adjetivos para dizer o quão impactante é aquilo tudo”, conta Lenine. Ele já tinha estado antes na região. “Mas desta vez foi muito intenso. Pudemos conhecer a dinâmica das pessoas e lugares que visitamos, comunidades ribeirinhas, a floresta, confluências de rios. Foi muito poderoso”, lembra o cantor.

À beleza das paisagens o roteiro soma conversas com lideranças locais, em sua maioria mulheres indígenas, que narram histórias de luta e de resistência e oferecem um panorama das principais mazelas que ameaçam a integridade do Tapajós e seus povos, como garimpo ilegal, desmatamento, urbanização e especulação imobiliária. Entre os perigos mais alarmantes está o mercúrio despejado no rio pela mineração. “Estive no Tapajós em outubro passado, e ele ainda estava meio azul. Em março, já estava marrom”, conta Gadú. “A ideia de que Alter do Chão é um Caribe de água doce já era. Visualmente isso acabou e, pior, a água está contaminada”, lamenta a cantora. “Por isso, a taxa de mortalidade infantil é alta, há inúmeros casos de hidrocefalia, as pessoas têm níveis altos de mercúrio no sangue. Os relatos são muitos”, lamenta. Esse foi um dos motivos pelos quais Gadú decidiu filmar no Tapajós e não no Rio Negro, como havia planejado — a cantora chegou a morar naquela região, antes e durante a pandemia. Mas, como ativista, ela se pauta pela urgência: “A questão no Tapajós é muito mais grave. Me chocou a velocidade do crime e da transformação do rio”. Lenine também se impressionou: “Parecia que eu estava visitando um dos últimos rios originais”.

A navegação é pontuada na série por Felipe Castanhari, que explica que “nos últimos 30 anos, as terras indígenas brasileiras tiveram apenas 1% de desmatamento” contra 20% das áreas privadas, e que “a demarcação de terras ajuda a frear o desmatamento e, por consequência, a barrar a crise climática”. Na Amazônia, Val Munduruku fala sobre o Marco Temporal, cuja tese prevê que só sejam demarcadas as terras indígenas ocupadas pelos povos originários até a promulgação da Constituição de 1988 — o caso teve seu julgamento mais uma vez adiado pelo Supremo Tribunal Federal, em junho. Castanhari argumenta que, se aprovado, ele “varrerá para debaixo do tapete o fato de que eles passaram séculos sendo expulsos de suas terras”. Outro dado impactante: o garimpo em terras indígenas aumentou 495% nos últimos dez anos, segundo a ONG Mapbiomas. Com toda a degradação vem o apagamento das histórias e das identidades dos povos — das 600 línguas indígenas que se falavam no Brasil à época da chegada dos colonizadores, só restaram 274. “É fundamental a gente ter a consciência da responsabilidade que temos com esse incrível habitat”, alerta Lenine.

Para a diretora Carol Quintanilha, a série tem o objetivo de “furar bolhas”: “Estamos cansados de ver filmes ativistas para quem já está convertido e vai concordar com tudo. Queremos expandir e falar com pessoas mal-informadas ou que simplesmente não param para pensar”, afirma. “Nem só de denúncias é feito ‘O som do Rio’. A série traz à tona a beleza da natureza e acompanha as emoções de quem está ali, vivendo a experiência sensorial da imersão, observando as estrelas à noite ou ainda no processo de composição de Gadú de uma canção ao longo da viagem.

A música, ela diz, não foi composta, e sim “recebida”. Foram necessários quatro minutos para que a letra viesse à cabeça e fosse registrada em frente às câmeras. “Eu me dei essa incumbência de fazer uma música, mas me deixei livre, não fiquei pensando nisso”, conta. “Até que esse acúmulo de vivências me deu a canção. Foi uma loucura”, lembra Gadú, que montou um estúdio no barco e gravou com sons captados na floresta: águas, árvores, cantos de pássaros e de mulheres indígenas. “Pássaro d’água”, ainda inédita nas plataformas, pode ser ouvida no último episódio de “O som do Rio”, como um belo registro de uma visita à Amazônia que, contra tudo, ainda resiste.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos