Maria Mariana sobre os quatro filhos: 'A adolescência deles é diferente da minha, eles têm orientação espiritual'

Marcia Disitzer
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Quando era adolescente, nas décadas de 1980 e 1990, Maria Mariana ouviu de seu pai, Domingos Oliveira (1936-2019), um conselho que mudou sua vida. Na época, o dramaturgo e cineasta sugeriu que ela registrasse nas páginas de um diário a explosão de hormônios, descobertas, sensações e frustrações, típica do período em questão. Em 1992, os relatos da jovem se transformaram na peça “Confissões de adolescente”, dirigida por seu pai e encenada por ela, Ingrid Guimarães, Carol Machado e Patrícia Perrone, no porão da Casa de Cultura Laura Alvim. Assuntos como aborto, sexo e drogas eram discutidos abertamente no palco e o espetáculo, que ficou 15 anos em cartaz (alternando o elenco), foi um marco daquela geração. Também virou livro, ganhou adaptação para a TV no formato de série, dirigida por Daniel Filho, e foi parar no cinema. “Amo muito a minha história”, diz Maria Mariana, de 47 anos.

É em reverência à sua trajetória e à obra do pai que a atriz está de volta à TV, depois de mais de dez anos afastada, numa participação afetiva na série “Todas as mulheres do mundo”, que homenageia o legado de Domingos Oliveira. O seriado, exibido pela Globoplay, foi lançado na última terça-feira na Globo e tem 12 episódios. Maria Mariana aparecerá no sexto, dia 9 de março, na pele da terapeuta Clarissa. “Foi ótimo fazer.

Tinha pouco tempo que meu pai havia desencarnado, fui superbem recebida pela equipe, que estava lá por acreditar no projeto”, conta a atriz, que contracenou com o ator Emilio Dantas, intérprete do eterno apaixonado Paulo.

A aparição de Maria Mariana na TV é uma oportunidade para quem deseja matar a saudade. Mãe de quatro filhos — Clara, de 20 anos, Laura, de 18, Gabriel, de 16, e Isabel, de 13, do casamento de duas décadas com o médico André Pessanha —, ela escolheu morar longe do Rio. Depois de viver 14 anos em Macaé, a família se instalou, em 2019, numa casa em Petrópolis. “Realizei um sonho, sempre quis voltar a morar na Região Serrana, nasci em Teresópolis”, comemora.

A maternidade, Maria Mariana ressalta, é um desejo de criança. “Foi um chamado. Todos os meus filhos nasceram em fevereiro, engravidei na sequência. Fiquei sete anos sem menstruar”, detalha. A vontade de ser mãe de vários se deve ao fato de ser filha única: “De pai e de mãe. Nunca quis ter um só e acho bem mais fácil assim, eles se educam e se ajudam também.”

A opção por uma vida longe dos centros urbanos e dedicada à grande família é analisada em retrospecto. “Iniciei nos palcos ainda criança, sou filha dos bastidores. Comecei no teatro aos 16 e aos 19 já tinha notoriedade. Quando completei 26, já tinha feito tudo, viajei, ganhei dinheiro. Quis viver a experiência da maternidade plenamente e precisei de um tempo de regeneração, para ver quem eu era”, lembra. “Para qualquer mulher a maternidade é um renascimento”, opina. O pai nunca entendeu completamente a filha ter parado de trabalhar. “Mas acabou aprovando as minhas escolhas e foi um superavô”, frisa.

A porção atriz continua presente. Porém, ao longo dos anos, Maria Mariana desenvolveu outras vocações. Tornou-se instrutora de ioga, fez formação em Antroposofia (método de conhecimento da natureza humana e do universo introduzida, no início do século XX, pelo austríaco Rudolf Steiner) e está cursando o terceiro período de Psicologia. Todos os canais têm um mesmo destino: o autoconhecimento. “Sou uma caçadora de mim. Estou nesse movimento de voltar

ao palco com uma pegada terapêutica”, explica. Maria Mariana — que lançou o livro “Confissões de Mãe”, em 2009 — reflete sobre a fase adolescente, agora vivenciada pela prole. “Meus filhos são muito tranquilos, nós seguimos uma religião chamada União do Vegetal. É espírita de doutrina cristã reencarnacionista”, descreve. “A adolescência dos quatro é diferente do que foi a minha, eles têm essa orientação espiritual desde cedo”, compara. A busca pela religião, assim como o chamado da maternidade, é nato. “Meu pai se dizia ateu. Minha mãe (a atriz e escritora Lenita Plonczynski) também não é ligada. Tive a necessidade de Deus”, observa.

Sobre Domingos, ela é só emoção. “Quando meu pai se foi, estava sofrendo muito devido ao mal de Parkinson. Mas se comportou como um guerreiro, continuou repleto de projetos até o fim. Chegou a fazer um documento em cartório registrando que não queria ser internado num hospital”, relata. “Deixou muita coisa por fazer, mas, com a pandemia, tudo foi jogado para frente. Quero mostrar para o mundo o artista que ele é. Meu pai sempre será muito importante para mim”, conclui.