Maria Rita lança registro audiovisual do 'Samba da Maria' e fala sobre posicionamento político: 'Tive medo de apanhar na rua'

Maria Rita não prometeu nada. Quando seu primeiro álbum foi lançado, em setembro de 2003, a gravadora Warner, munida de um megaesquema de divulgação, a anunciava como “a cantora que todo o mundo estava esperando”. Questionada nas entrevistas se concordava com a frase, a artista costumava responder com ironia: “Não sei. Tem que perguntar para todo o mundo”. Vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Duas décadas depois, aos 45 anos, Maria Rita entregou tudo. Ganhou oito Grammys Latinos, encarou o repertório da mãe, Elis Regina, numa turnê que reuniu mais de 100 mil pessoas logo na estreia, e se estabeleceu no samba. Com o ritmo, fez história no último Rock in Rio, ao levar toda a catarse do “Samba da Maria” para o Palco Sunset. O espetáculo, cujo repertório reúne músicas de medalhões como João Bosco, Dona Ivone Lara e Monarco, corre o Brasil desde 2017 com plateias abarrotadas e ganha, no próximo dia 10, um registro ao vivo. O show foi gravado em São Paulo e estará em formato audiovisual no YouTube e como álbum nas plataformas de música.

A apresentação também reverbera o EP “Desse jeito”, este pela gravadora Som Livre, que chegou às plataformas em agosto e marcou a estreia da artista como compositora em duas das seis faixas. “Foi uma volta pós-pandemia, com uma descarga de energia positiva”, define Maria Rita, que também celebra nas canções o encontro com a fé, por meio do candomblé. Juntos, esses trabalhos abrem os caminhos para as comemorações de 20 anos de carreira, que devem ganhar uma turnê especial, ainda em elaboração. “Só não quero fazer algo óbvio.”

A cantora anda matutando como levar toda essa história para os palcos, enquanto mergulha na própria trajetória. Afinal, ela reconhece, não foi fácil. “Teve muita dor, tristeza, porrada e decepção”, desabafa, numa entrevista de duas horas por chamada de vídeo, regada a lágrimas e gargalhadas. “Mas há também um amadurecimento, um entendimento de como é o ser humano. E há a certeza de olhar para trás e ver quantas vezes tentaram me derrubar ou eu me derrubei, mas levantei. Costumo brincar que, para me derrubar, tem que ser um caminhão de 35 metros.”

Embora seja filha de uma das maiores cantoras do Brasil e do cultuado musicista César Camargo Mariano, Maria Rita chegou à música caminhando na ponta dos pés. Depois de morar por oito anos nos Estados Unidos, onde concluiu o ensino médio e fez faculdade de comunicação, voltou ao Brasil em 2002, diante da crise provocada pelos atentados de 11 de Setembro. Começou a trabalhar como produtora até enfrentar um dilema que a deixou quatro noites sem dormir. “Levei anos para entender esse meu lugar na vida, quase entrei em depressão profunda. Já estava à beira da loucura, até que cheguei e disse: ‘Só quero cantar’”, recorda-se, sobre uma conversa com o pai.

Os primeiros registros públicos dessa vontade se deram em participações num show do músico Chico Pinheiro, para plateias de 80 pessoas, e em três faixas do álbum “Pietá” (2003), de Milton Nascimento. Dali pulou para um espetáculo apelidado por ela de “Jeans e camiseta”, em que este era literalmente o figurino, até ser cortejada por Tom Capone. O produtor, morto em 2004, assinou a direção artística do primeiro álbum, “Maria Rita”.

A jovem que “só queria cantar” passou, então, a lidar com a fama de uma artista cercada por expectativas e comparações com a mãe, sobre as quais disse, num desabafo recente, não querer mais responder. Elis morreu quando Maria Rita tinha apenas 4 anos, o que fez com que a única memória da filha fosse justamente o velório da cantora, no Teatro Bandeirantes, em São Paulo. “Para mim, ela estava dormindo e tinha um monte de gente em volta. Depois, comecei a achar que tinha feito algo errado, e ela tinha ido embora por minha causa”, recorda-se.

Lá pelos 12 anos, Maria Rita leu, escondida, uma pequena biografia sobre a mãe e descobriu que o laudo de morte indicava uma overdose como causa. Foi um choque para a pré-adolescente que cresceu cercada por campanhas antidrogas na TV e até hoje segue sem qualquer experiência do tipo. “Não gosto de perder o controle e tenho uma personalidade intensa. Então, nunca provei drogas. Mas não posso dizer que foi por causa da minha mãe. Foi por instinto”, afirma.

Ao perceberem a confusão na cabeça da garota, amigos que conviveram com Elis chamaram Maria Rita para uma longa conversa, na qual lhe apresentaram a mãe em toda a sua complexidade, para além da exposição midiática. “Tive de aprender a amar aquela mulher”, reconhece. “É por isso que afirmo até hoje que, se eu sentir que a agressividade do mundo de fora está me colocando contra a minha mãe, paro de cantar. Sem dó, sem tristeza e sem sofrimento. Fiz essa promessa para mim mesma no começo da carreira.”

Quem assiste a um espetáculo de Maria Rita testemunha uma artista em plena entrega diante de um público vidrado. “Saio do palco desintegrada. É tão intenso, que não me lembro do show depois”, ela descreve. Não é por acaso que tem cadeira cativa nos projetos de Zé Ricardo, o curador do Palco Sunset, no Rock in Rio. Ele já a convidou para outras elogiadas participações no festival, como a de 2017, quando revisitou Ella Fitzgerald. “A Maria Rita utiliza a voz como os músicos usam um instrumento”, compara Zé. “É umas das maiores cantoras que conheci. Já trabalhamos em vários projetos, e é sempre a mais dedicada e focada.”

A entrada para o samba se deu com o mesmo rigor. Durante a faculdade, nos Estados Unidos, Maria Rita cursou disciplinas em que estudava o ritmo em toda a sua complexidade e histórico de resistência. Portanto, tinha noção exata de onde estava pisando, ao frequentar as primeiras rodas. “Quando a Mart’nália me chamou para cantar na Lapa com a Alcione, só abaixei a cabeça e fui”, narra. A consagração final saiu da boca de Arlindo Cruz. “Um dia ele disse: ‘Você já é nossa’. Foi como se tivesse me dado a bênção.”

Teresa Cristina, de quem se tornou amiga, apela até aos astros na hora de justificar a sintonia com a cantora, com quem gravou a faixa “Canção da erê dela”, uma das composições de Maria Rita. “A gente se dá bem e isso é curioso, pois somos o oposto. Sou Peixes com ascendente em Virgem, ela é virginiana com ascendente em Peixes”, compara Teresa. Mapas astrais à parte, a conexão é selada pelo respeito à música. “Temos que chegar num ambiente que não conhecemos com reverência. A Maria fez o certo. É só observar a trajetória dela, o carinho ao tratar o samba e os compositores, sempre gravando canções inéditas.”

Toda a entrega ao ofício, contudo, jamais a poupou das consequências mais perversas da fama. Tão logo ganhou notoriedade, Maria Rita viu o próprio corpo virar alvo de ataques na imprensa e, posteriormente, nas redes. Na turnê de “Samba meu”, em 2008, ouviu críticas sobre o figurino sensual. “Diziam: ‘A mãe dela não precisava usar roupa curta para cantar’”, recorda-se. “Agora que engordei, o comentário é: ‘Ela não está bem’. Mas quem está bem depois de uma pandemia e de quatro anos de um governo como o que tivemos? Tínhamos um presidente declarando os artistas como inimigos. Tive medo de apanhar na rua. Alguém me pergunta se estou bem ou feliz com o meu corpo? Não! É só dedo na cara. É um grau de cobrança com as mulheres cujo resultado está nas ruas: todo o mundo com a mesma cara, o mesmo peito e a mesma barriga. É importante para alguém que eu esteja acima do meu peso? Ah, vá estudar, vá ler um livro!”

A menção ao cenário político tem a ver com as falas contundentes, ditas pela cantora nas redes e nas apresentações, contra o avanço do conservadorismo e as negligências do governo passado. “Só eu sei o tanto de oportunidades que perdi por ter um posicionamento declarado”, afirma. Por outro lado, Maria Rita viu surgir espontaneamente gritos de “ele não” entoados pelo público, ao cantar “Cara valente” nos shows. O comportamento entrou até para a gravação do “Samba da Maria”, o que a fez compreender o material como parte de um registro histórico, já que se deu no calor das eleições de 2022.

A postura também fez da cantora uma das atrações mais aguardadas do Festival do Futuro, na posse de Lula, no qual imagens de bastidores mostram ela e a esposa do novo presidente, Janja Lula da Silva, trocando afagos. As duas se tornaram próximas nos últimos anos, depois de serem apresentadas por amigos em comum. “A empatia foi imediata. A nossa troca sempre foi muito genuína e feminina, com uma apoiando a outra”, afirma Maria Rita. “Já disse a ela o quanto a vida pública é difícil e que não precisa se sentir sozinha. Se necessário for, pego um avião e vou a Brasília.”

Mãe de Alice, de 10 anos, do casamento com o músico Davi Moraes, e Antonio, de 18, com o diretor de cinema Marcus Baldini, a cantora precisa lidar, mesmo a contragosto, com as cobranças e especulações que recaem sobre uma mulher solteira aos 45 anos. No fim do ano passado, teve que desmentir, por meio da assessoria de imprensa, notícias de que estaria namorando uma mulher. “É duro mandar uma mensagem para o meu filho às 9h, dizendo que é mentira e que, se fosse verdade, ele seria a primeira pessoa a saber. Tudo isso para protegê-lo de macho escroto que pode zoá-lo na rua.”

Em meio a reflexões sobre machismo e preconceito, Maria Rita reconhece que ela própria precisa se resguardar para não absorver os estereótipos que permeiam a sociedade. “Essas expectativas formam o nosso pensamento sobre nós mesmos, né?”, diz. “Às vezes, me pego pensando que acabou para mim. Que homem vai querer se envolver com uma mulher com dois filhos, uma carreira pública e que está com sobrepeso?”, afirma. “Mas, como diriam os jovens, ‘tô de boa’. Não estou procurando, nem com expectativa. Tenho muita coisa para fazer.”

Não há qualquer exagero na frase. Além da agenda cheia, ela precisa lidar com um filho se tornando adulto e uma menina com os pés na pré-adolescência. Ensinar sobre intolerância quanto a gênero e raça, diz a cantora, não é um bicho de sete cabeças e ambos já estão inteirados dessas pautas. “Quem se senta com eles para uma conversa vê o quanto são gente boa”, gaba-se. Difícil mesmo, pondera, é evitar que sofram ou frustrem-se algum dia na vida. “Mas acho que faz parte desse mundão, né?”

Pode ser menos traumático, porém, quando se tem uma mãe que é mestre na arte de se reerguer.