Maricá pratica economia circular e desenvolve crescimento sustentável

Em Maricá, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o antagonismo entre estado e iniciativa privada defendido por parte dos economistas deu lugar a uma aliança sólida e profícua, que permitiu um efeito ganha-ganha junto a trabalhadores e empresários no enfrentamento da crise da Covid-19.

A experiência local evidenciou a prática da economia circular na cidade e estimulou um amplo debate no dia 14 de julho, no Cine Henfil, cinema público municipal de Maricá, sobre modelos de desenvolvimento econômico e social com sustentabilidade.

Realizado pela Editora Globo, o seminário “Maricá: economia circular para um desenvolvimento econômico e social sustentável” contou com apoio da Prefeitura de Maricá e da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar). O evento ganhou amplitude com transmissão via Facebook e YouTube do GLOBO. O jornalista Pedro Doria foi o mediador dos debates.

VEJA O SEMINÁRIO NA INTEGRA ABAIXO

O prefeito de Maricá, Fabiano Horta, abriu o seminário fazendo uma cronologia do modelo econômico focado na transferência de renda, por meio da moeda social da cidade, a mumbuca, instituída em 2013. Ao todo, mais de 42 mil pessoas em situação de vulnerabilidade são beneficiadas pelo programa, que concede 170 mumbucas mensais (equivalentes a R$ 170) para serem utilizadas em 12.608 estabelecimentos comerciais no município.

— Maricá apostou na importância de construir cadeias de proteção social a partir da transferência de renda. Esse é um valor fundamental, em que fincamos uma das estacas do desenvolvimento da nossa cidade com a prática da economia circular — disse Horta, ressaltando que os programas sociais focados na mumbuca impediram que empresas locais demitissem na pandemia.

Com grande parte da renda proveniente dos royalties de petróleo, a cidade — que tem beleza natural riquíssima com praias, cachoeiras, lagoas e montanhas — projeta um futuro de destaque no mapa turístico do estado. Investe na despoluição de lagoas com método natural, sem química, em parceria com a Universidade Federal Fluminense, na construção de um circuito de museus e recantos turísticos, como o Deck Pôr do Sol, de onde é possível assistir a shows musicais.

PACTO SOCIAL

Participando do primeiro painel — “Olhando para o futuro: o desafio de compatibilizar desenvolvimento econômico com justiça social” —, Tereza Campello, ex-ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, apontou os mais pobres como prioridade máxima:

— Considero insuficientes os modelos econômicos e ambientais que não incluem a população. Temos que colocar o pobre na discussão orçamentária. Essa é a economia circular na prática.

No mesmo painel, Olavo Noleto, presidente da Codemar, lembrou que, com a Constituição de 1988, o Pacto Federativo impôs aos municípios uma responsabilidade muito grande.

— Toda vez que se discute isso, falamos sobre os poucos recursos que os municípios disponibilizam, mas também devemos abordar os vários pactos federativos que precisam ser amadurecidos para que a população receba os serviços com a devida qualidade.

Completando o painel, Gabriel Galípolo, pesquisador e mestre em Economia Política pela PUC-SP, pontuou que o gasto social nunca deve ser temido:

— O orçamento é um pilar da democracia e não uma peça técnica, discutida pelos economistas com um vocabulário que exclui a população desse debate. Precisamos normalizar a discussão orçamentária e democrática no país, para que se compreenda que o desenvolvimento social, o ambiental e o econômico são simbióticos.

PODER DE CONSUMO

Com o tema “De Maricá para o Brasil: o legado da cidade para um desenvolvimento econômico e social sustentável”, a segunda parte do evento debateu as medidas sociais que transformaram a cidade.

Secretário de Desenvolvimento Econômico, Igor Sardinha lembrou que Maricá já teve um passado em que era mais vista como cidade-dormitório. O município costumava ter boa parte dos moradores trabalhando em outras cidades, como Rio e Niterói, gastando recursos no comércio de outros municípios.

A mudança local só começou a partir da implementação do programa Renda Básica de Cidadania, com a moeda social mumbuca, que deu à população mais vulnerável poder de consumo e segurança alimentar.

— Hoje, somos a terceira cidade do país com maior variação relativa na geração de postos de trabalho formais. Temos compromisso com o presente das pessoas.

Guilherme Mello, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que políticas de desenvolvimento de Maricá devem servir de exemplo para o país:

— Maricá tem condições de exportar sua experiência, porque mostra que o Estado também pode criar, inovar, investir e empreender, com função que vai além de uma simples zeladoria. É possível dar melhor uso aos recursos que as cidades arrecadam e alcançar as zonas cinzentas que os agentes privados evitam por temer o risco.

Fechando o painel, We’e’Ena Tikuna, empreendedora e ativista indígena, exaltou a presença indígena em Maricá, onde há duas aldeias do povo Guarani.

— Quando recebi o convite para falar sobre economia e sustentabilidade, percebi que a cidade é realmente um espelho para as demais, porque se transforma para ajudar o seu povo. É dessa forma que nós, os povos indígenas, olhamos para a sociedade, porque ninguém trabalha sozinho — afirmou a ativista e empreendedora.

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