Maricá terá museus e centros culturais em casas que pertenciam a Maysa, Beth Carvalho e Darcy Ribeiro; veja fotos

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RIO – Maysa, Beth Carvalho, Darcy Ribeiro, João Saldanha. Além da imensurável relevância artística, antropológica e cultural, estas personalidades também dividiram algo em comum em sua história: a paixão por Maricá, na Região Metropolitana do Rio. Todos construíram ou adquiriram casas na cidade fluminense, seja para veraneio, ou mesmo residência fixa. Agora, estes imóveis que pertenceram a eles em vida – todos bem próximos, na extensão da bela orla das praias do Cordeirinho e de Barra de Maricá –, vêm sendo adquiridos pela prefeitura local e se transformarão em museus e espaços culturais, que exaltarão suas obras, num projeto batizado de Circuito Cultural Caminho das Artes.

De acordo com a prefeitura, a casa de Beth Carvalho foi comprada pelo município por R$ 1,5 milhão, enquanto a de Maysa, foi comprada por R$ 3,2 milhões. Segundo o município, Os valores não são apenas relacionados à compra do imóvel em função de suas características como dimensões e localização do terreno, mas incluem também o valor histórico agregado, discutido com as famílias, e parte de um acervo.

O plano, pensado pela Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), ainda está em estágio inicial. No fim do mês passado, o município adquiriu uma casa de veraneio que pertencia à sambista Beth Carvalho (1946-2019), de frente para o mar, que precisará passar por reformas. Nesta terça-feira (13), o prefeito Fabiano Horta (PT), assinará o contrato de compra da casa onde a icônica cantora Maysa Monjardim (1936-1977) – ou Maysa Matarazzo – viveu, de 1972 até o dia de sua morte, em 1977, após um trágico acidente na Ponte Rio-Niterói, por onde passava quando retornava para Maricá. A pequena e elegante casa de veraneio de Darcy Ribeiro (1922-1997), projetada por Oscar Niemeyer, com um quintal com piscina que se confunde com a praia, já foi restaurada pela prefeitura e recebe visitantes de segunda a sexta-feira, mas ainda carece de itens de acervo do antropólogo. Ainda não houve um acordo firmado pela casa de João Saldanha.

– A Prefeitura, através da Codemar, já adquiriu a casa de Beth Carvalho e está fechando um acordo de cooperação com a Secretaria de Educação em torno da casa Darcy Ribeiro. Com a aquisição da casa da Maysa está formado o primeiro trio de aparelhos, que junto com o Cine Henfil e com o Museu João Saldanha, vão compor a primeira etapa do Circuito Cultural Caminho das Artes. Esse programa prevê, em toda a cidade de Maricá, obras de arte, expressões artísticas, projetos culturais que serão atrativos para o turista conhecer as belezas de Maricá – explicou Olavo Noleto, Codemar.

A Praia de Cordeirinho, onde ficam as casas que devem virar equipamentos culturais, fica a uma distância de aproximadamente 22 quilômetros do Centro de Maricá. O percurso é de cerca de 30 minutos de carro. O fato de o lugar ser um pouco mais isolado da cidade pode acabar sendo um dos desafios do circuito. Nesta segunda-feira, o movimento de pessoas – e até mesmo de moradores – por lá era bem pequeno.

Casa Maysa

O imóvel, em ótimas condições, vinha sendo utilizado como casa de veraneio pelo filho de Maysa, o diretor Jayme Monjardim, até ele e a prefeitura de Maricá chegarem a um acordo. A casa, construída em estilo grego num grande terreno verde, de frente para o mar, foi toda projetada pelo cenógrafo italiano Gianni Ratto. Nesta segunda-feira, a equipe do GLOBO esteve no local, no momento em que algumas últimas mobílias eram retiradas a casa. Segundo a prefeitura, o acervo – ainda sem data para chegar –, contará com cartas manuscritas, letras de músicas escritas em guardanapo, fotos, pinturas, músicas que não foram gravadas, pintura de quadros, publicações de jornais da época, entre outros objetos.

A casa tem uma elegante escada de madeira sem corrimão no meio da sala, que chama atenção logo na entrada. É curioso, também, o fato de que a única forma de chegar até o quarto principal, que pertencia a Maysa, é dando uma volta pela casa: subindo as escadas e passando por fora, por uma varanda, até conseguir acessar o aposento. No terraço, onde a cantora recebia ilustres convidados para realizar saraus que varavam a madrugada, é possível ter uma vista ampla do mar.

– Vamos transformar as casas destes grandes intelectuais e pensadores do Brasil em casas-museus, revitalizando essas obras e, principalmente, destacando essa opção de vida que eles tiveram durante a vida, de em algum momento viver em Maricá – comentou o secretário municipal de Cultura, Sandy Bianchin, que estava na casa na tarde desta segunda-feira. – Cada casa terá um conceito baseado na obra da produção intelectual de cada uma destas personalidades: Maysa com a questão da música, da MPB, Beth com o samba, Darcy com foco na educação e antropologia, e João Saldanha no futebol.

Sobre a deslumbrante escada da antiga casa de Maysa, Sady, mais uma vez, destacou a identidade da cantora com a cidade:

– A Maysa realmente era moradora daqui. Então, ela viveu e, inclusive, morreu quando vinha para cá, num acidente na Ponte Rio-Niterói. Ela tinha uma relação direta com o território. Maricá é, como a Maysa falava, uma espécie de refúgio. Ela dizia que só foi feliz em Maricá. E eu acho que é isso, essa natureza exuberante daqui atraía essas grandes personalidades. Maysa e Darcy foram grandes personagens, puxadores de várias questões daqui.

Filho de Maysa, Jayme Monjardim disse que a nova atribuição do local é “um sonho” para ele.

– Acho que esse vai ser um espaço que não é só dela, mas da música brasileira. É um espaço que a gente vai ter as sensações de estar ao lado de Maysa. É a realização de um sonho – disse.

Casa Darcy Ribeiro

"E recordo com saudades do período em que realizei para ele uma casa de praia em Maricá, e nós, de calção de banho a passearmos pela areia junto ao mar. E Darcy a contar suas aventuras, seus amores, sua vida tão cheio de entusiasmos e alegria. Faz falta este velho amigo”. A lembrança, escrita por Oscar Niemeyer e exposta logo à frente do imóvel, já entrega quem foi a pessoa por trás da peculiar casa de veraneio, de formato pouco usual e que tem um quintal com uma pequena piscina, que se confunde com o início da praia.

A construção é compacta, mas, por dentro, consegue passar a noção de ser um pouco maior: há um quarto principal, com suíte, e um pequeno quarto de hóspedes – ambos com vista para o mar –, mas que não estão mobiliados ou sequer com cama. No fim do corredor único da casa, chega-se a uma sauna desativada, com um chuveirão – ambos, itens de época. No gramado, ao lado da piscina, a prefeitura homenageou Darcy com uma estátua de bronze, que relembra o momento em que ele, num brado de felicidade, celebra a volta ao Brasil, após período de exílio.

A Casa Darcy Ribeiro foi cedida à prefeitura para que no espaço fossem feitas exposições e , também, para que funcionasse ali uma biblioteca. O lugar, que passou por obras há alguns anos e foi recuperado, hoje remonta, estruturalmente, exatamente o que era nos anos 1980, quando foi construído. No entanto, principalmente com a pandemia, ele não tem recebido mostras, tampouco eventos de qualquer tipo, funcionando apenas para visitação, e só de segunda a sexta-feira. Chama atenção, também, o fato de quase não possuir itens de acervo ligados a Darcy Ribeiro, o que a prefeitura garante que irá mudar com o novo projeto.

– A Casa Darcy, como todas as casas, nós teremos um desafio de transformar. Haverá todo um trabalho de conceito e transformação na casa – comentou o secretário de Cultura, Sady.

Casa de Beth Carvalho

A casa de veraneio de Beth Carvalho, também localizada de frente para a praia, talvez seja a que vá precisar de mais intervenções por parte da prefeitura de Maricá. O imóvel aparenta estar sem manutenção há alguns anos e passará por obras. A equipe conseguiu ter acesso apenas à parte exterior da casa, branca e com detalhes azuis, e do quintal.

Ali, segundo a prefeitura, serão feitas duas estruturas: um memorial informativo sobre a cantora com exposição de figurinos e exibição de vídeos que contam a sua história, a parceria com outros sambistas e documentários que remontam a origem do samba e suas vertentes pelo país.

– A Beth frequentava muito aqui, e era uma casa que tinha relações muito fortes, porque vários personagens importantes vinham à cidade em torno da Beth, para visitá-la, como também em torno de Darcy, Maysa, e aqui aconteciam coisas marcantes – disse Sady.

– Não é só um imóvel, há muito sentimento naquela casa, há muita intimidade, vivemos ali verdadeiramente e para mim é simplesmente uma honra – disse Luana Leal de Carvalho, durante a assinatura do acordo que cede o imóvel à prefeitura, no mês passado. – O mais bonito é que essas casas possam estar abertas juntas. É importante para o samba e para o Brasil que seja contada essa história em caráter de união porque o Darcy e minha mãe eram pessoas muito próximas, e suas ideologias se fundiam muito. Eu fico muito feliz com a ideia.

Casa de João Saldanha

A prefeitura ainda não dá maiores detalhes sobre a casa que pertenceu ao jornalista e cronista esportivo João Saldanha, pois, segundo ela, ainda não houve um acordo entre o município e a família para compra do imóvel. No entanto, o plano prevê que o local tenha como foco o futebol. O projeto propõe que os visitantes possam conhecer a história dos times e dos campeonatos contada em vídeos, interação com jogos como totó, videogame, quiz sobre futebol, além de um acervo com objetos pessoais do cronista esportivo.

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