Marieta Severo, Renata Sorrah, Andrea Beltrão e Ana Baird estreiam peça que celebra a arte 'sufocada no Brasil'

O diretor Enrique Diaz puxa o coro da música sacana de Alípio Martins: "Piranha, é um peixe voraz, de São Francisco...". Marieta Severo, Andrea Beltrão, Renata Sorrah e Ana Baird caem na pilha. Batem palma, rebolam, dançam até o chão. O clima dos bastidores é eletrizante segundos antes de a cortina do Teatro Poeira ser aberta à plateia mais de dois anos depois do doloroso hiato imposto pela pandemia. "Merda, putada!", grita Andrea.

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Os espectadores vão ocupando seus lugares, enquanto elas, aos olhos do público, se dirigem à porta do teatro para uma entrada triunfal: "As atrizes chegam para o espetáculo, maravilhosas. Elas estão bem vivas!", anuncia Andrea, ao microfone. É assim, de uma maneira bem informal, se divertindo e, sobretudo, celebrando a vida que elas escolheram voltar ao teatro.

São algumas das maiores atrizes brasileiras e poderiam ter optado pelo conforto de encenar peças famosas, com apelo e sucesso garantido. Mas não. Preferem correr riscos. Navegar por um terreno teatral de novidade e modernidade em que as ideias são colocadas de maneira não convencional. Acreditam que diante de tudo que o mundo vem passando com a pandemia e da situação política do Brasil atual não seria possível subir ao palco da mesma forma que antes. Muito menos sem ter algo de relevante para dizer.

Por essas razões, escolheram encenar "O espectador", espetáculo baseado na obra do romeno Matèi Visniec, que estreia oficialmente nesta sexta-feira (24), no teatro fundado por Marieta e Andrea, e sob direção coletiva de Enrique Diaz e Marcio Abreu. A dinâmica que se estabelece ali é a de um jogo teatral entre palco e plateia, em que elas se revezam em personagens como advogados de acusação e defesa, juízes e testemunhas para julgar um réu que não sabe do que está sendo acusado. Detalhe: o réu é uma pessoa da plateia.

A partir daí, enfileiram situações que dialogam com questões do nosso tempo, como jogos de poder, manipulação de imagens, fake news, cancelamento, questões identitárias e os apagamentos das singularidades. O lugar de protagonista dado ao espectador é um sinal literal do que também está sendo celebrado naquele palco: o reencontro com o público. E, principalmente, com o ofício.

- Esse trabalho é uma ode ao fazer teatral. Tem uma frase fundamental na minha vida e na vida do país agora para que entendam o que é a arte e cultura: "A arte amplia o que significa ser humano para além da sobrevivência diária". Isso que no Brasil está sendo sufocado, desvalorizado - lamenta Marieta. - Nunca imaginei essa demonização do que nos é mais precioso. Poder estar em cena falando disso é muito especial. Além da sobrevivência pessoal, é utilidade pública.

Marieta também faz questão de dizer que a brincadeira com o público "não é agressiva".

- Tínhamos um pouco de medo disso, porque, se na ditadura a gente tinha os militares torturando, agora, se espalhou um clima em que os brasileiros se agridem sem parar, em que o legal é estar armado, há uma ameaça de guerra civil. Mas nossa maior conquista foi achar esse lugar carinhoso para o espectador, colocá-lo no mesmo jogo para mostrar que somos todos ridículos e está todo mundo na merda.

Para Andrea, a relação direta com a plateia estabelece um "diálogo horizontal" que carrega esse reencontro de mais significado ainda.

- São dois anos de teatro fechado, de tempos de cultura massacrada e desse governo horroroso. A peça faz essa provocação sobre quem é o espectador? Alguém que fica sentado sem reagir, não fala nada e vai ao teatro assistir passivamente? - questiona. - A gente queria evitar estar no lugar prioritário de "olha, nós somos as atrizes, vamos falar e vocês recebam aí". Buscávamos algo livre, sem o virtuosismo. Essa volta tem esse sentido de falar que estamos no mesmo barco e de uma conversa sobre o que é o teatro para quem faz e para quem vai. Por que a gente continua subindo no palco? Faz parte desse lugar de só saber viver assim.

Falar de julgamentos e condenações em plena era do cancelamento também é simbólico. No palco, figuras poderosas do judiciário acusam sem parar.

- Todos os motivos da condenação do réu na peça são torpes, fúteis. Figuras lunáticas usam os artifícios dos poderosos para massacrá-lo. - reflete Andrea. - É evidente que os loucos são quem está julgando e não levam nada em consideração. Acho maravilhoso a gente ter nossas covardias, dúvidas. Porque fora coisas absolutas, tipo matar ou morrer, como alguém se acha no poder de dizer o que é certo ou errado? Bom, isso depende para quem.

Além da performance repleta de humor das quatro atrizes, há de se destacar a esperteza da dramaturgia construída pela dupla de diretores. Ao texto base de Visniec, eles acrescentaram frases de autores como Albert Camus, Wislawa Szymborska e Anne Bogart. A elas, articularam memórias, afetos e motivações sobre o que é para essas atrizes estar em cena.

- O teatro é meu principal modo de estar nesse mundo. Onde posso agir, interferir de alguma maneira. Através dele, procuro provocar transformações, desconstruir preconceitos, enganos - explica Renata Sorrah. - É um instrumento que aprofunda o humanismo. Quero fazer fazer peças que tenham algo a dizer de uma maneira amorosa, estar em cena com atores que se importam com o mundo. A gente está precisando de beleza, de afeto, de comida... A lista é imensa. E a arte faz a gente avançar.

Ana Baird, parceria de Andrea e Marieta na novela "Um lugar ao sol" e de Renata numa peça de Pirandello quando tinha 18 anos, só consegue agradecer por ter sido incluída nessa aventura.

- Não quis nem saber qual era o texto, faria qualquer coisa com elas. São de uma generosidade e genialidade gigantes. Por mais que eu tenha muitos anos de carreira, o fato de estar aqui presente é, para mim, um outro lugar. São atrizes e mulheres muito admiráveis.

Durante o processo de ensaio e exercícios teatrais que duraram quatro meses, os diretores também vasculharam temas globais caros às atrizes. O resultado serve como um raio-x do território e da personalidade de cada uma delas. "Somos filhos da época e a época é política, o que você diz tem ressonância, o que silencia, um eco", diz Marieta, um ser político da cabeça aos pés, em certa hora do espetáculo. "Para mim, o futebol, ao lado do teatro, foi uma verdadeira universidade. Porque a vida é absurda", afirma Andrea, apaixonada pelo esporte, em outro momento.

Mas no espectador, a frase que fica ecoando na saída do teatro, também dita por Marieta, é outra: “O silêncio que acontece depois de uma situação violenta é parecido com a falta de palavras provocada por uma experiência estética artística poderosa”.

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