Marina Colasanti conta em livro a história de sua tia-avó, a contralto Gabriella Besanzoni

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RIO — Como escritora, Marina Colasanti, nome consagrado na literatura nacional, publicou mais de 60 títulos, entre livros de poesias, contos, crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil. Mas, desta vez, ela cumpre uma promessa ao lançar “Vozes de batalha”, pela Editora Planeta, por meio do selo Tusquets. A publicação mistura elementos de romance e de sua história familiar ao contar em detalhes a vida da tia-avó, a cantora lírica italiana Gabriella Bensazoni, que, entre tantas turnês mundiais, escolheu o Rio para viver, após aceitar o pedido de casamento, em 1925, do empresário brasileiro Henrique Lage, um dos homens mais ricos do país na época.

Lage construiu para a amada a Quinta Gabriella, a famosa mansão do Parque Lage, um dos maiores cartões-postais cariocas, onde Marina passou parte da infância, da adolescência e da juventude.

Depois de abrir a porta vermelha do espaçoso apartamento em que mora, em Ipanema, a escritora conta que se dedicou durante anos a vasculhar memórias pessoais, documentos e entrevistas para reconstituir a vida de Gabriella, uma mulher à frente de seu tempo.

Mostrando um pequeno tesouro formado por fotos históricas em preto e branco, ela diz que o livro é resultado de uma “promessa nunca feita” e também testemunho de gratidão pela tia-avó que a acolheu.

— Fui adiando, mas chegou uma hora em que foi impossível fugir. Era um dever que eu me impunha para cumprir uma promessa nunca feita à minha tia. O Brasil esqueceu a mulher maravilhosa e generosa que ela foi com o país— diz. — Cada livro é um projeto. Durante um período, fico quase monotemática. Meu olhar só se endereça para aquilo que possa me servir.

Entre os dias 13 e 24, uma tenda atrás do palacete receberá o festival Ópera na Tela, que apresentará 11 récitas europeias numa tela gigante. Um evento digno da contralto Gabriella e de sua paixão pela música lírica.

No início do ano, autora sofreu a perda da filha mais velha

Marina Colasanti é uma das mulheres mais interessantes de sua geração. Já atuou como jornalista, apresentadora de TV, publicitária e tradutora. Além de culta, deixa transparecer elegância em gestos e palavras. Também é divertida. Fala de sexo sem pudor. Gosta de vermelho. Não só a porta de entrada do apartamento, mas uma parede do primeiro andar tem a mesma cor.

Além de Gabriella, são muitos os personagens da família ligados à cultura, a começar pelo avô de Marina, Arduino, que atuou na Itália como historiador de arte, professor e escritor.

Na quinta-feira, às 19h, ela participará de uma live de lançamento do livro, no YouTube da Livraria da Travessa, ao lado de Clóvis Bulcão, autor de “Henrique Lage”, com mediação de Mateus Baldi. Os compromissos têm ajudado a preencher a agenda de Marina (@marina.colasanti no Instagram), para quem a pandemia trouxe muita tristeza. Em janeiro, a escritora perdeu a filha mais velha, Fabiana, em decorrência de um câncer no pâncreas. Ela faleceu apenas nove meses após o diagnóstico.

— Estou trabalhando muito, o que ajuda a colocar a minha cabeça em outro trilho.

A alegria tem vindo do neto Nuno, de 1 ano, filho da caçula de Marina, a atriz Alessandra Colasanti.

Escritora faz hoje 50 anos de casada

Marina Colasanti nasceu na cidade de Asmara, capital da Eritreia, na África, que era uma colônia italiana. A escritora chegou ao Rio aos 10 anos, em 1948, junto com o irmão, Arduino (um dos pioneiros do surfe no Brasil), após o fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje, ela observa a cidade de um ponto privilegiado: uma cobertura em Ipanema com uma vista avassaladora para o mar, para a Lagoa e para o Morro Dois Irmãos. Aos 84 anos, aproveita o Rio em caminhadas ao longo da praia. A rotina também é feita de horas passadas ao lado do marido, o também poeta e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que está acamado e foi diagnosticado em 2017 com o Mal de Alzheimer. Eles fazem 50 anos de casados hoje. No dia a dia, Marina cuida das muitas plantas, das compras e vai ao banco. Tudo a pé, por Ipanema.

Voltando ao livro, ela conta que, quando chegou ao país, foi morar no palacete construído por Henrique Lage para sua tia. Na época, o magnata brasileiro já havia falecido e Gabriella e outros herdeiros encaravam o começo de uma longa batalha judicial pelo espólio. Anos depois, Gabriella acabou sendo forçada a voltar para a Itália. Nas páginas do livro, Marina Colasanti conta o encantamento que sentiu ao ver pela primeira vez sua tia-avó: “Havia, porém, algo especial em Gabriella. Uma imponência no peito farto de cantora que surgia como tulipa dos quadris estreitos, uma determinação na coluna a prumo, uma altivez na maneira de posicionar a cabeça. Pele branca de quem nunca tomara sol, batom vermelho-sangue, olhos maquilados intensamente negros, cabelo repartido ao meio com rigor. E as mãos resplandecentes de diamantes. Tudo nela era exato, superlativo, sem hesitação”.

— Gabriella não teve filhos porque tinha útero infantil. Ela tinha 12 pequineses — diz Marina, que estudou na Escola Nacional de Belas Artes e chegou a começar carreira como artista plástica.

Ela deixa claro em “Vozes de batalha” que o casal teve um papel fundamental na música clássica e nas artes no Brasil, organizando festas e recitais beneficentes. Gabriella chegou a fundar um conservatório em sua casa, onde dava aulas de canto. Na época em que foi gerente do Teatro Municipal, chegava a levar seus cristais e pratarias para dar vida às cenas de banquete em óperas como “La traviata”.

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