Marina Silva declara apoio a Lula e sela acordo com metas ambientais para eventual governo

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva beija testa da ex-ministra Marina Silva durante entrevista coletiva em São Paulo

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - A 20 dias do primeiro turno das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu o anúncio público de apoio da ex-senadora Marina Silva (Rede-SP), depois de anos de distanciamento, em uma chancela não apenas política, mas também ambiental para seu projeto, já que o petista se comprometeu a incorporar em seu programa de governo diretrizes desenhadas por sua ex-ministra do Meio Ambiente.

"Compreendo que nesse momento crucial da nossa história, quem reúne as maiores e melhores condiçoes para derrotar Bolsonaro e a semente maléfica do bolsonarismo que está se implementando no seio da nossa sociedade é a sua candidatura", disse Marina ao lado de Lula em uma entrevista à imprensa em São Paulo nesta segunda-feira.

"Em nome daquilo que está acima de nós é que eu manifesto meu apoio de forma independente", disse Marina, que se candidata a deputada federal num esforço para salvar o partido criado por ela, a Rede.

Construída em semanas de conversas que envolveram o ex-prefeito e candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad e outros interlocutores de Marina, a reaproximação da ex-ministra do Meio Ambiente com o ex-presidente e o PT, de quem tinha se afastado em definitivo em 2014, foi selada em um encontro de duas horas na tarde de domingo.

A conversa pessoal levou em conta a convergência que Marina tinha resistido até agora, em torno de uma frente ampla contra Bolsonaro, e também das propostas ambientais feitas pela ex-ministra, reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho contra o desmatamento.

Em suas falas, o ex-presidente tem deixado claro a preocupação com um futuro protagonismo do Brasil no combate às mudanças climáticas e a necessidade de fazer com que o país recupere um espaço internacional perdido pelo abandono da agenda ambiental pelo atual governo.

No programa para uma eventual futura gestão, propostas visando a transição para uma economia mais verde estão no centro, e vão ao encontro de algumas das propostas feitas por Marina.

"O programa que Marina apresenta é um programa ousado, em um país que precisa levar mais a sério a questão ambinetal e a questão do clima porque o mundo está exigindo do Brasil um comportamento civilizado", disse Lula.

"A questao ambiental será levada muito a sério com a inclusão das propostas da companheira Marina. Estamos mostrando ao mundo que podemos fazer mais e fazer melhor", enfatizou.

AUTORIDADE NACIONAL PARA MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Uma das propostas feitas pela ex-ministra e destacadas por Lula é a criação de uma "Autoridade Nacional sobre Mudanças Climáticas", que teria a função de coordenar todas as áreas do governo no combate às ações que afetam o clima e também as que incentivem uma economia mais verde.

"Esse país tem que virar protagonista internacional nas ações de combate às mudanças climáticas", disse Lula, que confirmou a inclusão das propostas de Marina em seu programa de governo.

"Queremos fazer parcerias, queremos recuperar o fundo que tinhamos com Alemanha e Noruega, e arrumar dinheiro. Obviamente que o mundo rico precisa financiar esse novo modelo de desenvolvimento socioambiental, e o Brasil pode ser o líder nessa nova discussão", seguiu o petista.

Perguntado quais medidas seriam tomadas imediatamente no caso de sua eleição, Lula repetiu o que a própria Marina disse, de que são diretrizes para iniciar um trabalho, e não algo que vai ser resolvido em um mês ou um ano, mas se comprometeu a iniciar as mudanças necessárias logo que tomar posse.

Uma das propostas destacadas pela ex-ministra como essenciais de serem feitas logo no início do governo é a recriação dos planos de combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia e no Cerrado, e a construção de planos semelhantes para outros biomas, que tem sido também afetados.

Outra medida, que conversa com a proposta apresentada a Lula pelo setor agrícola, é a de que o Plano Safra seja usado para incentivar a transição para uma agricultura de baixo carbono. Como mostrou a Reuters, a campanha trabalha na ideia de uma linha de financiamento com juros mais baixos a quem fizer essa transição.

APOIO RUMO AO PRIMEIRO TURNO

Depois de anos de distanciamento, a aproximação de Marina e Lula traz à campanha do ex-presidente um novo fato político na reta final rumo à votação de 2 de outubro e num cenário de estabilidade para o petista, num momento em que o presidente tem estimulado o reforço na campanha para tentar uma vitória no primeiro turno --considerada difícil nos círculos políticos, mas tecnicamente possível de acordo com os institutos de pesquisa.

Reticente a princípio, Marina se aproximou primeiro do ex-prefeito Fernando Haddad, que chegou a convidá-la para ser vice em sua chapa ao governo de São Paulo. Foram algumas semanas de negociações antes do encontro de domingo e o anúncio formal desta segunda.

Lula e Marina fizeram questão de destacar que, pessoalmente, ambos nunca estiveram distantes, apesar de politicamente terem se afastado. Os dois se referiram à declaração de apoio de Marina como um "reencontro".

"De vez em quando na política tomamos decisões que nos fazem percorrer caminhos diferentes, e às vezes a gente se reencontra. Esse reencontro é importante não apenas pelas propostas, mas pelo momento político que estamos vivendo", disse Lula.

Marina foi ministra do Meio Ambiente do governo Lula até 2008, e responsável pelas maiores quedas no desmatamento da Amazônia. Deixou o governo diante de embates com a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que questionava a rigidez de Marina na liberação de licenças ambientais para obras de infraestrutura.

Marina foi ainda candidata a presidente em 2010 e novamente em 2014, contra a reeleição de Dilma, e foi duramente atacada pela campanha da então presidente, o que acirrou sua mágoa com o PT. Em 2018, também derrotada no primeiro turno, declarou "apoio crítico" a Haddad, contra a eleição de Jair Bolsonaro, mas se manteve longe do PT.