Marina Silva declara apoio a Lula após sequência de mágoas e divergências

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) oficializou nesta segunda-feira (12) o seu apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa à Presidência.

"Manifesto meu apoio de forma independente ao candidato e futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva." Ela e o ex-presidente concederam entrevista pela manhã, em São Paulo.

"Compreendo que nesse momento crucial da nossa história quem reúne as maiores e melhores condições para derrotar Bolsonaro e a semente maléfica do bolsonarismo que está se implementando no seio da nossa sociedade, agredindo irmãos brasileiros, ceifando a vida de pessoas por pensarem diferentes, é a sua candidatura", disse Marina.

A ex-ministra afirmou ainda que trata-se de um reencontro político e programático e que, do ponto de vista das relações pessoais, eles nunca deixaram de estar próximos. Segundo ela, esse reencontro se dá "diante de um quadro grave da política do nosso país, diante de uma ameaça, a ameaça das ameaças, à nossa democracia".

Ela continuou dizendo que, nos dias de hoje, o Brasil está entre a democracia ou a barbárie.

Lula afirmou que esta segunda é um dia histórico para o PT e para a sua candidatura. Ele também disse que nunca esteve distante politicamente e ideologicamente da ex-ministra.

"Na política, de vez em quando, tomamos decisões que nos faz percorrer determinados caminhos e nem sempre a gente se encontra nesse caminho. Mas também há momentos na história em que a gente se reencontra."

Os dois já haviam se reencontrado no domingo (11) para discutir propostas para o meio ambiente. Marina apresentou um documento com 26 itens.

"Tivemos uma conversa de duas horas, atravessadas por nossas memórias e pelo compromisso político e programático de ajudarmos a reconstruir o Brasil. Essa é a minha confiança", afirmou Marina nesta segunda.

Ela foi ministra do Meio Ambiente de 2003 a 2008, no governo Lula. Deixou o PT, partido ao qual foi filiada durante 30 anos, em 2009, após divergências.

A ex-ministra tinha mágoas do PT em razão do pleito de 2014, quando se candidatou à Presidência e foi fortemente atacada pela campanha de Dilma Rousseff (PT). À época, ela chegou a afirmar que nunca pensou que o PT tentaria destruí-la.

Em 2018, Marina teve 1% dos votos válidos no primeiro turno das eleições à Presidência, ficando em oitavo lugar. No total, foram 1.069.577 votos.

"Mais do que a manutenção dessa relação pessoal é sim um reencontro político no terreno de princípios e valores do terreno da democracia, que fazem com que tenhamos o compromisso de ajudar a enfrentar o grave problema da mudança climática através de um novo modelo de desenvolvimento para o nosso país", disse Marina.

Ao ser questionada sobre como poderia atrair o voto evangélico, Marina respondeu que a melhor forma de fazer isso é tratando todos os brasileiros como cidadãos e defendeu o estado laico.

"O maior mandamento de Jesus é o mandamento do amor e é o que acho que deve ser sempre a orientação de quem professa a fé cristã. Qualquer coisa que leve para o caminho do ódio, do exclusivismo político ou religioso não é bom para a democracia, para as religiões e desrespeita a nossa Constituição", disse.

A ex-ministra começou a sua fala agradecendo a Deus "por estarmos aqui". Ela disse ainda que a notícia de que Lula fecharia igrejas é uma mentira e que isso nunca aconteceu durante os dois mandatos do petista. "Muitos dos que hoje dizem essa mentira como estratégia eleitoral, até iam ao gabinete do presidente fazer oração com ele", afirmou.

"A Marina disse corretamente a gente não pede voto por conta da religião. Quando a gente sai à rua para trabalhar a campanha, a gente faz um programa para o país pensando no povo brasileiro. Não queremos saber de religião. Religião é muito sagrada, é uma coisa de cada um", completou o ex-presidente Lula.

O apoio de Marina está relacionado à incorporação de pautas relacionadas ao meio ambiente no programa de governo do petista, entre elas a criação de uma autoridade nacional para o enfrentamento das mudanças climáticas.

A ex-ministra disse ainda que é preciso levar em conta uma perspectiva de transição e que as mudanças que deverão ser implementadas não ocorrem da noite para o dia.

O ex-presidente afirmou que o programa de governo é um plano de metas e que deve ser buscado o seu cumprimento todos os dias. "O programa da Marina é uma proposta plenamente possível de ser colocada em prática. Não é proposta para um mês ou um ano, mas é uma a ser trabalhada e perseguida", disse.

Marina já havia declarado seu apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT) ao Governo de São Paulo e vinha sendo cortejada por Lula. Ela chegou a ser convidada pelo ex-prefeito para ser sua vice na chapa, mas declinou do convite.

Candidata a deputada federal pela Rede em São Paulo, Marina é considerada pela legenda como potencial puxadora de votos.