Marina turbina "Lula verde" e deixa porta aberta para integrar eventual governo

Ex-ministra Marina Silva dá entrevista à Reuters em São Paulo

Por Flavia Marreiro

SÃO PAULO (Reuters) - Ícone da luta ambiental do Brasil, a ex-senadora e candidata a deputada federal por São Paulo Marina Silva (Rede) acredita que um eventual novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com quem ela acaba de se reconciliar, será capaz de zerar o desmatamento da Amazônia, mesmo partindo dos atuais elevados índices de destruição da floresta sob a gestão Jair Bolsonaro.

"É perfeitamente possível chegar ao desmatamento zero, recuperando o plano que já deu certo, atualizando esse plano, recompondo os orçamentos e recompondo as equipes, fortalecendo as instituições de fiscalização, monitoramento, gestão", disse à Reuters a ex-ministra do Meio Ambiente de Lula.

A ex-senadora de 64 anos não esconde o contentamento do reencontro "pessoal" e "programático" com Lula após deixar o posto de ministra do petista em 2008 frustrada com o pouco apoio para sua agenda no governo. Em 2014, ela seria ainda duramente atacada pelo PT quando concorreu à Presidência pela segunda vez.

Agora, Marina, diz que Lula é o único capaz tanto de derrotar Bolsonaro, que ela considera uma ameaça à democracia, como de implementar uma política ambiental à altura dos compromissos que o Brasil deve assumir no âmbito do Acordo de Paris.

"Nós conseguimos um passo à frente, que foi o compromisso do presidente Lula de dizer que a política ambiental será transversal e que estará no mais alto nível de prioridade do governo", afirmou.

A ex-ministra se refere ao endosso de Lula a uma proposta feita por ela com 20 pontos para área ambiental, no dia último dia 12. Muitos deles são ambiciosos, como a meta de desmatamento zero, medida que, segundo a ex-ministra, será capaz, sozinha, de reduzir as emissões de carbono do país em 70%.

Ela admite, no entanto, que a situação da Amazônia é mais complexa do que quando ela foi ministra, entre 2003 e 2008, mas afirma que é possível deter as ilegalidades.

"Temos um agravamento da situação em relação ao que tínhamos em 2003. Hoje é um cruzamento de várias formas de criminalidade. É o garimpo ilegal, é exploração ilegal de madeira, é a questão do crime organizado, tráfico de droga, tráfico de armas, a pesca ilegal. São vários componentes que ali se cruzam", disse.

PORTA ABERTA

Marina também propôs a criação de uma autoridade nacional para o risco climático, com poder de transitar entre ministérios.

Ela estaria disposta a ocupar esse novo posto de "czarina do clima"? A ex-ministra diz que não é o momento de discutir cargos, mas deixa a porta aberta: "Isso é uma decisão do presidente da República. Neste momento tudo o que nós não precisamos é ficar falando de ministério antes de ganhar."

Após quase 15 anos de hiato, Lula e Marina se aliam em um momento estratégico para o ex-presidente, que lidera as pesquisas eleitorais contra Bolsonaro.

No período em que estiveram distantes, a questão climática ganhou ainda mais espaço na agenda global e a ex-senadora, de origem amazônica e premiada no mundo pelo trabalho ambiental, virou um ativo importante para que o ex-presidente fortaleça suas credenciais verdes tanto internamente, com ativistas e ambientalistas, como no exterior.

Os primeiros frutos já aparecem. "O apoio de Marina tornou o programa de governo do petista automaticamente o mais verde entre os candidatos do campo democrático", analisou nesta semana a organização não governamental Observatório do Clima.

Se o começo dos anos petistas registrou queda do desmatamento, a saída de Marina marcou um enfraquecimento da agenda, com aprovação de obras como a hidrelétrica de Belo Monte no governo de Dilma Rousseff, levando uma crise humanitária e ambiental para o coração da Amazônia na década passada.

Questionada se vê a possibilidade de que obras como essa voltem a ser implementadas por Lula no poder, Marina citou declaração do ex-presidente dizendo que, agora, megaprojetos como o de Belo Monte já não são mais necessários, considerando a queda dos custos de outras fontes de energia renovável.

Quanto a um possível risco de não implementação de sua agenda ambiental, dada a aliança de Lula com importantes lideranças ruralistas no Congresso, como o deputado Neri Geller (PP-MT), Marina joga com o peso público dos compromissos assumidos pelo ex-presidente e cita a proposta, revelada pela Reuters, de criar um programa de crédito agrícola “verde”.

"Não conheço que tenha sido feito um compromisso com um setor atrasado do ruralismo”, rebate, em referência a Geller, autor de propostas para afrouxar a legislação ambiental.

É justamente para se contrapor no Legislativo a esse poderoso grupo do agronegócio, que majoritariamente apoia Jair Bolsonaro, que Marina Silva diz ter escolhido ser candidata a deputada federal por São Paulo.

Foi por esse motivo, explica, que ela declinou do convite para ser candidata a vice-governadora em São Paulo na chapa de Fernando Haddad (PT) --Haddad, aliás, foi um dos artífices da reaproximação entre a ex-ministra e Lula.

"Existem riscos de que eles (bolsonaristas e aliados) queiram fazer uma série de irregularidades e ilegalidades antes que ele (Bolsonaro) saia do governo. Inclusive, uma das coisas que muito me preocupa é tentar mudar a legislação", diz Marina. "É uma tentativa que o centrão e o Bolsonaro estão fazendo", diz, em relação a projetos em tramitação no Congresso.

O outro objetivo de Marina com a candidatura de deputada, mais ou menos declarado, é tentar salvar a Rede de Sustentabilidade, a legenda que fundou há 7 anos. Com uma grande votação em São Paulo, a acreana pretende ajudar seu partido a escapar da chamada cláusula de barreira, que regula o funcionamento das siglas no país.

A regra só permite que funcionem como partidos com todos os direitos, inclusive fundo eleitoral e propaganda na TV, aqueles que alcançarem nas eleições deste ano 2% dos votos válidos nacionais, ou a eleição de pelo menos 11 deputados federais em ao menos nove Estados.

Também para escapar da restrição, a Rede se uniu em federação com PSOL. As duas siglas funcionarão juntas no Congresso pelos próximos quatro anos.