Mario Draghi enfrenta 'quebra-cabeça' para formar governo na Itália

Kelly VELASQUEZ
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O ex-chefe do BCE (Banco Central Europeu) Mario Draghi no palácio do Quirinal após uma reunião com o presidente italiano, em Roma, em 3 de fevereiro de 2021

O ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, iniciou consultas complexas nesta quinta-feira (4) para tentar formar um governo de unidade com o objetivo de tirar a Itália da crise social, econômica e sanitária.

O prestigioso economista encontra-se em situação difícil com as duas maiores forças políticas parlamentares, o Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema) e a Liga direitista de Matteo Salvini, divididos e incertos quanto à possibilidade de lhe dar o seu apoio.

Segundo o jornal La Stampa, Draghi enfrenta um verdadeiro "quebra-cabeça", razão pela qual muitos analistas atribuem a situação ao complexo sistema parlamentar.

"Draghi deve escolher entre o M5E ou a Liga", disse o líder da extrema-direita Salvini na sexta-feira.

A declaração de Salvini exclui por enquanto a possibilidade de um governo de "unidade" para enfrentar a grave situação do país em face da pandemia, que já tirou a vida de quase 90 mil pessoas no país e a maior recessão econômica de sua história recente.

O Partido Democrata (PD, centro-esquerda) já ofereceu apoio, assim como a pequena formação Italia Viva de Matteo Renzi, que desencadeou a renúncia do primeiro-ministro Giuseppe Conte em meados de janeiro.

"Não serei um obstáculo para Draghi, não sou um sabotador", disse Conte na sexta-feira em sua primeira declaração pública após mais de uma semana de silêncio.

Conte, que alcançou notável popularidade pela administração da pandemia, junto ao M5E, garantiu que continuará trabalhando "para o bem do país".

- Ganhando apoio -

A posição do antissistema, que tem um terço dos deputados e senadores, após vencer nas eleições há dois anos com uma campanha contra os privilégios da 'casta' e como alternativa à esquerda e à direita, é fundamental para a formação de um governo liderado pelo chamado "gênio financeiro" e salvador do euro.

Draghi deve se reunir com seus líderes no sábado, enquanto o debate interno é aberto e não está excluído que eles chegarão a um acordo político.

“Tudo parece indicar que Draghi está ganhando apoio”, comentou o cientista político Aldo Garzia, especialmente depois que Conte se propôs como fiador de “uma aliança para o desenvolvimento sustentável”.

“Vamos propor nossos temas. O importante é que seja um governo com uma linha política clara e não sob medida para os tecnocratas”, disse Riccardo Ricciardi, porta-voz do M5E.

Se o economista reunir os partidos da coalizão de saída, mais os setores moderados da direita, incluindo o partido de Silvio Berlusconi, o Forza Italia, poderá obter uma maioria clara e formar uma equipe de ministros que reúne renomados especialistas e políticos de diferentes correntes.

"Vamos para a reunião com Draghi no sábado com a melhor das intenções", disse o magnata Berlusconi, que estará presente na reunião. Draghi, que também se encontrará com a Liga de extrema-direita no sábado, precisa de pelo menos a abstenção do principal partido da oposição, conhecido por sua linha soberana e anti-europeia.

O proeminente tecnocrata, que, ao contrário do seu antecessor Conte, não tem prazo definido para formar governo caso se torne primeiro-ministro, antes de mais nada, deve enfrentar a emergência sanitária e a campanha de vacinação.

A Itália também deve apresentar um plano no final de abril para reativar sua economia em recessão, com a ajuda financeira significativa da União Europeia.

A península receberá cerca de 200 bilhões de euros (240 bilhões de dólares) do bloco e deve preparar o programa detalhado de gastos até o final de abril.

O presidente Mattarella, o único que pela Constituição pode dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas, alertou na terça-feira que deseja evitar a votação a todo custo em meio à pandemia e recessão.

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