Mário Frias buscou a "grandeza pátria" e entregou o puro suco do ressentimento

Matheus Pichonelli
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Em resposta á paródia de Adnet, secretário de Bolsonaro mostrou toda sua grandeza pátria: BOBÃO
Em resposta á paródia de Adnet, secretário de Bolsonaro mostrou toda sua grandeza pátria: BOBÃO

Às vésperas do 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, o secretário especial da Cultura, Mário Frias, protagonizou uma campanha para homenagear os heróis da pátria. A ideia era resgatar o orgulho nacional diante de “verdadeiros líderes, respeitados intelectuais e grandes heróis nacionais”.

O governo que não emitiu uma linha de pesar sobre artistas e referências que morreram na pandemia tentava corrigir, no vídeo, o destino de heróis supostamente “vilipendiados” por “anos de destruição da identidade nacional”, conforme uma postagem da Secretaria da Comunicação do governo.

Uma das telas destacadas na gravação era um retrato do rei Alberto, da Bélgica, mas isso é detalhe. A propaganda, como lembrou Inácio Araújo, na Folha de S.Paulo, contempla só o que importa ao governo: monarquistas, ministros, militares em geral, paulistas e “todo o ‘povo heroico’ (e bem concreto) que essa peça ideológica pretende agradar”. “De contrabando, entra o ‘homem comum’, encarregado do sustento da família (temos aí, então, Pátria, Trabalho, Família —onde foi que já ouvi isso?).”

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A homenagem tem um propósito claro: transformar em herói quem resgata esta memória heróica. Este herói, um misto de messias e salvador, seria, claro, Jair Bolsonaro.

Quase no mesmo dia, a peça foi parodiada pelo humorista Marcelo Adnet, que imaginou uma espécie de Arquivo Confidencial do Faustão com um presidente bajulado pelo secretário e por dois ex-aliados incômodos, o advogado Frederick Wassef e Fabrício Queiroz.

Foi o suficiente para o secretário mostrar ao público toda a sua grandeza de espírito pátrio. Usando ataques pessoais, simulações de virilidade (“ele não sobreviveria onde me criei”) e métricas próprias sobre sucesso, o ex-ator de Malhação mostrou o biquinho em um texto postado nas redes em que concluía: Adnet era um BOBÃO em caixa alta. Faltou chamar de feio, gordo e ameaçar pegar lá fora.

De quebra, o patriota ameaçou colocar a Polícia Federal do seu padrinho na cola de um deputado do PSOL que comentou a querela nas redes. Coisa fina. Fina e endossada pelo perfil no Twitter da Secretaria de Comunicação. “Há quem prefira parodiar o bem e fazer pouco dos brasileiros”, disse o canal OFICIAL do governo sobre um esquete humorístico.

O chilique patriótico foi promovido pela mesma turma que até outro dia se queixava da amargura e da falta de humor baseada no tal “politicamente correto” que não permitia brincadeiras e deixava o mundo muito chato. Como vidraça, não suportaram um minuto de piada.

Por ironia, a ação e reação à tentativa atabalhoada de resgatar símbolos pátrios acabaram trazendo na rede outra coisa: o puro suco do ressentimento nacional.

Este ressentimentou tomou o poder, aparelhou o Estado com lunáticos, esquecidos e incapazes que não vão sair dali enquanto não tiverem os talentos reconhecidos da grandeza que eles creem ser merecedores.

No nova edição de seu livro “Ressentimento” (Boitempo Editorial), a psicanalista Maria Rita Kehl questiona, em um posfácio sugestivo, se o ressentimento chegou ao poder em 2018.

Ela compara o ressentimento que potencializou a candidatura de um “capitão machista” — uma resposta a movimentos libertários que precederam a eleição, como o feminista — com o que se alastrou entre as classes médias alemãs contra os judeus “arrivistas” no início do século XX.

Para isso recorre a um texto autobiográfico de Norbert Elias em que ele analisa a “amargura quase fanática” e antissemita que tomou conta da Alemanha sob a crise da década de 1930. “Para os grupos que lutam para não cair ainda na hierarquia social, é intolerável entrar em concorrência com os membros de outro grupo marginal desprezado que, vivendo em condições semelhantes, também busca conquistar alguma ascensão”.

Para Kehl, a ascensão social de grupos marginalizados (vide as cotas raciais) teria provocado um sentimento semelhante ao longo deste século, mas as raízes do nosso ressentimento não são de agora. Remontam, segundo ela, à tradição paternalista e cordial de mando, que mantém os subordinados em uma relação de dependência filial e servil em relação às autoridades políticas ou patronais.

O que Bolsonaro e tudo o que ele representa querem resgatar são as bases de uma hierarquia construída sobre heróis sem concorrência com as classes ascendentes do mundo atualizado e que já não obedecem por obedecer. A fala de Mário Frias é quase um monumento a essa estrutura.

“Os brasileiros representam a si mesmos como órfãos de pai: não prezamos os antepassados portugueses, não reconhecemos grandes heróis entre os fundadores da nação, não levamos muito a sério nossos símbolos pátrios. O que poderia ser condição de grande liberdade, se não nos ressentíssemos disso e não buscássemos sempre, na política, nas práticas religiosas, na cultura de massas, recuperar figuras do pai autoritário e protetor. Nossa suposta orfandade simbólica não produziu uma sociedade emancipada em relação à autoridade paterna, mas uma permanente submissão à autoridade de governantes paternalistas reais, abusados, violentos como o pai da horda primitiva do mito freudiano”, escreve Kehl.

Política, obediência religiosa, pai autoritário/protetor, submissão à autoridade, paternalismo, violência, mito: no jogo dos sete erros, quantos deles habitam no imaginário político messiânico que hoje corrói as instituições por dentro sob o signo de “patriotismo”?

“É por tudo isso que a sociedade brasileira abre mão, com tanta frequência, da tarefa construir uma ordem republicana, moderna, adulta”, escreve a autora.

A infantilização do debate público atual é só um dos sintomas desse fenômeno enraizado no ressentimento, um conceito avesso da política e “fruto da combinação entre promessas não cumpridas e a passividade que elas promovem”. “Os ressentidos, na política, são aqueles que abriram mão de sua condição de agentes da transformação social para esperar por direitos e benesses garantidos por antecipação”, escreve ela.

As reflexões parecem caber como luva nos impasses de um país que encontra nas redes os fios desencapados da própria miséria.

Esse mito do herói que volta ao passada para resgatar uma grandeza inglória não se reconhece, e esperneia, no espelho da própria piada.