Mario Lucio Vaz: 'Caetano Veloso torna o popular erudito e o vulgar divino'

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A pedido do GLOBO, músico caboverdiano escreve sobre o ícone baiano que completa 80 anos neste 7 de agosto; leia também os textos de Fito Paez, Jorge Drexler, Carminho, David Byrne, Sônia Braga, Devendra Banhart, Igiaba Scego e Gilberto Gil. Abaixo, o texto de Mario Lucio Vaz:

"Tinha eu 15 anos quando deixei a minha freguesia de Santo Amaro Abade e me mudei para estudar na freguesia de Nossa Senhora da Graça. Quando se vem do campo para a cidade, tudo o que sabemos vira velho e o novo espanta-nos de modo desconcertante. Entre esses espantos que me marcariam para o resto da vida está a descoberta de Caetano Veloso.

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A música de Cabo Verde tem um longo historial na formação e na conformação da música brasileira, (dizer vice-versa também é verdadeiro, porque, a partir dos anos 60, os marinheiros que tocavam o porto do Mindelo, na ilha de S. Vicente, e os imigrantes que trabalhavam no porto de Santos, litoral de São Paulo, chegaram com Teixeirinha, lá do Sul, Luiz Gonzaga, do Nordeste, Roberto Carlos, Nelson Ned, e povoaram a imaginação crioula dessa época. Nos anos 80, a minha geração descobriu a Tropicália e, ainda, Alcione e Benito de Paula.

E, para a revolução, Caetano. Este era separado do que se ouvia com deleite, para, ademais, ser escutado e discutido. Caetano desconstrói, dizíamos. Seus poemas tinham sinais de antipoemas, e desconcertava-nos porque era lírica, mas também semiótica pura, tornava o popular erudito e o vulgar divino. Foi desafiador para nós, de uma cultura acentuadamente oral e de uma educação portuguesa bem formal. Caetano filosofa de pijama, exclamávamos, porque era uma despretensão tão propositada no dizer que o dito se tornava agudo e profundo. A superfície das suas palavras era o fundo do Cosmos. Eu, às escondidas, tentava encontrar o trovador que morava em mim pelas mãos de Caetano.

A melodia das suas composições deu-nos a bússola. Caetano pega o chão da Bahia, invoca as reminiscências milenares de África, roça a bossa carioca, rebusca o melhor das tradições europeias, tempera tudo e põe no prato do disco a síntese que é o Brasil. Engraçado, por essa bússola, quarenta nos depois, desembarquei na casa de Caetano para um abraço e ele disse-me: “A música de Cabo Verde lembra-me o som antigo do recôncavo baiano”.

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