Mario Vargas Llosa, ganhador do Nobel de Literatura, diz que prefere Bolsonaro a Lula

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SÃO PAULO — Único escritor de língua espanhola ainda vivo a vencer o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa afirmou nesta quarta-feira que seria preferível a reeleição do presidente da República Jair Bolsonaro a uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras deste ano.

Vargas Llosa, que vive há décadas em Madri, viajou a Montevidéu para participar de uma conferência do think thank uruguaio de orientação liberal Centro de Estudos para o Desenvolvimento (CED). Durante o evento, o escritor de Conversas no Catedral afirmou que Bolsonaro não é um liberal e criticou o negacionismo do presidente brasileiro em relação à pandemia e às vacinas, mas disse preferir sua reeleição a um retorno de Lula.

— O caso de Bolsonaro é muito difícil. As palhaçadas de Bolsonaro são muito difíceis de admitir para um liberal. Agora, entre Bolsonaro e Lula, eu prefiro Bolsonaro de imediato. Mesmo com as palhaçadas, Bolsonaro não é Lula — disse o escritor, de 86 anos.

O peruano criticou o que chamou de "apaixonamento por Lula, sobretudo na Europa". — Há uma admiração por Lula na Europa, porque supostamente ele inventou 2 milhões de empregos. Onde estão esses 2 milhões de trabalhos? Gostaria de saber — questionou. Lula costuma afirmar que os governos do Partido dos Trabalhadores geraram 20 milhões de empregos, não 2 milhões.

Sem citar diretamente o nome de Sergio Moro, Vargas Lllosa elogiou o ex-juiz e lamentou que ele não seja mais pré-candidato à Presidência.

— Lula esteve preso e não fomos nós que o condenamos, foram os juízes brasileiros que o condenaram por ser ladrão. Se equivocaram os juízes? Eu conheci o juiz que o mandou à prisão (Moro) e me parece um homem de uma integridade absoluta, um homem absolutamente guiado por princípios de moralidade, decência e respeito às leis. Ele renunciou a sua candidatura à presidência, é um juiz que se atreveu a enviar Lula à cadeia. Agora parece que Lula poderia ganhar as eleições no Brasil — afirmou à plateia do evento.

Apesar de preferir Bolsonaro a Lula, o escritou fez uma série de críticas ao governo do presidente, em especial em relação ao negacionismo durante a pandemia. Vargas Llosa contraiu Covid-19 em abril deste ano e precisou ser internado por complicações da doença.

- Minha impressão de Bolsonaro não é favorável, vi palhaçadas demais no governo, sobretudo a de ser contra a vacina quando a imensa maioria dos brasileiros queria a vacina. Um presidente não pode infringir uma posição popular tão majoritária como foi esse caso. Não nos equivoquemos, Bolsonaro não é um liberal, não representa essa tendência positiva - ressaltou.

Para Vargas Lllosa, Bolsonaro "não é um candidato que desperte nossos entusiasmos, muito pelo contrário". Ele classifica como "erro muito grave" a condução do governo na pandemia. - Mas dá a impressão de que o Brasil neste último governo se livrou do fenômeno que abraça nosso continente, que é o da profunda corrupção - disse.

O escritor disse não saber afirmar se o país progrediu no governo Bolsonaro, mas elogiou a postura privatista do Ministro da Economia, Paulo Guedes.

- Na prática, o importante é avançar e não retroceder. Com Bolsonaro o Brasil avançou? Não sei, tenho muitas dúvidas a esse respeito. Quando vi o Bolsonaro ser contra a vacina, (pensei que era) clarissimamente um disparate, um absurdo. Enfrentar a vacinação como foi feito por Bolsonaro é uma completa irresponsabilidade. Agora, Bolsonaro deixou nas mãos de um ministro da economia magnífico uma possibilidade de privatização de um setor público gigantesco que tem o Brasil, e isso foi positivo, sem dúvida - disse.

Apesar de ter sido simpatizante do comunismo no início de sua vida intelectual, Vargas Llosa se converteu ao liberalismo entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980.

Mais recentemente, o escritor, que historicamente se manifestou contra regimes autoritários, tem apoiado candidatos de extrema direira. Em sua guinada cada vez mais à direita, endossou no Chile a candidatura presidencial de José Antonio Kast, que defendia a ditadura de Alberto Pinochet. Em seu país, nas eleições do ano passado, apoiou no segundo turno Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori e sua histórica rival. Keiko foi derrotada por apertada margem de votos pelo professor de zona rural e esquerdista Pedro Castillo.

Na Argentina, em 2019, o escritor peruano apoiou o então presidente e candidato derrotado à reeleição Mauricio Macri contra Alberto Fernández.

Em 1990, quando já era um escritor internacionalmente consagrado, Vargas Llosa disputou as eleições presidenciais peruanas e chegou a passar para o segundo turno com uma plataforma liberal. Perdeu o pleito para Alberto Fujimori, que daria um golpe de estado em 1992. O escritor foi um importante nome da oposição ao fujimorismo nos anos 1990 e nas eleições de 2011 e 2016, quando Keiko também passou ao segundo turno e foi derrotada por Ollanta Humala, de esquerda, e Pedro Pablo Kuczynski, de centro-direita.

Ao falar sobre a guinada à esquerda e ao centro em eleições recentes nos países da América Latina, Vargas Llosa disse que a região "está elegendo as piores opções".

- Neste momento em que os países podem eleger ser prósperos ou ficar para trás, a América LAtina está escolhendo mal - afirmou. Ele criticou os governos de México, Venezuela, Bolívia, Argentina, Nicarágua e Chile, mas elogiou o atual presidente do Uruguai, o liberal Luis Alberto Lacalle Pou.

Para Vargas Llosa "o socialismo fracassou no mundo inteiro". - Onde há um socialismo que tenha trazido progresso, igualdade, que tenha feito avançar os países? Em nenhum lugar. (...) É um fracasso sistemático. O que triunfou foi a social-democracia, na Alemanha, por exemplo (...), mas a social-democracia não tem nada a ver com o socialismo. É uma forma absolutamente modélica do capitalismo que triunfa - disse.

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