Marrocos rompeu cessar-fogo no Saara Ocidental, diz Frente Polisário

Sophie PONS
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A linha de cessar-fogo patrulhada pela ONU no Saara Ocidental, uma ex-colônia espanhola, entra no deserto

Marrocos rompeu cessar-fogo no Saara Ocidental, diz Frente Polisário

A linha de cessar-fogo patrulhada pela ONU no Saara Ocidental, uma ex-colônia espanhola, entra no deserto

O movimento de independência Frente Polisário disse nesta sexta-feira (13) que o Marrocos rompeu um cessar-fogo de três décadas no Saara Ocidental, ao lançar uma operação para reabrir uma rota bloqueada para a vizinha Mauritânia.

"A guerra começou. Marrocos pôs fim ao cessar-fogo" assinado em 1991, disse à AFP o chefe da diplomacia saharaui, Mohamed Salem Ould Salek, em reação à operação militar marroquina na zona tampão de Guerguerat, perto da Mauritânia, no extremo sul desta ex-colônia espanhola, cujo status não está definido.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou "grave preocupação" após a notícia de ruptura do cessar-fogo.

De acordo com um porta-voz de Guterres, as Nações Unidas tentaram durante dias evitar a escalada de tensões no antigo território espanhol.

"Nos últimos dias, as Nações Unidas, incluindo o secretário-geral, se envolveram em múltiplas iniciativas para evitar uma escalada da situação na Faixa de Distensão da área de Guerguerat para alertar contra as violações do cessar-fogo e as sérias consequências de qualquer mudança no status quo", afirmou Stéphane Dujarric.

"O secretário-geral lamenta que estes esforços tenham sido infrutíferos e expressa uma grave preocupação pelas possíveis consequências destes últimos acontecimentos", acrescentou o porta-voz.

Guterres "pede às partes para proporcionar liberdade total de movimento à Missão [da ONU] de acordo com o seu mandato", acrescentou.

Os líderes da Frente Polisário haviam pedido ao secretário-geral da ONU que se dirigisse nesta sexta ao Conselho de Segurança para encerrar o que denominam de agressão marroquina contra os saharauis em Guerguerat.

Fontes diplomáticas disseram que não estava prevista nenhuma reunião formal do Conselho de Segurança da ONU para discutir o possível fim do cessar-fogo. Existem, no entanto, conversas para uma reunião informal, embora diplomatas tenham dito que não será possível convocá-la até o começo da próxima semana.

Argel, por sua vez, lamenta as "graves violações" do cessar-fogo e solicitou moderação, enquanto a Mauritânia pediu para "manter a trégua".

Cerca de 200 caminhoneiros estavam bloqueados há cerca de três semanas naquele posto de fronteira. A região de Guerguerat já foi o centro de fortes tensões entre a Polisário e Marrocos, especialmente no início de 2017.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Marrocos, a Polisário e suas milícias "entraram na área desde 21 de outubro e cometeram atos de vandalismo, bloquearam o trânsito e assediaram permanentemente os observadores militares da Minurso", a missão da ONU para o Referendo no Saara Ocidental.

O objetivo da operação militar é "pôr fim à situação de bloqueio" e "restabelecer a liberdade de circulação civil e comercial" na rota que leva à Mauritânia, segundo a mesma fonte.

Para a Frente Polisário, porém, a operação marroquina é uma "agressão".

- "Legítima defesa" -

Os dirigentes da Polisário haviam pedido ao secretário-geral das Nações Unidas que se dirigisse nesta sexta ao Conselho de Segurança com intuito de pôr fim "à agressão marroquina contra os saharauis que se manifestavam pacificamente em Guerguerat", segundo o embaixador saharaui na Argélia, Abdelkader Taleb Omar.

"As tropas saharauis se encontram em situação de legítima defesa e respondem às tropas marroquinas", disse o chefe da diplomacia saharaui, consultado por telefone de Argel.

Os separatistas saharauis denunciam a existência da estrada em questão, que Marrocos considera essencial para seus intercâmbios com a África subsariana.

Na semana passada, um grupo de caminhoneiros marroquinos pediu ajuda às autoridades de seu país e da Mauritânia, após alegar que foram bloqueados por "milícias filiadas a separatistas".

Em um discurso no início de novembro, o rei Mohamed VI disse que "Marrocos não vai tolerar qualquer continuação dessas provocações".

A Polisário pede um referendo de autodeterminação, planejado pela ONU, enquanto o Marrocos, que controla mais de dois terços deste vasto território desértico, propõe um plano de autonomia sob sua soberania.

Um cessar-fogo foi assinado em setembro de 1991 sob os auspícios da ONU, após 16 anos de guerra.

O referendo foi adiado desde então, devido a uma disputa entre o governo marroquino e a Polisário sobre a composição do corpo eleitoral e o estatuto do território.

Conduzidas pela ONU e envolvendo Marrocos, Polisário, Argélia e Mauritânia, as negociações estão suspensas há vários meses.

A França pediu nesta sexta-feira que "todo o possível seja feito para evitar uma escalada" no Saara Ocidental, depois que Marrocos lançou uma operação militar e a Frente Polisário (pró-independência) encerrou um cessar-fogo em vigor desde 1991.

"Estes eventos demonstram a importância de uma rápida reorientação do processo político, que deve passar pela nomeação o mais breve possível de um novo Enviado Pessoal do Secretário-Geral da ONU", acrescentou o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, à AFP.

sof/bfi/mar/es/mr/tt/bn