Martín Fernandez: Autonomia de Tite vai acabar logo

Martín Fernandez

Sete dos 24 jogadores convocados por Tite para a primeira rodada dupla das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022, contra Bolívia e Peru, atuam no futebol brasileiro.

Nenhum outro país cedeu tantos atletas para a seleção brasileira. Nenhum time forneceu mais jogadores do que o Flamengo (três). Até outro dia, a base era o Manchester City.

Não é pouco, afinal o Brasil muito mais exporta do que retém ou repatria seus craques. Não há time relevante no planeta sem jogador brasileiro — protagonista ou coadjuvante. Faz tempo que é mais fácil escalar a seleção só com atletas que atuam no futebol europeu.

Há dois grandes motivos para que esta seleção, de março de 2020, seja tão brasileira. O primeiro, claro, é o efeito Flamengo. Sob o comando de Jorge Jesus, o atual campeão da Libertadores conseguiu reunir uma quantidade notável de talentos e extrair o melhor de cada um deles.

Não é trivial o fato de jogadores com trajetórias tão diferentes quanto Everton Ribeiro (prestes a completar 31 anos), Gabigol (23) e Bruno Henrique (29) desfrutarem, ao mesmo tempo, do melhor momento de suas carreiras. Isso para ficar apenas nos que foram convocados. Cabia Gerson, cabia Filipe Luís, cabia Rodrigo Caio.

O outro motivo ficou claro na entrevista coletiva que Tite concedeu nesta sexta-feira, após anunciar a lista. Mais precisamente nesta declaração: “Há total autonomia na escolha dos atletas, em relação ao Flamengo e a todos os demais clubes”.

É uma pena que a “total autonomia” tenha sido concedida tão tarde a Tite. Nas últimas convocações, como o próprio treinador admitiu, seu trabalho foi tolhido pela regra não escrita que limita o número de jogadores de um mesmo clube que podem ser levados para a seleção — um dispositivo ridículo, que tem como efeito prático fechar portas para quem defende times brasileiros.

Também é lamentável que, uma vez exercida, a “total autonomia” de Tite tenha data para acabar: já na próxima convocação, para os amistosos de junho e para a Copa América a ser disputada na Colômbia e na Argentina. Como o torneio faz parte do calendário da Fifa, os clubes serão obrigados a liberarem os jogadores recrutados por suas seleções nacionais. E o Campeonato Brasileiro não vai parar.

Mesmo que Tite aprove a contribuição de Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol à seleção, certamente não poderá convocá-los outra vez. Não ao mesmo tempo. Especialmente porque o Uruguai não vai abrir mão de contar com Arrascaeta. O próprio técnico admitiu a impossibilidade, ao tergiversar quando foi instado a responder sobre as próximas listas: “Tudo o que eu disser agora pode vir a não se confirmar em 15 dias pelo momento técnico dos atletas”. Para bom entendedor...

É evidente que essa situação bizarra que opõe associações nacionais a clubes e afasta torcedores das seleções não é culpa de Tite — como não era de seus antecessores. Enquanto o calendário for inchado será assim.

Desfrutemos portanto deste breve momento em que o técnico do Brasil tem autonomia total para montar seu time ideal, sem amarras, e pode aproveitar o entrosamento e a boa fase dos melhores jogadores em atividade no futebol brasileiro.