Marta faz 35. Relembre cinco momentos em que a rainha do futebol fez história dentro e fora do campo

Leda Antunes
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Em 19 de fevereiro de 1986 nascia, em Dois Riachos, interior do Alagoas, Marta Vieira da Silva. Com uma bola nos pés desde os seis anos de idade, a jogadora brasileira chega aos 35 como a maior artilheira da história das Copas do Mundo, eleita seis vezes a melhor do mundo pela Fifa e uma voz ativa pela igualdade de gênero no futebol.

A relação de Marta com o futebol começou cedo, como paixão na infância, quando jogava bola em um campo improvisado embaixo de uma ponte na cidade de Dois Rios, onde nasceu e viveu até a adolescência. Em meio ao conservadorismo do Sertão alagoano, era chamada de "mulher-macho" pelas ruas de sua cidade por conta do amor pelo futebol.

Aos 14 anos, Marta foi selecionada para o departamento feminino do Vasco e se mudou para o Rio de Janeiro. Quatro anos depois, vai jogar na Suécia e lá sua carreira ganha novos rumos. Em 2006, com apenas 20 anos, Marta é eleita melhor do mundo pela primeira vez.

Desde então, a lista de feitos da jogadora, que acaba de renovar seu contrato com o time americano Orlando Prime, onde joga desde 2017, é extensa. Para além dos recordes, Marta abre caminho e inspira inúmeras mulheres apaixonadas pelo futebol mundo afora, e luta pela igualdade de gênero dentro e fora de campo.

Relembre cinco momentos em que Marta fez história.

Seis vezes melhor do mundo

Nem uma, nem duas, nem três. Marta foi eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo pela Fifa. Apenas o argentino Lionel Messi ganhou o título tantas vezes quanto ela. A primeira vitória veio em 2006, quando Marta tinha apenas 20 anos. Ela venceu o prêmio nos quatro anos seguintes. A última condecoração veio em 2018 pela sua atuação pelo Orlando Pride, nos EUA, e pela conquista da Copa América com a seleção brasileira, assegurando a classificação à Copa do Mundo da França em 2019 e também aos Jogos Olímpicos de Tóquio, adiados para este ano.

Quando venceu pela última vez, Marta foi questionada se ainda tinha espaço para tantos troféus e medalhas na sua casa. "Pode ter certeza que sim", disse a jogadora, garantindo que mantém guardada até sua primeira medalha que ganhou no colégio. "Tem um lugar especial para esse também", garantiu a atleta, que também tem em casa duas medalhas de ouro dos jogos Pan-Americanos de 2003 e 2007 e duas de prata dos jogos olímpicos de 2004 e 2008.

Maior artilheira da Copa do Mundo

Em 2019, na Copa do Mundo de Futebol Feminino da França, Marta entrou em campo pela seleção brasileira em uma partida contra a Itália e mais uma vez entrou para história. Ao marcar seus 17ª gol em mundiais, ela superou o alemão Miroslav Klose e se tornou a maior artilheira da história das copas.

Marta também já havia alcançado outro recorde na partida anterior. Na ocasião, a camisa 10 da seleção brasileira se tornou a primeira a balançar as redes em cinco edições diferentes do torneio. Sua primeira Copa do Mundo foi em 2003, com 17 anos, depois, disputou as edições de 2007, 2011 e 2015.

"A gente está quebrando muitas barreiras. Esse recorde representa bastante. Pois, não é só a Marta, mas é um recorde das mulheres. Muitos dizem ainda que futebol é para os homens, mas este recorde é tanto do futebol masculino quanto do feminino", disse após a partida contra a Itália.

Marta também é recordista em número de gols com a camisa da seleção brasileira. Ela marcou mais do que Pelé. Em 2018, se tornou a primeira mulher a ser homenageada na calçada da fama do Maracanã.

Orgulho contra o preconceito

Quando era criança, Marta era chamada de "mulher-macho" por gostar de futebol. Mas isso não a deteve e Marta seguiu seu caminho para se tornar a maior jogadora de todos os tempos.

Se houve um tempo em que não falava sobre isso, hoje Marta também não esconde sua orientação sexual e exibe com orgulho nas suas redes sociais seu relacionamento com a jogadora americana Toni Deion, 30 anos. As duas anunciaram o noivado em janeiro.

Em um esporte que ainda é extremamente masculinizado e cercado de preconceito, a maior jogadora do mundo falar com orgulho que ama outra mulher não é pouca coisa.

Chuteiras pela igualdade

Na Copa do Mundo da França, em 2019, Marta se recusou a renovar seu contrato de patrocínio com a Puma e rejeitou outras ofertas por achar o valor que lhe foi oferecido muito baixo, e jogou as partidas com uma chuteira do movimento "Go Equal", uma campanha pela igualdade de salários entre homens e mulheres.

"Há uma diferença muito grande em relação a salários [entre homens em mulheres], e a gente tem que estar sempre lutando para provar que é capaz", disse Marta, em entrevista ao Globo Esporte, na época.

A imagem de Marta e suas chuteiras sem patrocínio ganhou o mundo e jogou luz sobre a disparidade de salários e investimentos entre futebol feminino e masculino. Afinal, segundo muitos estudiosos do tema, é somente a discriminação de gênero entranhada em toda a cadeia esportiva que explica por que a melhor jogadora de futebol de todos os tempos ganha € 340 mil por temporada, enquanto Neymar, por exemplo, recebe € 91,5 milhões (os dados são de 2018). Com isso, ela ganha apenas 0,3% do rendimento anual do jogador, bem menos de 1%.

"Nós precisamos de apoio. Mas mais do que apoio, nós precisamos de respeito. E dar valor é a melhor forma de mostrar respeito a alguém. No esporte. Na vida. Por isso a equidade é algo pelo qual todas, todos e todxs devemos lutar. E a hora de agir é AGORA", publicou em suas redes sociais.

Antes disso, Marta já atuava em prol das mulheres e da emancipação feminina através do esporte, como embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas.

Do campo para a prova do Enem

Ao jogar luz sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres no futebol, Marta foi parar na prova do Enem, realizada em janeiro. A questão apresentava Marta com um salário anual de 400 mil dólares e 103 gols pela seleção. Com isso, sua média seria de 3,9 mil dólares por cada gol. Já Neymar, com remuneração de 14,5 milhões anuais e 50 gols pela seleção, teria média de 290 mil dólares por cada um deles.

A pergunta foi classificada como "ridícula" pelo presidente Jair Bolsonaro, pois, segundo ele, o problema seria uma simples questão "de mercado", embora estudiosos do tema já tenham mostrado que toda a cadeia esportiva é discriminatória, o que se reflete na remuneração.

O presidente acabou recebendo uma resposta afiada da jogadora, que após a fala, publicou uma foto em suas redes sociais e ironizou: "Uns serão lembrados como melhores da história, já outros..."