"Marte um": Gabriel Martins observa abismo e potências em um país em risco e expansão

O ex-jogador argentino Sorín em cena do filme Marte Um, de Gabriel Martins
O ex-jogador argentino Sorín em cena do filme Marte Um, de Gabriel Martins

Um amigo jornalista português me perguntou, dias atrás, como o cinema brasileiro atravessava os anos de penúria do governo Bolsonaro. Levei um tempo a responder. O impulso inicial era dizer “não sobrevivem”.

Uma coisa são os filmes lançados no período, e que chegaram às salas, ou ao streaming, como prenúncio e alegoria de eventos capturados anos antes, durante a fase de produção. “Bacurau” é um exemplo, mas não só.

A safra castigada de filmes brasileiros produzidos entre 2019 e 2022 ainda está por vir, afirmei. E ela não poderia ser analisada sem levar em conta duas suspensões históricas: o ataque frontal à classe artística representada pelo atual governo e, claro, a pandemia.

Pouco depois voltei a fazer contato com meu amigo para me desdizer. Tinha acabado de assistir “Marte Um”, filme de Gabriel Martins que estreou na quinta-feira (25/8) e, ao fim da projeção, ainda embasbacado, me lembrei do que ouvi de Cacá Diegues em uma entrevista. "Já tentaram matar o cinema brasileiro várias vezes, e ele não morre. É uma espécie de vocação".

Sim, o cinema brasileiro resiste, e "Marte Um" é prova disso.

O filme tem início no dia da eleição de Jair Bolsonaro. Isso descobrimos por conta do noticiário ouvido em uma casa de subúrbio onde se passa a história, em Minas Gerais. Pouco depois, a posse do novo presidente é anunciada naquela casa. São as duas únicas referências diretas a um período de incontingências e brutalidades.

As referências a partir dali cruzam os céus e pousam suaves em uma narrativa que flerta mas não detona uma explosão.

Em uma cena recorrente, o garoto Deivid, interpretado por Cícero Lucas, leva a bicicleta até a ponta de uma descida íngreme e hesita em ultrapassar a linha de segurança – diferentemente dos amigos da rua, que metros abaixo o chamam de medroso.

Gabriel Martins parece fazer o mesmo ao observar o abismo alegórico de um país disposto a fustigar seus personagens e as potências contidas naqueles corpos em forma talento, inteligência, capacidade de observação e planos de futuro.

Até que o abismo é encarado; não sem deixar marcas.

Se em “No Coração do Mundo”, filme dirigido em parceria com o amigo Maurílio Martins, a violência explode como linguagem, a implosão em “Marte Um” é silenciosa.

Em algum momento uma premonição ruim anunciada pela mãe parece prestes a se confirmar. Como se aquele mundo corresse o tempo todo o risco de ser apagado, não porque seus personagens perambularam em vias proibidas e mal iluminadas, mas porque estamos no Brasil, um o país que estraçalha corpos negros desde a escravidão.

Aquela família, ao primeiro olhar, é uma família de sobreviventes. Seus habitantes parecem orbitar, e bem, algumas camadas acima da linha da pobreza. Eles moram em uma casa simples, mas confortável; têm acesso a internet, escola, faculdade, almoçam e jantam juntos e botam na ponta do lápis pequenas permissões, como a assinatura do pay-per-view para o pai acompanhar os jogos do Cruzeiro.

Mas a força gravitacional ali é diferente e ela suga aqueles personagens ao centro dos grandes clichês da brasilidade: o menino de origem humilde que só se destaca pelo futebol, a filha criada para ser bela, recatada e do lar, o pai trabalhador que compensa as frustrações da vida no álcool, a mulher adulta negra resiliente que não demonstra fraqueza nunca.

A resistência a esse destino pré-moldado está nas entrelinhas, como quando a filha estudiosa questiona a mãe, enquanto lavam a louça do almoço, por que os meninos da casa não são escalados para as tarefas domésticas.

Como um país que avança dois passos e recua três, o acesso a bens de consumo e culturais é ali uma conquista provisória. Qualquer tombo e tudo vai abaixo.

Daí a insistência do caçula da família em olhar para o céu, furar as camadas atmosféricas que sustentam e o aprisionam em um território colonizado e de destinos planejados e definidos antes de sua chegada ao mundo. O que ele projeta é um futuro em um outro espaço.

Tem algo ali que ecoa os conterrâneos da música em Clube da Esquina. Naquela mesa, os familiares dividem a noite, a lua e até solidão. Estão (e não estão) todos à espera do dia, fugindo para outro lugar.

Deivinho sonha em integrar o projeto Marte Um, que levará a humanidade até o planeta vermelho nas próximas décadas. E passa os dias consumindo na internet palestras e informações sobre os astros e as estrelas de luz própria. Faz isso meio escondido, como se adentrasse em um território indevido e acessado apenas por outros corpos.

Aquele projeto não é sonho. É resistência. E mesmo pais atentos e protetores têm dificuldade em perceber, numa inversão do conto “Campo Geral”, de Guimarães Rosa, que o Miguilim suburbano já tem seus óculos e pode antever com clareza as jogadas em campo.

Para quem nasce à margem, não existe sonho sem teimosia. E não há um passo dos personagens naquele filme que não insinue um flerte permanente com a tragédia. Basta atravessar a rua.

O núcleo familiar é desorganizado toda vez que seus integrantes saem de casa para ganhar o mundo, este colonizado por outros terráqueos.

O pai, Wellington (Carlos Francisco de “Bacurau”, e da Companhia do Latão de teatro), é um alcoólatra em tratamento, às voltas com a recaída, que trabalha como porteiro em um prédio de alto padrão e vê sua vida bifurcar a partir da chegada de dois novos amigos.

Um deles é um velho ídolo do seu Cruzeiro, o ex-lateral Sorín (interpretado por ele próprio). Ali, como se instalasse uma luneta onde os astros à sua órbita podem enfim ser observados através do celular, ele lança o voo livre de seu caçula bom de bola no Planeta futebol. Sorín fica impressionado com o que vê. Só que a tela do celular onde o menino é observado é mínima; o que ele quer é lente de aumento.

Num mundo paralelo, mas nem tanto, a filha mais velha (Camilla Damião), uma estudante de Direito, flerta com a implosão ao contar para os pais que pretende se mudar de casa em companhia de uma amiga. A notícia chega como um meteoro na sala de jantar, e ela não sabe exatamente como explicar que a amiga, na verdade, é sua namorada. Como os pais vão reagir?

A mãe (Rejane Faria), diarista, é a pedra fundamental por onde rodam todos os outros corpos. Mas essa pedra é avariada quando ela passa por uma espécie de experiência de quase morte: um dia, enquanto almoçava em uma lanchonete, um homem invade o local e ameaça matar todo mundo com dinamites. Era só uma pegadinha de TV, mas o trauma ocasionado pelo susto a leva a desenvolver síndrome do pânico. A partir dali a morte passa a atravessar seu caminho como uma sombra. Seu medo é elaborado de muitas maneiras, mas nem sempre há escuta entre os seus.

O campo magnético, quando se desarticula, faz com que todos ao redor passem a correr perigo: o filho se acidenta, a filha sai de casa brigada, o pai fica às voltas do desemprego.

Os astros só se realinham novamente no dia em que ela volta a encarar seu algoz –um aparente detalhe que faz da espectadora dos eventos um corpo/sujeito em ação.

Olhando tantos trajetos desalinhados e em perspectiva, não é difícil entender o que faz de “Marte um” um dos grandes filmes brasileiros –e não só deste ano.

Sobrevoam ali elementos que dialogam com algumas das mais potentes produções nacionais desde a retomada, de “Central do Brasil” a “Linha de Passe”, ambos de Walter Salles. O momento em que o pai é acusado por um crime que não cometeu permite o paralelo entre as tradicionais famílias brasileiras em cena, sobre as quais não basta andar na linha; é preciso encarar os empurrões de quem as lança em direção ao abismo.

Martins é conterrâneo de uma multidão de realizadores que têm levado às telas alguns dos grandes filmes do cinema brasileiro desde a última década.

Um mundo todo é capturado a partir das lentes posicionadas nas franjas da região metropolitana de Belo Horizonte, onde uma conjunção nada cósmica, mas resultante das políticas de incentivo à produção audiovisual brasileira, hoje sob ataque (“Marte Um” foi produzido graças a um fundo público de 2016 voltado a diretores e narrativas de temática negra), reuniu nomes como Gabriel e Maurílio Martins, André Novais Oliveira, Samuel Marotta, Ewerton Belico, Affonso Uchoa, João Dumans, Juliana Antunes, entre tantos.

“Marte Um” é o retrato complexo de um contexto particular, e as referências aos momentos em que Bolsonaro foi eleito e empossado não estão ali à toa.

Mas é também um filme atemporal sobre rupturas, amadurecimento e, principalmente, sobre o medo comum de todas as famílias compostas por astros em órbitas, gravidades e planos de voo que se amam e se chocam no mesmo espaço o tempo todo.

“Marte um” é um filme sobre um universo em expansão – e em risco, desde o nascimento.