Martin Scorsese explica opinião sobre Marvel: 'Tempos perigosos para a exibição de filmes'

O Globo

RIO - Depois de dizer que "filmes da Marvel não são cinema", Martin Scorsese retornou ao assunto, dessa vez de forma mais detalhada. Em um editorial publicado no "The New York Times", o diretor americano de 76 anos escreveu sobre como acredita que as franquias de super-heróis impactam negativamente o futuro do cinema.No texto, intitulado "Eu disse que filmes da Marvel não são cinema. Me deixe explicar", Scorsese reconheceu que filmes de franquias são feitos por "pessoas de considerável talento" e que o fato desses filmes não lhe interessarem é uma questão "de gosto e temperamento pessoal". O diretor considerou, no entanto, que a noção que adquiriu sobre o que era cinema ao longo de sua vida é "tão distante do universo da Marvel como nós na Terra estamos de Alpha Centauri"."Para mim, e para os cineastas que eu vim a amar e respeitar, para meus amigos que começaram a fazer filmes na mesma época que eu, cinema é sobre revelação — revelação estética, emocional e espiritual. É sobre personagens — a complexidade das pessoas e suas naturezas paradoxais e contraditórias, a forma como elas podem machucar e amar umas as outras e, de repente, se verem diante de si mesmas", definiu. Comparando os filmes da Marvel com os de Hitchcock (que, para Scorsese, podiam se repetir, mas não deixam de impactar), o diretor de filmes como "Taxi driver" e "Os bons companheiros" defendeu que "muitos dos elementos que definem o cinema como eu conheço não estão nos filmes da Marvel"."O que não está lá é revelação, mistério ou verdadeiro perigo emocional. Nada está em risco. Os filmes são feitos para satisfazer uma lista específica de demandas, e são desenhados como variações dentro de um número finito de temas", afirmou o diretor.Por isso, para Scorsese, os longa-metragens do Universo Cinemático da Marvel "são sequências no nome, mas remakes no espírito"."Tudo neles é oficialmente sancionado porque não pode ser de outra forma. Esta é a natureza da franquia de filmes moderna: pesquisada pelo mercado, testada pela audiência, vetada, modificada, revetada e remodificada até estar pronta para consumo". EXPLICAMOS: Como os filmes da Marvel estão conectados uns aos outrosEm um segundo argumento, Scorsese respondeu por que simplesmente não deixar esses filmes existirem, ao invés de criticá-los. O diretor, então, afirmou que "é um tempo perigoso para a exibição de filmes", e que, em muitos lugares dos Estados Unidos e do mundo, franquias dominam o parque exibidor."E se você me disser que é simplemente uma questão de oferta e demanda e de dar às pessoas o que elas querem, eu vou discordar. É um caso de "o ovo e a galinha". Se as pessoas só recebem um tipo de coisa e, sem parar, só se vende a mesma coisa, é claro que elas sempre vão querer mais dessa mesma coisa".O cineasta ainda se defendeu de uma possível incoerência de escrever sobre a ocupação de salas de cinema enquanto está prestes a lançar seu próximo filme, "O irlandês", pela Netflix, um serviço de streaming."Nós temos uma janela nos cinemas, o que é ótimo. Eu gostaria de exibir meu filme nas telas grandes por um período maior de tempo? Claro que sim. Mas não importa com quem você faça um filme, o fato é que a maioria dos multiplexes está lotada com filmes de franquias". LEIA TAMBÉM: Recusado por salas de cinema nos EUA, 'O irlandês' será exibido na BroadwayPara Scorsese, o cinema mudou nos últimos vinte anos em todas as frentes, mas a maior mudança foi "a eliminação do risco". "Muitos filmes hoje são produtos perfeitos e manufaturados para consumo imediato. Muitos deles são feitos por times e indivíduos talentosos. De toda forma, eles não têm algo essencial para o cinema: a visão unificadora de um artista individual. Porque, claro, o artista individual é o maior risco de todo".O diretor, no entanto, refutou o uso de subsídios públicos para combater esse problema. Para ele, quando o sistema de estúdios de Hollywood "estava bem e de pé", a tensão entre executivos e artistas era "produtiva", e rendeu "alguns dos melhores filmes já feitos"."Hoje, essa tensão se foi. (...) A situação, infelizmente, é que há dois campos distintos: há o entretenimento audiovisual mundial e há o cinema. Eles ainda se encontram de tempos em tempos, mas isto está ficando cada vez mais raro. E eu temo que o domínio financeiro de um esteja sendo usado para marginalizar e mesmo menosprezar a existência do outro".