Marx, Hegel e o ocaso da inteligência

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Parece um detalhe, mas há algo mais grave em curso quando promotores responsáveis pelo pedido de prisão da maior liderança política de seu tempo (para o bem e para o mal, hoje mais para o mal que para o bem) confundem, num ato falho exposto entre a galhofa e a carteirada vazia da erudição, os nomes de Friedrich Hegel e Friedrich Engels.

A confusão de nomes é a prova confessa da confusão de conceitos e ideias incorporadas em uma mesma frase sobre operários que chegam à Presidência e o marxismo. A sentença (semântica, não judicial) é uma mensagem corriqueira de que não é preciso entender a filosofia ou o marxismo para desprezá-los. Por algum motivo esse desprezo daquilo que só sabemos o nome – no caso dos promotores que pedem a prisão de Lula, nem isso – virou moda em tempos recentes, quando lunáticos começaram a desenvolver uma certa paranoia sobre o avanço do regime comunista no Brasil. Era piada, virou coisa séria.

Na infância, aprendemos a associar imagens a palavras antes de articular qualquer reflexão sobre elas. É o que explica, por exemplo, o sucesso entre de programas como o Teletubbies, aqueles bichinhos coloridos da TV que repetiam o nome das cores para crianças em processo de alfabetização.

Em algum momento da vida adulta pulamos a etapa em que podemos citar os 50 tons de uma mesma cor e desconstruir conceitos com outros conceitos. Tese, antítese, síntese. Filosofia, enfim. Também conhecida como aquele exercício démodé de pensar sobre o que se diz.

O descarte desta etapa da vida, coincidente com a vestibularização do ensino, provoca sequelas em qualquer atividade intelectual honesta. E condena o cidadão a passar a vida repetindo frases como numa velha associação de cores. Ou a observar perigos comunistas nas argolas da Olimpíada ou no vermelho do McDonald’s.

De uns tempos pra cá, a falência de um modelo de governo dito popular destravou o constrangimento de quem, em tempos das vacas gordas, associava a paranoia com um sentimento de inadequação com o mundo: o sujeito sentia uma certa vertigem por ver um mundo de referências sólidas se desmanchar com as mudanças inevitáveis da História. Só não conseguia nomear o mal-estar. Esse sujeito cresceu num mundo em que aquilo que deveria fornecer respostas já não cumpre seu papel e a velocidade das transformações é proporcional à ampliação de demandas represadas por barreiras de contenção hegemônicas.

Neste processo, vozes antes abafadas começaram a ganhar visibilidade e a desafiar as hierarquias até então consagradas dos círculos familiares, religiosos e políticos.

A ampliação dos espaços de representação, que resultou num debate a fórceps sobre, por exemplo, ações afirmativas e visibilidade, deu cabo a um processo político inadiável. Este processo sensibilizou o sistema de representação política tradicional a duras penas – não com a radicalidade que o movimento requer, mas como uma contínua e lenta abertura.

Provocou, de outro lado, uma reação organizada de velhos grupos, os órgãos dos velhos comandos. Essa reação começou a se manifestar, aos poucos, nas caixas de comentários de textos na internet. Ali surgiam as primeiras confusões de conceitos de quem dos assuntos debatidos tinha mais medo do que conhecimento. Surgiam, assim, associações desastrosas entre feminismo e nazismo, luta política com ditadura gay, movimento anti-racismo com racismo reverso, etc.

Era um festival de bobagens tamanha que ao interlocutor caberia apenas rir. “São os velhos amedrontados de sempre com a chegada de um novo tempo”, pensávamos.

Eles já estavam ali para denunciar os absurdos da revolução sexual dos anos 60, a degradação moral dos 1970, a anarquia violenta dos 1980, a punição da nossa libertinagem pelo HIV dos 1990, a perdição dos jovens (des)conectados dos anos 2000 e, agora, essa conversa de mundo compartilhado em que “puta, preto e viado” (grifo deles, por favor) têm direito a fala.

Enquanto o Brasil surfava na bonança das commodities e se esbaldava no crédito fácil para estudo, carro e casa própria, essa reação parecia ser exatamente o que era: uma excrescência de seu tempo.

Poucos, a não ser os lunáticos de sempre - que, indispostos a abraçar os clássicos universais, substituíam os dez mandamentos para vencer na vida pelas lições para não ser um perfeito idiota (sem desconfiar, talvez, que idiotas, afinal, são humanos e imperfeitos) – conseguiam articular uma associação direta entre marxismo, comunismo e petismo, já à época um modo de governo alimentado pelo mito do empreendedor pragmático porém sensível a causas populares.

Entre a satisfação garantida dos índices de popularidade e a rebeldia sem causa dos reacionários de sempre, ninguém ousaria dizer em voz alta, por exemplo, que o processo de inclusão pelo mercado de consumo não tinha paralelo quando o tema era ampliação de direitos das minorias, que as populações vulneráveis eram ainda removidas de suas casas para dar lugar aos automóveis e aos grandes empreendimentos, ou seguiam morrendo em chacinas patrocinadas pelo Estado e narradas em cantos de página.

Vivemos um tempo em que o debate político é coordenado por marqueteiros antes, durante e depois das eleições. Quando este debate mais parece uma guerra entre fabricantes de sabonetes, na qual vence a concorrência quem posiciona melhor a sua estratégia de comunicação, o debate mais deseduca do que educa. A ponto de abafar qualquer desconfiança sobre governos populares que encheram as burras das redes de ensino superior, das empreiteiras e dos banqueiros em detrimento de estudantes, locatários e correntistas, pilhados por serviços caros e ineficientes.

Relegados às quatro paredes da academia, os pensadores e intelectuais pareciam amargar uma espécie de exílio em um período em que a única filosofia possível eram as sentenças limitadas a 140 caracteres de aforismos compartilháveis sem qualquer validação. Atire a primeira pedra o protagonista do debate público que nos últimos dez anos passou menos tempo no Facebook do que nos clássicos da literatura ou da filosofia.

Eis, talvez, o impasse da revolução do acesso à informação e ao conhecimento: ela expandia e conectava grupos até então sem voz ao mesmo tempo em que reforçava muros, eliminava o contraditório e referendava distâncias. Replicava, em algoritmos, a organização de nossas cidades fundadas na exclusão.

Assim, acostumamos a falar a plateias cativas e perdemos de vista qualquer tentativa de antítese. Isso sim faria Hegel corar.

Até que, um dia, veio a crise e uniu os contentes aos descontentes na mesma desolação. Quem vendia prosperidade, nas igrejas ou nos partidos rivais, já não tinha como vender a terra prometida em uma terra arrasada. Mas tinha uma chance de arrebanhar fieis. Como? Com medo.

É quando o mal-estar daquele cidadão apavorado com as mudanças de seu tempo começa a ser nomeado na forma do outro. Pois nessas horas de tormenta é preciso reforçar a vigilância de nossos muros e garantir a profecia bíblica segundo a qual “a quem tem, mais se lhe dará; mas, ao que quase não tem, até o que tem lhe será tirado”.

Temos, então, um rosto para nossos demônios. Temos, enfim, os culpados. Os culpados de sempre: aqueles que vêm falar sobre justiça e igualdade quando o mundo tem outras prioridades a cuidar, como o justiçamento contra quem nos coloca em perigo. O ódio ao governo nomeadamente corrupto migra assim para o “esquerdista vendido”, “vagabundo”, “hipócrita”. Qualquer contraponto a essa leitura já não recebe contra-argumento. Recebe pedrada.

Dessa maneira aquele comentarista de portal apavorado, usuários das redes pelas quais circulam à velocidade da luz alertas sobre o fim do mundo e boatos sobre a morte de quem já morreu, se tornara uma legião.

Quando percebemos, os comentaristas de portal se transformaram em colunistas de grande jornal, e os colunistas de grande jornal se transformaram em comentarista de portal. Ou promotores. Entre menções a Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector em frases-feitas sobre o amor e a felicidade, todo mundo lia todo mundo, repetia todo mundo e as ideias-feitas colavam na gente feito chiclete.

A alavanca desse pânico mal escrito em caixa alta já dava as caras nas patrulhas sobre o ensino nas escolas muito antes dessa crise explodir. Caso do movimento “Escola sem Partido”, que denunciava como “politicagem” ou “ideologia” qualquer leitura contestadora da ordem – para a patrulha, discussão de gênero e marxismo é tudo farinha do mesmo saco.

Eles não precisavam saber do que falavam. Precisavam apenas ter boas sacadas, falar ao ouvido dos amedrontados e indecisos sobre os perigos do mundo, do feminismo ao comunismo, passando pelos adolescentes em liberdade, e associar qualquer bandeira vermelha à degradação dos nossos referenciais morais de segurança: a família, a comunidade, a pátria, etc.

Do outro lado, vale dizer, outra espécie de comentarista de portal que ganhava status de formador de opinião lançava táticas semelhantes para alertar sobre os perigos da mídia golpista e das elites, armadas até os dentes para retirar do petismo um certo direito natural e permanente a ser governo.

Nessa sociedade fracionada, a capacidade de pensar morreu um pouco a cada dia. Se informação é conhecimento e conhecimento é poder, a desintegração das fronteiras entre elas transformou em artigo de luxo a capacidade de filtrar e contextualizar o que se lê. Não era impossível filosofar em português, mas quem estava disposto a fazê-lo quando o mundo pedia frases curtas? Como competir com as respostas automáticas de quem se acostumou a debater como quem levanta o braço para alcançar o produto desejado nas gôndolas de supermercado?

Numa sociedade ansiosa por respostas imediatas para tudo, o tempo para pensar virou uma anacronia. Entrou em desuso. Quando essa ansiedade chega à opinião pública, é tentador dar a ela o que ela quer. Todo mundo quer ser herói e, numa guerra (à corrupção, à degradação moral dos nossos tempos, etc) todo mundo é inimigo, inclusive os que, absurdo dos absurdos, vêm agora falar de prudência e observância das leis – defensores de direitos humanos, a essa altura, já haviam se transformado em leprosos a quem a ignorância recomenda distância.

O ato falho dos promotores paulistas no pedido de prisão de Lula não é, portanto, um detalhe a ser ignorado. O deboche com que escreveram a acusação, num exercício vazio de erudição sem conhecimento, é um marco simbólico do processo de anti-intelectualismo e ojeriza à esquerda. Um processo reforçado pela direita bronca e pelo esgotamento do discurso de governos dito populares que passaram a atuar como os demais.

O deboche da acusação não é o deboche contra um líder político supostamente intocável, como muitos querem fazer crer. É um deboche contra aquilo que ele deveria representar, embora ele e seu partido não representem há tempos o que os comentaristas de portais temem e/ou ignoram: um abalo real das estruturas.

Para quem associa bandeira vermelha com perigo comunista em pleno 2016 fica difícil explicar a diferença entre uma coisa e outra.

Fica difícil também afirmar o óbvio: enquanto acompanhamos a novela sobre o sítio e o tríplex do ex-presidente (que pode e deve ser investigado) e debochamos dos filósofos que inspiraram (e os que não inspiraram) essa “esquerda bolchevique” (sic, sic, sic), o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), figura onipresente das apurações da Lava Jato e sobrevivente de todos os governos desde Collor, e sua turma preparam o desembarque rumo a um eventual governo PSDB. As bandeiras vão, os homens ficam. Numa guerra não há outra prioridade a não ser sobreviver. A consciência pode esperar.

Para quem se preocupa com assuntos menos urgentes, a justificativa de um dos promotores da acusação sobre o ato falho pode ser educativo. “Numa peça de 200 laudas, falando de crimes essenciais, vão preferir ficar discutindo a filosofia?”, questionou. “Vão caçar o que fazer. Vão catar coquinho", recomendou ele à BBC.

Herbert Marcuse, ao interpretar Hegel (o original), afirmava que no processo de alienação da consciência as instituições e a cultura fundadas pelo homem desenvolvem leis próprias, e a liberdade do homem tem que se submeter a elas. Assim, o homem é dominado pela riqueza em expansão de seu meio econômico, social e político, e se esquece de que seu livre desenvolvimento é a meta final de todas essas obras; em vez disso, rende-se a seu império. “Os homens”, escreveu Marcuse, “sempre procuram perpetuar uma cultura estabelecida; assim fazendo, perpetuam a sua própria frustração”.

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