'Mas em que mundo tu vive?': em ótimo livro, José Falero reúne crônicas sobre a periferia de Porto Alegre

·4 min de leitura

É como um autor marginal, periférico e negro que o gaúcho José Falero se define em seu novo livro, “Mas em que mundo tu vive?” (Todavia, 2021). Esta é a terceira obra de Falero, um escritor das “quebradas” de Porto Alegre, mais especificamente da Lomba do Pinheiro, na periferia da capital gaúcha. O lançamento foi precedido pelo romance “Os supridores” (Todavia, 2020) e pelos contos de “Vila Sapo” (Venas Abiertas, 2019). Agora, o livro de Falero é uma reunião de crônicas.

A crônica, como se sabe, já foi definida como “gênero menor” pelo crítico literário Antonio Candido. Mas o próprio Candido contemporizou a afirmação, dizendo que quando a crônica passa do “jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava”. É o que ocorre com as crônicas de Falero, que nada possuem de menores.

Os textos saíram primeiro na revista digital Parêntese. A publicação em livro, enquanto suporte, permite fruir o conjunto. Na sua totalidade, escutamos o eco da escritora Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira.

Quando Falero escreve “nossos interesses nunca serão defendidos por aqueles que não experimentaram nossas dores”, na crônica “Assalariados”, é impossível não recordar de “Quarto de despejo” (1960). “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças”, escreveu Carolina no seu diário, em 10 de maio de 1958.

Os dois autores falam da fome e do trabalho exaustivo que é necessário enfrentar, muitas vezes, para combatê-la. “Aí tu vai pro trampo e o teu trampo é lavar louça e lavar louça e lavar louça. Mas eu digo louça! Louça! Tipo, tu tem cinquenta prato sujo pra tu lavar, aí tu lava trinta e já tá chegando mais setenta prato sujo pra tu lavar, e assim vai indo, e quanto mais tu lava, mais tem prato sujo para lavar!”, escreve Falero, em “Eu e os outros cocô tudo”. “Mas, se eu saísse de lá, eu ia pro inferno-minha-casa, e nesse outro inferno tinha a minha mãe com fome, me olhando, e eu também com fome, olhando pra ela, e tinha também a vergonha de pedir alguma coisa de comer pros parente”, acrescenta na crônica.

‘Fabular para não enlouquecer’

Ambos também encontram na leitura e na escrita um refúgio possível. Enquanto Carolina Maria de Jesus escreveu “Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem”, Falero escreveu sobre a “necessidade de fabular para não enlouquecer”.

O gaúcho alterna o uso da língua portuguesa formal com registros de oralidade, especialmente nos diálogos, mas não somente neles. Tal recurso também foi utilizado em seu romance, “Os supridores”.

Com sua perspectiva de classe — a trabalhadora —, a obra de Falero também dialoga com “Parque Industrial” (1933), de Patrícia Galvão, a Pagu. Ao refletir sobre apenas um “passo em falso” ser necessário para morar embaixo de um viaduto como mendigo, Falero nos remete à costureira Corina, personagem de Pagu, que é demitida por estar grávida, prostitui-se para sobreviver e acaba na prisão.

É na crônica em que avalia os melhores viadutos caso se torne um mendigo, “Uma vitória da tua gente”, que Falero usa a linguagem mais inventiva. “É um bom viaduto porque tu avalia como um bom lar caso tua vida venha a degringolar”, escreve. Este uso do “tu” do narrador soa como uma “falsa segunda pessoa”, recurso semelhante ao adotado por Jeferson Tenório, no também excelente “O avesso da pele” (Companhia das Letras, 2020), que trata do racismo em Porto Alegre.

O modo como Falero aborda as questões raciais nas suas crônicas, porém, se assemelha mais ao romance do seu conterrâneo Paulo Scott, “Marrom e amarelo” (Alfaguara, 2019), que toca no delicado tema do racismo enfrentado por negros retintos e negros pardos.

Assim como a crônica já foi vista como “gênero menor”, é importante lembrar que ela é um território de branquitude. Em uma de suas colunas na revista quatrocincoum, Paulo Roberto Pires lembra que, com poucas exceções, a crônica no Brasil “é assunto de homem, de homem branco, que vive de frente para o mar, no conforto da classe média carioca”. “No lirismo de crepúsculos e paixões, o ‘brotinho’ não é uma jovem negra, como negro não é aquele que, à beira da piscina, afoga as mágoas num gim”, escreveu o colunista.

Falero engrandece e enegrece a crônica brasileira.

Mas em que mundo tu vive?.

Autor: José Falero. Editora: Todavia. Páginas: 280. Preço: R$ 64,90.

*Paula Sperb é jornalista e doutora em Letras, realizando pós-doutorado em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos