'Mask': herança africana no palco, com máscaras, dança, música e dramaturgia

e Regiane Jesus
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RIO — A sapatilha é companheira inseparável de Débora Campos desde a infância. Não para os rodopios na ponta dos pés, típicos do balé clássico. Nos tempos de menina, o acessório acompanhava a moradora da Tijuca, que está em cartaz até o dia 15 no espetáculo “Mask” em versão on-line, na prática do jazz e de outros ritmos contemporâneos. Paixão antiga, a dança caminhou de mãos dadas com esta professora de educação física por uma vida inteira, mas no lugar do afeto, não de uma possibilidade de sobrevivência. Só que, no fundo, o desejo de transformar o amor em profissão sempre existiu.

Alguma coisa aconteceu no coração de Débora quando ela, aos 30 anos, já bem-sucedida na área da hidroginástica, assistiu uma apresentação de dança afro durante um show de Leci Brandão, no Sesc Tijuca. A partir daquele momento, nada mais ficaria imune a mudanças. Aprender o movimento típico dos seus ancestrais virou objetivo de vida, assim como a formação profissional em dança. Com o tempo, as aulas foram cedendo espaço para o trabalho no meio artístico. Só no ano passado, no entanto, ela conseguiu dizer adeus à piscina de uma academia tijucana para se dedicar exclusivamente a arte de se expressar através do seu corpo. Às vésperas de completar meio século de uma trajetória de lutas e conquistas, é com orgulho que a bailarina comemora a oportunidade de fazer parte do Muanes DançaTeatro, que exibe até quinta-feira, às 20h, no canal do coletivo no YouTube, o espetáculo “Mask”.

— Esse trabalho começou a nascer em 2018 e, curiosamente, já abordava a questão das máscaras, sejam físicas ou subjetivas, que têm o poder de esconder ou de revelar. “Mask” tem um grande apelo feminino, unindo dança afro, música e dramaturgia. A ancestralidade africana está no centro da cena — diz a bailarina, que dividiu o palco do teatro Cacilda Becker, onde o espetáculo foi gravado, com Gik Alves, Ivana D'Rosevita e Leticia Bento.

Jogar luz sobre a cultura negra enquanto artista é fundamental para Débora.

— Sou preta, portanto o meu corpo é político. Eu tenho a obrigação de lutar para que a dança afro não seja vista como uma manifestação exótica, menor. As tradições dos meus ancestrais são sempre desvalorizadas, colocadas em segundo planos, por isso é preciso lutar diariamente por representatividade. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas, em comparação com a minha infância, em que eram raras as meninas negras em aulas de balé, já se vê algum avanço. Mas ainda é pouco — observa.

Preparadora corporal dos grupos Palavra Cantada e Cine em Canto, Débora enxerga o exercício da sua arte como um ato de coragem e resistência.

— Fiquei muito tempo conciliando as duas profissões, mas, durante a pandemia, senti que era o momento de romper com a chamada zona de conforto. A verdade é que nunca me senti totalmente realizada como professora de educação física, embora seja grata por ter tirado desta profissão o meu sustento por tantos anos. Mas chega uma hora em que é preciso buscar o que nos move. A dança alimenta o meu corpo e me dá voz para combater o racismo — analisa uma das estrelas do espetáculo “Mask”, contemplado pela Lei Aldir Blanc em benefício à cultura.

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