Massa de ar gelado se espalha pelo país e derruba temperaturas em pleno novembro

A onda de frio que marcou o início de novembro e começa agora a ser substituída por um período de fortes chuvas no Sudeste foi causada por alteração no sistema conhecido como Oscilação Antártica (AOO) ou Modo Anular Sul, que regula a entrada de frentes frias e massas de ar polar na América do Sul e a formação de ciclones na região. Comum no inverno, mas rara durante a primavera, a entrada da massa de ar gelado surpreendeu os meteorologistas não só pela época do ano, mas pela proporção e alcance no continente, chegando ao sul da Amazônia.

Segundo levantamento da meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, São Paulo registrou no último dia 4 a menor temperatura para um dia de novembro em 48 anos, de 9,4ºC. Um dia antes, Belo Horizonte havia registrado a menor temperatura máxima para novembro em 34 anos e a terceira mais baixa para o mês desde 1961, com 17,9ºC. No Rio, os termômetros registraram máxima de 20,9ºC no último dia 2, a menor máxima em novembro desde 2007.

– É uma situação atípica. Nunca tivemos registro de avanço de ar polar tão acentuado e abrangente nesta época do ano – afirma Cleverson Henrique Freitas, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

A meteorologista Estael Sias, da MetSul, explica que o Modo Anular Sul, que oscila entre negativo e positivo, mede a intensidade do cinturão de ventos que impede o avanço das massas de ar polar na América do Sul. Quando o índice está negativo, essa corrente de ventos enfraquece, facilitando a formação e o avanço de frentes frias e massa de ar polar. Segundo ela, no dia 1º de novembro o índice ficou negativo em 2,8, quase a mesma escala registrada em 15 de junho, no inverno, de -3.

Estael acredita que o frio foi potencializado também pela influência do La Niña, que é o resfriamento das águas superficiais do Oceano Pacífico. Ela lembra que esta é a terceira primavera consecutiva sob a influência do La Niña, que costuma provocar ondas de frio e geadas tardias.

Em outubro passado, segundo boletim da MetSul, a temperatura do mar na altura da costa do Peru e do Equador ficou 2º abaixo da média, de acordo com as medições da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos – um resfriamento intenso que não se via há 15 anos.

Em SC, neve pela primeira vez em novembro

No dia 2 de novembro, pela primeira vez, Santa Catarina registrou neve num mês de novembro na região do Morro da Igreja, que integra o Parque Nacional de São Joaquim, na região da serra. A sensação térmica na região chegou a -20°C. Temperaturas negativas e abaixo de 5 graus foram registradas em várias cidades do Sul do país.

O meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, da MetSul, com 40 anos de experiência em previsão do tempo, chegou a afirmar que esse era o tipo de prognóstico que jamais imaginou fazer – o de possibilidade de nevar em novembro na região.

Apesar de raro nesta época do ano, o frio não desagradou os paulistanos.

Na Avenida Paulista, em São Paulo, a estudante de fonoaudiologia Tânia Alves fez uma parada para tomar um tradicional café com leite em uma banca de rua para combater o clima gelado. Ela diz que não ficou surpresa com o frio e nem chegou a guardar os casacos de inverno

— Eu gosto mais de frio, me traz bem-estar no sentido de ficar mais ativa – diz ela.

De calça jeans, camiseta e jaqueta térmica, o autônomo Bryan Oliveira conta que nunca tira uma roupa de frio e um gorro da mochila. Ele trabalha em várias regiões da cidade e diz que na capital paulista é sempre necessário estar preparado para as mudanças no tempo.

— Isso aqui é o básico, geralmente estou de boné, mais agasalhado. De manhã e à noite são as temperaturas mais frias que tem. Para mim é bem confortável, já que eu sempre tive o costume de usar blusa e eu não suporto calor.

Os termômetros mostram que, mesmo para quem está acostumado com o frio e com oscilação de temperatura, o tempo bateu recordes de décadas. Em Curitiba, por exemplo, a temperatura máxima registrada no dia 2 de novembro foi a menor para o mês desde 1962.

Nas capitais mais quentes, a friagem surpreendeu. Goiânia, no Centro-Oeste, teve a menor temperatura mínima para novembro em 28 anos, de 15,5ºC. Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, teve a menor temperatura em novembro desde 1965, de 9,8ºC no dia 1º de novembro.

Rio Branco, no Acre, registrou a menor temperatura para novembro desde 1999, com mínima de 14,1°C no primeiro dia deste mês.

-- O vento frio chegou até Boa Vista, passou a linha do Equador -- lembra Josélia, da Climatempo.

Em Rio Branco, a temperatura mínima no início deste mês caiu para 14,1ºC, marca que costuma ser registrada apenas durante o inverno.

Segundo Josélia, depois do frio intenso do começo do mês, a segunda metade de novembro deve ser marcada por chuvas acima da média no Sudeste, principalmente Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, e temperaturas ficarão ligeiramente abaixo da média.

-- No Sudeste, terminou o frio e vem a chuva -- diz ela.

No Sul do país, a previsão é que novembro termine com temperaturas acima da média.

Para o início do verão, segundo o Inmet, a expectativa é que as temperaturas fiquem dentro da média, com menor ocorrência de ondas extremas de calor. Na região Sul, as chuvas deverão ficar abaixo da média.