Massacres nos EUA deveriam provocar discussão profunda sobre farra do acesso a armas

People react outside the Ssgt Willie de Leon Civic Center, where students had been transported from Robb Elementary School after a shooting, in Uvalde, Texas, U.S. May 24, 2022.  REUTERS/Marco Bello     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: Marco Bello/Reuters

Uma campanha do governo federal afirma que todos os brasileiros têm o direito de assumir a responsabilidade de defender a si ou a terceiros. Sob o argumento de que não poderia impedir o “cidadão de bem” de salvar vidas, a atual administração defende a facilitação do acesso a armas com o intuito de garantir o direito sagrado da legítima defesa.

Em uma escola do Texas (EUA), 20 famílias foram destroçadas, sem direito a defesa, na terça-feira (24/5) depois que um atirador invadiu uma escola no Texas e matou 19 crianças e uma professora.

Foi o ataque mais mortal no país desde o massacre em Sandy Hook, em Connecticut, que em 2012 deixou 26 pessoas mortas – a maioria crianças entre 6 e 7 anos.

O assassino tinha 18 anos e já tinha compartilhado diversas vezes em suas redes o seu desejo de comprar fuzis automáticos, capazes de disparar rajadas de tiros, assim que completasse a maioridade. No Texas é possível adquirir armas do tipo a partir de 18 anos.

Ele circulou livremente com seus objetos de desejo mesmo tendo postado em seu Facebook que ele planejava:

- atirar na própria avó;

- atacar uma escola primária.

Foi exatamente o que ele fez. O cliente, afinal, tem sempre razão e não deve ser contrariado.

O massacre aconteceu poucos dias após outras 10 pessoas serem assassinadas a tiros em um supermercado em Buffalo, no estado de Nova York.

Tanto em um caso como no outro, especialistas tentam traçar o perfil dos assassinos para entender as “razões” (sic) do ato extremo. Um deles agiu para sublimar o bullying que sofria na escola. Outro tinha motivação racista. Sua ideia era alvejar o maior número de pessoas negras possível para evitar que pessoas brancas, como ele, fossem “substituídas” em seu país.

Ideias estúpidas do tipo circulam aos montes e alimentam o ódio e o ressentimento de quem as consome.

A pergunta fundamental é uma só: como pessoas do tipo conseguiram ter acesso a armas do tipo? A resposta está passa pela venda indiscriminada do produto, endossada por um discurso ideológico metralhado.

Gênios da falsa equivalência sempre aparecem nessas horas para dizer que facas de cortar pão também são usadas muitas vezes para outros fins e nem por isso são vendidas sob controle, como se uma arma tivesse o mesmo alcance de uma lâmina cortante ou outra função a não ser alvejar alguém. Eu pelo menos nunca vi alguém cortar pão com fuzil.

Casos de assassinato em massa têm crescido no país que transformou o acesso a arma em sinônimo de status e autodefesa –uma falácia atestada pelo luto das famílias das vítimas das carnificinas.

Os EUA registraram 34 ataques em escolas em 2021, um recorde.

“Quando é que vamos nos opor ao lobby das armas?”, perguntou o presidente Joe Biden após o último massacre.

Ele mesmo poderia responder, já que em tese é o homem mais poderoso do Planeta.

Os episódios nos EUA deveriam provocar por aqui discussões profundas a respeito. O Brasil, afinal, triplicou o número de registros de armas em três anos –a propaganda oficial omite que uma das ações do governo tinha o intuito justamente de dificultar o seu rastreamento.

Dias atrás, uma ação da polícia deixou um saldo de 25 mortos na Vila Cruzeiro, no Rio. A apreensão de 13 fuzis foi usada como justificativa para a matança. Faltou esclarecer como as armas foram parar lá.

Ao arrepio das evidências, o atual governo tenta vender a ideia de que a leve queda de homicídios no país se deve ao maior acesso a armas por pessoas como eu ou você. A razão, porém, é bem mais complexa, e envolvem fatores como armistício entre facções rivais, controle e monitoramento do governo sobre criminosos, a adoção, pelos estados, de programas de redução de homicídios, a criação, em 2018, de um Sistema Único de Segurança Pública e até mudanças demográficas –a redução de número de jovens, maioria das pessoas envolvidas em ações violentas, na população explica também a redução de homicídios ao longo do tempo.

Nem aqui nem nos EUA e nem na China existem quaisquer evidências de que o acesso a armas por qualquer pessoa, inclusive gente perturbada pela própria ideia de destruição, ajuda na contenção da violência. Pelo contrário, ela tende a se replicar nas brigas de trânsito, nas saídas da balada e no feminicídio dentro de casa. Uma pessoa mal intencionada sem arma é só uma pessoa mal intencionada. Uma pessoa mal intencionada com um fuzil é um perigo para qualquer um que estiver em seu campo de visão.

Que Deus proteja as crianças das escolas dos cidadãos de bem e bem armados –já que as autoridades que deveriam impedir massacres do tipo se mostram incapazes de fazê-lo.

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