Matheus Abreu treina até sete horas por dia para viver Thiago Soares no cinema e diz que ouviu 'piadinhas' por fazer balé

Prestes a viver o bailarino Thiago Soares no filme "Coreografia da vida", Matheus Abreu encara uma rotina de atleta. Além das aulas de dança, faz exercícios do método Gyrotonic, voltado para ganho de condicionamento físico, flexibilidade e consciência corporal. O ator conta que chega a passar sete horas por dia envolvido com a preparação. As filmagens, com direção de Marcos Schechtman e Helena Varvaki, começarão em janeiro:

— Estou nesse projeto desde 2018. Comecei as primeiras aulas de balé com o Manoel Francisco no Rio (bailarino e coreógrafo responsável pela preparação de dança do longa e grande amigo de Soares). Aí tive que voltar para Minas (sua terra natal) e continuei com a Danielle Ramalho. Por razões de atrasos na Ancine, o filme foi adiado e não consegui manter essa preparação. Fazia aulas uns meses e parava. Até que, em maio deste ano, retomei, já com data para filmar. Foi uma preparação muito intensa em Belo Horizonte. De segunda a quinta fazia Gyrotonic e às vezes duas aulas de balé por dia. Depois ainda comecei o breakdance, porque o Thiago iniciou no hip hop e depois foi para o balé. Agora em novembro fui para o Rio, para algo mais intenso ainda, porque passei a ter também a preparação para atuação com a Helena Varvaki e voltei a trabalhar com Manoel Francisco, fazendo aulas na Escola Estadual Maria Olenewa (num prédio anexo do Theatro Municipal).

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Segundo Abreu, os dois primeiros meses de preparação foram os mais complicados:

— O balé é muito intenso fisicamente. É uma atividade totalmente antianatômica. Estamos acostumados a andar com os pés para frente. O balé pede que você realmente mude o jeito natural de o corpo se comportar. O corpo demorou a se acostumar com essa intensidade. Depois, comecei a aprender melhor, consegui conciliar o que minha cabeça tentava fazer com o que o corpo conseguia produzir. É uma atividade que exige muita força, alongamento e flexibilidade, mas tudo isso com leveza.

O longa vai mostrar a relação de Soares com o coreógrafo cubano Dino Carreira, que foi seu grande tutor. Criado em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, ele passou a integrar o corpo de baile do Municipal aos 17 anos. Depois, conquistou o ouro no Concurso Internacional do Ballet Bolshoi, na Rússia. Mais adiante, recebeu o convite para o Royal Ballet de Londres, onde, em 2006, seria promovido a primeiro bailarino. Essa trajetória chama a atenção de Abreu:

— Fiz o teste no final de 2017. Ele assistiu, estava na banca avaliadora. Não o conhecia pessoalmente até então. Trocamos umas ideias na época. Eu ficava muito curioso para ouvi-lo. Sempre que encontrava, a gente conversava muito. Temos uma relação gostosa, de companheirismo mesmo. Busquei entender como ele é hoje e como era mais novo, como os acontecimentos da vida foram moldando tudo. O balé não é tão popular no Brasil, tanto no sentido da popularidade mesmo, quanto de ser acessível. Então, me impressionou o fato de um menino do subúrbio carioca, num país subdesenvolvido, ter conseguido alçar um voo tão bonito na carreira. As pessoas acreditavam no potencial dele. Só empenho, força de vontade e dedicação são capazes de fazer alguém alçar um voo tão grande assim. Apenas talento não leva ninguém a lugar algum. Sendo brasileiro, talvez eu consiga imaginar todo o esforço que ele teve que fazer.

Em entrevistas, Soares já declarou que ouvia piadas na escola por causa do balé. Abreu relata que passou por situação semelhante:

— Quando eu contava para alguém que ia fazer balé para o personagem, ouvia piadinhas, sempre voltadas para a homossexualidade. Eu particularmente não sofri preconceito, mas você percebe as ideias por trás das piadinhas. Às vezes, numa roda de amigos, alguém fala alguma coisa, mas logo outra pessoa chama a atenção: "O que você tá falando? O que tem a ver?". Isso foi legal. É importante a gente começar a quebrar algum tipo de preconceito. Durante anos viemos abrindo alguns diálogos, conseguindo trocar ideias de maneira mais natural, mas, nos últimos tempos, isso foi dificultado. Esse diálogo voltou a ser mais complicado.