Matteo e Giorgia, apenas uma vaga para dois na extrema-direita italiana

Por vários anos considerado o homem forte do nacionalismo na Itália, Matteo Salvini é superado nas pesquisas para as eleições do próximo domingo (25) por sua adversária dentro da coalizão de direita, Giorgia Meloni, que provavelmente vai conquistar o posto de chefe de Governo caso as urnas confirmem o que antecipam as pesquisas.

De acordo com as últimas pesquisas que podem ser divulgadas, o partido pós-fascista de Meloni, Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), deve conquistar 24% dos votos, o dobro do previsto para a Liga de Salvini.

Um resultado que permite a Meloni aspirar o cargo de primeira-ministra e também a liderar a coalizão de direita, que também inclui o 'Forza Italia' (direita liberal) do ex-premiê Silvio Berlusconi.

Para Salvini, que recebeu 17% dos votos nas eleições legislativas de 2018 e 34% nas eleições europeias do ano seguinte, o gosto será amargo.

Os dois líderes devem chegar a um entendimento, mas muitas pessoas questionam se Salvini conseguirá evitar confrontos sobre temas delicados, como a guerra na Ucrânia, que provoca divergências entre ambos.

- Arrogância -

Conhecido por suas críticas agressivas à União Europeia (UE), Salvini, de 49 anos, tenta seguir com a estratégia que permitiu seu crescimento nas pesquisas em 2020, apresentando-se com uma cruz no pescoço, dando entrevistas ao lado de imagens religiosas, para cultivar a imagem de homem do povo.

Ele também conseguiu transformar seu partido outrora separatista, conhecido como Liga do Norte, em uma formação nacionalista, contrária à "invasão" de milhares de imigrantes.

Nos últimos anos ele foi ofuscado por Meloni, que compartilha seu euroceticismo e o mesmo discurso a favor dos "italianos em primeiro lugar".

Apesar de seu passado neofascista, a política de 45 anos convence os eleitores como a mãe que defende suas raízes cristãs.

"Salvini cometeu erros graves, que prejudicaram sua imagem", declarou à AFP Lorenzo De Sio, professor de Ciências Políticas da Universidade Luiss de Roma.

Sua "arrogância" ao tentar derrubar o governo de coalizão em 2019, com a esperança de forçar novas eleições depois de sua grande vitória nas eleições europeias, o deixou na oposição,

Há algum tempo, analistas calculam uma queda proporcional ao avanço registrado pelo Fratelli d'Italia, partido com o qual disputa o espaço da extrema-direita.

Um fator crucial para o avanço de Meloni foi ter permanecido fora da coalizão nacional liderada pelo primeiro-ministro Mario Draghi, formada em fevereiro de 2021, o que permitiu seduzir os descontentes.

- Fissuras na aliança -

As divergências entre os dois partidos são grandes. Enquanto Meloni apoiou as sanções contra Rússia após a invasão da Ucrânia, Salvini, próximo ao presidente russo Vladimir Putin, criticou as medidas, alegando que afetam mais a Europa que a Rússia porque provocam o aumento dos preços.

O líder da Liga propôs um fundo especial para as famílias e as empresas para mitigar os custos elevados da energia elétrica e do gás. Meloni defende uma política orçamentária responsável e não aumentar a dívida pública.

As disputas - com Berlusconi no papel de mediador ao representar com quase 8% uma força pró-Europa, moderada e conservadora - devem aumentar de acordo com resultado das eleições.

"Salvini e Silvio Berlusconi serão sócios difíceis, desesperados por recuperar a visibilidade depois da (provável) derrota no dia das eleições, destacando as diferenças políticas", prevê Wolfango Piccoli, da consultoria Teneo.

"Prevalecerá uma abordagem pragmática, na qual cada um vai manter sua posição dentro do governo, com todas as vantagens derivadas", afirma De Sio.

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