Maurício Demétrio: MP apura se outros policiais estão envolvidos no esquema criminoso do delegado

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RIO - A análise de nove celulares apreendidos com o delegado de Polícia Civil Maurício Demétrio Afonso Alves, preso desde junho acusado de liderar uma organização criminosa que usava da instituição para extorquir, chantagear e fazer dossiês contra desafetos, poderá trazer à tona uma trama ainda maior envolvendo outros agentes da Civil em corrupções. Na denúncia que embasou um novo pedido de prisão do agente, os promotores afirmaram que “há outros integrantes da organização criminosa que ainda estão livres e atuando como policiais”. Até agora, três aparelhos já foram periciados. O MP apura se outros policiais civis estão envolvidos no esquema criminoso.

Enquanto isso, a investigação paralela da Corregedoria Interna da instituição contra o delegado ainda não teve nenhum resultado. O advogado de Demétrio, Raphael Mattos, acredita que seu cliente “esteja sendo vítima de uma perseguição de cunho pessoal por parte de um promotor, que Demétrio denunciou no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP)” e diz que seu cliente deverá ser solto.

De acordo com os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Demétrio “tem estreita ligação com diversas autoridades, em especial colegas da Polícia Civil, e que a totalidade dos contornos da súcia ainda não foram desvelados”, diz trecho da denúncia. Ainda de acordo com o MP, “por certo há outros integrantes da organização que ainda estão livres e atuando”.

Na nova prisão preventiva, que foi cumprida na quarta-feira da semana passada contra Demétrio e o policial civil Adriano Santiago da Rosa, lotado na Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), a promotoria destacou que o grupo liderado por Demétrio usou da especializada, “em especial seu setor de inteligência, em instrumento para a prática de delitos, inclusive contra autoridades do judiciário, Ministério Público e da própria Polícia Civil, mesmo sabendo que ao menos parte das pesquisas ilegais realizadas ficariam no sistema”. Os promotores chamaram essa atitude do delegado de “ousadia e destemor” com possíveis investigações contra o bando.

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Após ser preso, segundo o MP, Adriano Santigado teria admitido que a pedido do delegado ele fez várias consultas ilegais aos bancos de dados da instituição. O objetivo era saber se existia alguma investigação contra ele e seus liderados. Em uma delas, segundo o policial civil, Demétrio teria pedido que ele fizesse uma lista com os nomes de todos os servidores da DRCPIM e seus respectivos números de telefone.
Aos promotores, Adriano disse que acreditava que o objetivo do pedido do delegado era para “verificar se algum contato estava sendo interceptado”. A pesquisa teria sido feita nos bancos de dados da Polícia Civil, inclusive no ‘guardião’ – o sistema de grampos telefônicos da instituição.
Todas essas denúncias estão em posse da Corregedoria Interna da Polícia Civil. Caberá ao órgão investigar todas as acusações contra Demétrio.
A defesa de Demétrio rechaça as denúncias do MP e afirma que “em nenhum momento ele foi chamado para falar dessas questões” e que “todas as denúncias têm esclarecimentos”. No último dia 20 de dezembro os advogados de Demétrio, que está preso em Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, conhecido como Bangu 8, tentou um Habeas Corpus. No entanto, o juiz Bruno Monteiro Rulière, da 1ª Vara Criminal Especializada do Tribunal de Justiçado Rio, negou o pedido de relaxamento de prisão.
–Eles (do MP) se viraram de costa para o doutor Demétrio e fizeram uma análise unilateral do material apreendido na casa dele. Além disso, ele ainda não teve oportunidade de falar em juízo. Os promotores também nunca chamaram nem ele e nem outras pessoas do inquérito para prestarem depoimento. O que está acontecendo é um novo pedido de prisão de um processo que já existe e que não tinha necessidade de se alongar por seis meses. Essa é uma estratégia do MP – conta o advogado Raphael Mattos.
Questionado sobe uma suposta delação premiada do seu cliente, Mattos afirmou que os promotores tentam insistentemente. No entanto, ele desconhece que seu cliente aceitará a proposta.

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Por meio do conteúdo dos celulares apreendidos e das buscas e apreensões, os promotores descobriram outras tentativas de extorsão e chantagens que teriam sido cometidas pela quadrilha. Na nova fase, constataram que Demétrio, utilizando-se de policiais, inclusive Adriano da Rosa, fazia uso abusivo dos sistemas de consulta da Polícia Civil. Entre as vítimas, segundo a reportagem, estão o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio Luiz Zveiter e sua mulher, Gabriela Brito Zveiter, assim como Glauco Costa Santana, filho da promotora Gláucia Santana, atual chefe de gabinete do procurador-geral de Justiça do Rio, o promotor Luciano Oliveira Mattos de Souza, também deve dados levantados.
– O (Luiz) Zveiter não é desafeto do Demétrio. O que ele me explicou é que houve uma denúncia na DRCPIM de que um possível parente do desembargador estava vendo produtos piratas. Ele fala de uma filha. A partir daí, ele pediu para saber se a pessoa era de fato filha do magistrado. Ele só queria saber se a pessoa tinha algum parentesco com o Zveiter. Já sobre o (Eduardo) Paes, ele falou que não era para atrapalhar as investigações. Ele me disse que recebeu uma denúncia de que ele receberia um valor. O Demétrio só repassou a denúncia para um delegado da Polícia Federal para que ele fizesse o que era cabível.
Às vésperas do segundo turno, Demétrio, por intermédio do advogado Thalles Wildhagen Camargo, fez chegar ao conhecimento do delegado da Polícia Federal Victor Cesar Carvalho dos Santos a notícia de que, no dia seguinte, um portador entregaria a Paes dinheiro de origem desconhecida. Nas mensagens, Demétrio mandou uma foto do suposto envelope que seria entregue, com notas de R$ 50 e R$ 100. Os promotores descobriram que foi o próprio delegado que tirou a foto de um dos seus 12 celulares. Em depoimento, Santos diz que desistiu da operação ao saber quem era a fonte.
A defesa de Demétrio disse que ele recebeu uma denúncia “de que ele (Paes) receberia um valor (de propina) e que apenas repassou a denúncia à Polícia Federal.
– Sobre o (Eduardo) Paes, ele falou que não era para atrapalhar as investigações. Ele me disse que recebeu uma denúncia de que ele receberia um valor. O Demétrio só repassou a denúncia para um delegado da Polícia Federal para que ele fizesse o que era cabível – disse o advogado Raphael Mattos que defende o policial civil.
Em nota, a Polícia Civil informou que “a Corregedoria da Polícia Civil já demitiu 19 servidores desde o início desta gestão, número superior ao de todas as demissões de 2019 e 2020 somadas. Quanto ao delegado Maurício Demétrio, está afastado de suas funções por ordem judicial, recebendo parte do salário, cumprindo a legislação em vigor”.
Ainda segundo o comunicado, “sobre prazos do Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) contra o delegado Maurício Demétrio, a Corregedoria esclarece que todos os processos estão sendo observados e cumpridos dentro do rito e prazos legais. Vale destacar que os fatos investigados pelo MP ocorreram antes da gestão atual da Polícia Civil”.

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