Maurício Moura: a eleição dos ressentidos, a batalha das rejeições e suas consequências

O lendário político Doutor Ulysses Guimarães, líder do MDB nas Diretas Já e na Assembleia Constituinte, pregava que “não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira”. E o que diria, se vivo, o Doutor Ulysses sobre o estado de espirito do eleitor brasileiro de 2022? As evidencias apontam para um pleito eleitoral que fará com que a maioria dos brasileiros vá votar mais com o fígado do que com o coração. Esse sentimento de má “digestão” é resultado do acúmulo de ressentimentos estabelecidos na opinião pública alinhado com uma disputa pautada em uma batalha de rejeições.

Quaest: Vantagem de Lula sobre Bolsonaro cai em estados-chave

Pesquisas fake: Ano eleitoral expõe boom de distorção de pesquisas eleitorais

Em 2018 escrevi um livro cujo título é “A Eleição Disruptiva: Por que Bolsonaro venceu”. Como pesquisador acreditava que aquela tinha sido a eleição dos eleitores indignados. Havia uma indignação monumental com a classe política brasileira e votar com o “pé na porta” foi uma expressão que escutei muito em grupos focais daquele ano. Essa propulsão de raiva coletiva se refletiu no resultado das urnas em todas as instâncias de poder.

As consequências de votar com o fígado

Em 2022, o sentimento mudou em função das duas opções mais latentes ofertadas pela política: o atual presidente, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Excluindo as bases “dura” de apoio de ambos (que sustentam esse quadro eleitoral e inviabilizam uma alternativa viável), a maioria dos eleitores brasileiros não está feliz em votar ou em Bolsonaro ou em Lula. Expressões como “chateados com eleição”, “desanimados com as alternativas”, “falta de opção animadora”, “medo de o outro vencer” e “ressentidos com a política” pipocam nos nossos estudos quantitativos e qualitativos.

As evidências apontam que aproximadamente 30 pontos percentuais de intenção de voto estimulada (do primeiro turno) de ambos são oriundos de eleitores que basicamente devem fazer uma escolha para evitar a vitória do outro. O raciocínio de votar no “menos pior” usualmente utilizado no segundo turno está sendo antecipado em 2022. A diferença é que Lula, nos dias de hoje, depende somente dos votos que rejeitam o governo Bolsonaro para voltar ao Planalto. Já o presidente tem o desafio de ir além do antipetismo para vencer.

Esse quadro tem algumas consequências de curto, médio e longo prazo na dinâmica da opinião pública. No curto prazo inviabiliza o crescimento de outra candidatura que seja competitiva e tal já está amplamente incorporado nos resultados de pesquisa de opinião. A distância entre o segundo e terceiro colocado nas pesquisas é imensa e praticamente intransponível. No médio prazo, é uma ilusão de ótica avaliar essa disputa somente com os resultados de intenção de voto de correntes. A real dimensão da disputa reside no pleno entendimento das rejeições do PT/Lula e do atual governo de Jair Bolsonaro. Afinal, vivemos uma batalha antecipada de rejeições.

As nossas mensurações apontam para uma diferença de rejeições de cinco pontos percentuais e não nos dois dígitos que as respostas de intenção de voto mostram atualmente. O antipetismo tem sempre se materializado e se acomodado em um candidato na reta final do primeiro turno. Isso ocorreu com os resultados de Geraldo Alckmin em 2006, Aécio Neves em 2014 e Jair Bolsonaro em 2018. Podem esperar o mesmo movimento em 2022. Ou seja, teremos uma eleição mais apertada. Talvez, inclusive, muito apertada.

Por último, a consequência de votar com fígado em um ambiente de rejeições é ter um governo que já começa mal avaliado. Isso ocorreu em inúmeros em países das Américas transformando vencedores de “batalhas de rejeições” que viraram, rapidamente, presidentes rejeitados. Vejam os casos de Gabriel Boric (Chile), Joe Biden (EUA) e Pedro Castillo (Peru). Adaptando a frase do Ulysses Guimaraes: “O voto com fígado, rancor e ressentimentos deixa, na prática, a popularidade e os eleitos na geladeira” .

*CEO e fundador do Instituto de Pesquisa IDEIA e professor visitante na George Washington University

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos