Marcas e equipes têm toda razão em não querer se associar a gente como Maurício

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Tokyo 2020 Olympics - Volleyball - Men's Quarterfinal - Japan v Brazil - Ariake Arena, Tokyo, Japan - August 3, 2021. Mauricio Souza of Brazil looks on during the match. REUTERS/Valentyn Ogirenko
Maurício Souza, durante partida das Olimpíadas de Tóqui. Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters

Maurício Souza, (agora) ex-jogador de vôlei do Minas Tênis Clube e da seleção brasileira, usou suas redes sociais para manifestar seu repúdio com a revelação da DC Comics de que o novo Superman, Joe Kent, é bissexual. “Ah, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”, escreveu, há algumas semanas.

Quem já conhecia os posicionamentos do atleta, bolsonarista apaixonado, não se decepcionou.

Ainda assim a postagem surpreendeu.

Afinal, ficou subentendido ali o climão com ao menos um colega de seleção, Douglas Souza, assumidamente gay.

A postagem de Maurício deixava claro que ele considerava a sexualidade do colega “algo” demais. E que, com pessoas como Douglas —na seleção ou nas HQs— o mundo estaria perdido.

Não cabe aqui explicar por que a postagem é ofensiva.

Há gente com mais repertório e lugar de fala para explicar qual o perigo em associar a homossexualidade a um desvio da normalidade. Como se fosse o alvo fosse uma “aberração”. (Se você nunca pensou nisso, tente imaginar, só por cinco minutos, como seria andar nas ruas sendo observado e tratado como “aberração”, inclusive por seus colegas de trabalho, durante toda a sua vida).

Douglas não deixou barato e repudiou a fala homofóbica do colega de seleção. (em tempo: nem tudo hoje em dia é homofobia, diferentemente do que afirmou Jair Bolsonaro ao sair em defesa de seu tiéte. Só o que é homofobia mesmo).

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“Eu não ‘virei’ heterossexual vendo os super-heróis homens beijando mulheres”, escreveu Douglas em uma postagem, escancarando por que a “preocupação” do outro atleta não fazia qualquer sentido a não ser alimentar preconceitos.

Maurício voltou ao ataque. “Hoje em dia o certo é errado, e o errado é certo. Não se depender de mim, eu fico com o que acho certo. Fico com minhas crenças, valores e ideais”.

As crenças, os valores e os ideais de Maurício apontam que ser “certo” é ser como ele. O companheiro é que é “errado”. Faltou chamar Douglas e quem mais estiver ao alcance da sua revolta de “aberração”.

Diante da ofensa, dois grandes patrocinadores do Minas Tênis Clube repudiaram as declarações de Maurício e pediram providências. No meio do tiroteio, o clube decidiu se posicionar, afastando o jogador homofóbico. Em seguida, ele teve o contrato rescindido. No mesmo dia, o técnico da seleção brasileira de vôlei, Renan dal Zotto, fechou as portas para Maurício. “Não tem espaço para profissionais homofóbicos”, declarou.

Dali em diante o que aconteceu foi um grande nó para quem não consegue entender o peso e as responsabilidades embutidas nas palavras.

Acuado, Maurício até pediu desculpas, mas não disse para quem nem por quê —citou apenas genericamente os que “se sentiram ofendidos”, como se os amigos do lado “errado” da normatividade também tivessem déficit intelectual ou alguma dificuldade intrínseca em entender gestos e palavras. Ou, pior ainda, em aceitar as divergências.

Aos adeptos da falsa simetria, é preciso lembrar que, justamente por conta de pessoas como Maurício é que pessoas como Douglas apanham por ser quem eles são. Ou são obrigadas a conter os próprios afetos para não sofrer qualquer tipo de violência —em casa, na escola, no trabalho, e, público.

Pois é, não são direitos iguais, embora todos sejam livres para dizer o que pensam.

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal equiparou a homofobia ao crime de racismo até que o Congresso formule uma lei específica para punir esse tipo de discriminação. Um ataque do tipo é, antes de tudo, moralmente inaceitável —ao menos para quem entendeu a importância da diversidade em um mundo como o atual.

Talvez Maurício não saiba, mas pessoas homossexuais compram casas, assistem TV, vão a jogos de vôlei, leem HQs.

A exposição do preconceito, além de moralmente inaceitável, é também estúpida. Afasta público. Mancha imagens de quem se associa ao ofensor. Gera prejuízos —e é uma pena ser preciso evocar aqui uma lei de mercado para constranger o que deveria ser regulado pela noção de respeito, dignidade e justiça.

A visão de Maurício não alcança tudo isso.

Como os colegas unidos pelo ódio, bolsonaristas como ele ou não, é provável que ele tenha compreendido o gancho como um atentado à sua liberdade. Como se o perseguido da história fosse ele.

O raciocínio, de novo, não alcança a segunda página do gibi. Apesar de todas as consequências (não para a sua segurança de andar na rua com quem ele ama em paz), Maurício de fato é livre para dizer o que pensa. Como outras pessoas, inclusive colegas de trabalho, têm a liberdade de endossar ou refutar seus posicionamentos. E o clube, uma entidade privada, tem o direito de não querer associar seu nome a gente estulta como ele. Livre mercado, lembra?

Talvez Maurício e os colegas que se rebelaram por ele se sintam melhor em algum clube que dispute alguma liga dos trogloditas assumidos. Boa sorte para quem patrocinar o empreendimento.

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