De MC Niack a Menor Nico: artistas hit no TikTok contam como enriqueceram e mudaram de vida

Leonardo Ribeiro
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É difícil cravar que exista uma fórmula para uma música bombar no TikTok — o famoso aplicativo de vídeos curtos, de 15 a 60 segundos, lançado em 2016, e que ganhou força no Brasil este ano. Mas é fácil encontrar os grandes donos desses hits na nova plataforma-sensação (veja seis deles que tiveram a vida mudada nesta página). Todos estão lá, criando coreografias, investindo em um refrão chiclete ou envolvendo o público em desafios. Uma mudança e tanto para a indústria fonográfica.

— Este aplicativo impactou a forma de fazer música. Nesse momento, de pandemia, que estamos todos em casa, tornou-se um jeito de ficar próximo do artista ou de um amigo por fazermos as mesmas brincadeiras, os desafios... Buscar o humor e a interação são caminhos — analisa Pablo Bispo, produtor musical e criador da Inbraza, selo pop da Som Livre.

O TikTok torna uma música viral quando várias pessoas a adicionam nos próprios conteúdos. Como o aplicativo só permite vídeos curtos, um novo fenômeno surge: os usuários buscam as plataformas de streaming para ouvirem as versões completas.

— Um vídeo gerou remakes de “Dreams”, da Fleetwood Mac, e ela voltou a ganhar destaque depois de 43 anos e atingiu o top 10 das plataformas de streaming. Há também o exemplo de “Oh, Juliana”, de MC Niack, que já chegou ao topo das paradas duas vezes — diz Roberta Guimarães, diretora de conteúdo musical do TikTok no Brasil.

Mas não adianta buscar apenas o sucesso se não tiver personalidade ali.

— Temos vários que estouraram com uma música e não se sustentaram. Porque não se estabeleceram como artistas. É preciso dar o melhor de si, ficar confortável e feliz com o que lançou e fazer algo verdadeiro para você. Não dá para ser só pela modinha — diz Bispo.

Hit do carnaval

“Tudo ok”, de Thiaguinho MT, Mila e JS Mão de Ouro, foi até hit do carnaval. Vai dizer que você não dançou “cabelo? Ok. Sobrancelha? Ok”? “O TikTok estava em ascensão e pensei em fazer uma música com coreografia. Fiquei realizado ao vê-la viralizando”, diz Thiaguinho, o compositor. De Araruama, o cantor, de 28 anos, trocou o Rio de Janeiro por São Paulo para investir na carreira. “Fico mais perto da produtora, consigo fazer as coisas acontecerem mais rápido e gosto muito do frio daqui. Me adaptei bem”. O esforço tem valido a pena: “Graças a Deus, posso comprar o que quiser, ajudo a minha família. Vivo só da minha arte”. E já conseguiu preencher o coração? “Continuo brotando nos bailões (risos)”.

'Depressão nunca mais'

MC Niack, de 18 anos, tinha depressão quando começou a compor. “A música me ajudou a voltar a ser extrovertido”. Pela batida envolvente, viu a sua “Na raba toma tapão” virar trilha sonora de tutorial de make. “Estranhei, porque a letra não tem a ver com isso (risos). Passei a estudar a plataforma”. Foi para o topo das paradas, desbancou Anitta e MC Zaac ao lançar mais um hit, “Oh, Juliana”. “Saí da pobreza só com dinheiro da internet. Imagina se estivesse fazendo show?”.

Mais jovem no topo

Na reta final do ano, uma grande dúvida ficou: “Amor ou litrão”? E o refrão (“Ou eu, ou a cachaça, se decide, bebê”) cantado com a voz estridente de Menor Nico, de 12 anos, é quem tem embalado dancinhas no aplicativo. Natural de Antônio Cardoso, interior da Bahia, o cantor se tornou o artista mais jovem a ficar em primeiro lugar no ranking semanal das mais ouvidas do Spotify. Com os frutos da carreira, o garoto mostrou, na web, que está construindo uma casa nova para a família. “Grande passo na minha vida”, disse.

Brincadeira adolescente

No ensino médio, Angel, de 16 anos, aproveitou o tempo de aulas paralisadas para transformar a brincadeira “Eu nunca” em música para o TikTok. De todas as perguntas que faz (de beijar três numa festa à namorar dois de uma vez), a jovem diz que só “não deu perdido para beber”. “Não bebo, mas canto porque sei que muita gente gosta”, diz. A carioca, de Campo Grande, só entendeu a dimensão da fama quando viu Lexa, Preta Gil e mais artistas se divertindo com seu som. “Meu foco é lançar uma nova música para viralizar lá. Tenho que focar no app que me deu oportunidade”. Prevista para janeiro, o refrão terá o verso: “Solteira não trai”.

Ansiosa para fazer shows

Mais que um refrão chiclete, “Tudo no sigilo”, de MC Bianca, ganhou coreografia bem ilustrativa. A artista, de Campos dos Goytacazes, vibra com o hit, mas não esconde a frustração por não poder fazer shows. “Sou muito grata a Deus, só que não consegui aproveitar o auge do sucesso. As pessoas ainda não me conhecem. Tenho fé que esta música foi só a primeira de muitas”. Uma grande mudança na vida já veio. “Saí da favela, aluguei uma casa de frente para a praia e levei minha mãe e avó para terem esse luxo comigo”.

Dança em câmera lenta

Choji solta os versos de “Minha parte da história” com a rapidez que o rap pede. É só no refrão, ao dizer “Vem ni mim”, que os movimentos de dança parecem ser feitos em câmera lenta. Conquistou seguidores. A letra manda um recado para uma ex. “É autobiográfica, mas não foi para uma pessoa só”. O artista não fez alterações na batida pensando no TikTok, mas sabe do que é preciso para ter outro sucesso. “Lancei ‘Brotou no morrão’. Ainda não tem coreografia, mas se quiserem criar...”