Ao homenagear Mc Reaça, Bolsonaro nos prova que estamos perdidos na política e na estética

Matheus Pichonelli
Reprodução/Twitter
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Jair Bolsonaro não escreveu uma linha em homenagem a Beth Carvalho, ícone do samba que morreu no dia 5 de maio.

Também não se manifestou quando os filmes de dois cineastas brasileiros ganharam prêmios importantes em Cannes, na França, ou quando Chico Buarque ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

Na alegria e na tristeza, Bolsonaro, cujo livro de cabeceira foi escrito por um torturador, pouco ou nada fala sobre nossos artistas, a não ser quando é para acusá-los de doutrinação ou pegadas comunistas.

O capitão quebrou o protocolo neste domingo, quando se manifestou sobre a morte de Tales Volpi, conhecido como Mc Reaça, a quem chamou de “grande talento”.

Questão de gosto, dirá o leitor.

Ou de ideologia.

Volpi, escreveu o presidente em seu Twitter, “tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil. Que Deus o conforte juntamente com seus familiares e amigos”.

Manifestações sobre a fatalidade também podiam ser lidas no Twitter de políticos como Joice Hasselmann, Carla Zambelli e os irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro, para quem a força do artista deu resultado.

Nessas manifestações, ninguém lembrou de um detalhe. O jovem que sonhava com um Brasil melhor cometeu suicídio após espancar a amante, uma agente de viagem de 28 anos, segundo reportagem do jornal Correio Popular, que teve acesso ao Boletim de Ocorrência.

A polícia suspeita que a vítima, com quem o DJ mantinha um caso extraconjugal, estivesse grávida - e que o anúncio da gravidez pode ter relação com a agressão, conforme áudios enviados por ela.

A mulher está internada em estado grave no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (HAOC), com edemas na face do olho e fraturas no maxilar.

O funkeiro caiu nas graças do presidente ao gravar músicas em apoio ao então candidato do PSL à Presidência.

Uma das músicas tinha os seguintes versos:

“Dou pra CUT pão com mortadela;

E pras feministas, ração na tigela;

As minas de direita, são as top mais bela;

Enquanto as de esquerda tem mais pelo que cadela”.

Feitas as devidas condolências à família e aos amigos do rapaz, os versos lembram a profecia feita por Caetano Veloso durante um festival de música: “se vocês em política forem como são em estética, estamos fritos”.

O capitão não precisa mudar os hábitos culturais para reconhecer um grande talento. Mas poderia usar o episódio para repensar seus exemplos.

O caso, claro, está com a polícia, que poderá esclarecer qualquer suspeita. Mas vale o questionamento: quem poderia imaginar que tanta violência nas letras seria traduzida também na vida privada, não é mesmo?