McDonald’s russo não tem fritas

Em março, o McDonald’s, no rastro de tantas multinacionais americanas, encerrou suas operações na Rússia — mais de 700 restaurantes! — em protesto à invasão da Ucrânia. O magnata do petróleo Alexander Govor comprou-os todos, rebatizou-os de Vkusno i Tochka (Gostoso e Basta) e vem reinaugurando-os em rápida sucessão, desde junho. Embora os gigantes Ms luminosos tenham vindo abaixo e logo e cores tenham sido trocados, os lanches são quase idênticos aos originais. Só faltam — pasmem! — as batatas fritas.

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De engraçada, a guerra não tem nada, eu bem sei. Mas como não achar cômica uma reportagem intitulada “McDonald’s russo privado de fritas pelas sanções ocidentais”? Publicada por um portal francês, com base em informações postadas pelo portal russo RBK, diz que a safra 2021 de batatas foi péssima na Rússia e “importá-las de mercados estrangeiros tornou-se impossível por causa das sanções do Ocidente”. Cita ainda um porta-voz da Gostoso e Basta: “Esperamos um retorno das fritas ao menu no outono, com o início da nova colheita na Rússia.”

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Como pode uma rede de fast-food sediada em um dos maiores produtores mundiais de batata dizer que não acha fornecedor? O trágico cenário geopolítico atual trouxe consequências visíveis e bem documentadas, como o aumento da fome e do preço dos alimentos — o Brasil que o diga! E trouxe também chagas obscuras, como a viralização da desinformação.

Para começar, as sanções contra a Rússia, que variam de país a país, emperram transações financeiras mas raramente proíbem a importação de alimentos. Embora não se deva confiar na declaração de um vassalo de Putin (o ministro da Agricultura garante que tem batata de sobra), não há, que eu saiba, notícia de destilarias de vodca paralisadas. As fritas sumiram porque poucas fábricas detêm maquinário e tecnologia para produzir os palitinhos ultraprocessados à la McDonald’s — e requerem variedades específicas do tubérculo.

São verdades, não batatas, que estão em falta, isso sim.

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