Mea-culpa de Merkel sobre lockdown desvia a atenção em ano eleitoral

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Angela Merkel errou? A própria primeira-ministra alemã disse que sim em pronunciamento na quarta-feira (24), um inesperado mea-culpa que se transformou imediatamente em notícia. O reconhecimento, que logo deixou em segundo plano o motivo pelo qual estava sendo feito, foi visto por alguns como sinal de desgaste da veterana política e, por outros, como um golpe de mestre. Conhecida por refletir sobre todos os aspectos antes de tomar decisões -e às vezes criticada por essa demora-, Merkel foi a público dizer que se precipitara ao anunciar, um dia antes, um confinamento duro no feriado de Páscoa. "O erro foi unicamente meu. Peço perdão à população e a vocês", declarou em audiência no Bundestag (equivalente à Câmara dos Deputados), desarmando imediatamente as críticas. Ela afirmou que ainda considerava as restrições necessárias para conter o crescimento de novos casos --puxado pela variante B.117--, mas a medida havia sido mal planejada e poderia causar mais prejuízos que benefícios. O cientista político Adam Traczyk, analista do centro de estudos apartidário Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGap), diz que esta foi a segunda vez nos 16 anos da primeira-ministra à frente da Alemanha que ela "admitiu publicamente que não tem controle total sobre o que está acontecendo no país". A primeira foi em 2015, durante a crise da imigração, que golpeou a popularidade do grupo político de Merkel e abriu espaço para o crescimento da ultradireita xenófoba. A líder alemã, no entanto, conseguiu recuperar o controle e, desde o ano passado, viu sua estrela voltar a brilhar dentro e fora do país, citada como exemplo de liderança, capaz de impor restrições impopulares ao explicar convincentemente por que elas eram necessárias. Mesmo opositores disseram que a crise da pandemia ressaltou os pontos fortes de Merkel, e sua popularidade subiu nas pesquisas. "Até agora, ela era uma força calmante que ajudou a guiar a Alemanha com relativa segurança durante a pandemia", diz Traczyk. Não que recentemente a Alemanha tenha piorado seu desempenho em comparação aos vizinhos. Entre os cinco maiores países europeus, é ela a que tem a menor taxa de mortes por 100 mil habitantes desde o começo da pandemia: 91, contra 143 da França, 157 da Espanha, 177 da Itália e 186 do Reino Unido (para comparação, no Brasil já morreram mais de 140 por 100 mil habitantes). E mesmo com toda a força da terceira onda, os hospitais do país resistem, e o número de mortes é decrescente. Na última semana, a Covid-19 matou na Alemanha 1,6 pessoa por 100 mil habitantes, pouco mais que o 1,1 do Reino Unido, mas bem menos que Espanha, França e Itália --2,2, 2,7 e 4,5, respectivamente. No Brasil, foram mais de 7/100 mil no mesmo período. Mas as eleições parlamentares de setembro já estão claramente no horizonte, e a reviravolta de Páscoa após "uma decisão realmente confusa e mal preparada", segundo Traczyk, chegou num momento em que seu partido --União Democrata-Cristã (CDU)-- está fragilizado por denúncias de corrupção e resultados decepcionantes em eleições regionais recentes. Quanto mais perto ficam as eleições parlamentares, maiores os custos e os riscos de medidas impopulares, e maiores os ganhos de apontar o dedo para os rivais. Na quarta, embora Merkel tenha desarticulado muitos oponentes com seu pedido de desculpas, ela chegou a ouvir políticos de oposição pedirem que levasse adiante um voto de confiança ao seu governo. "Meses antes das eleições gerais, ela aparece agora mais como um 'lame duck' [pato manco, ou seja, uma figura decorativa, sem poder de fato] do que como um líder decisivo", afirma o cientista político do DGap. O pedido de desculpas pode ter angariado respeito --"até por que Merkel não é conhecida por admitir erros"--, mas, no longo prazo, só vai funcionar em seu benefício se ela conseguir criar uma estratégia que simultaneamente controle as infecções e traga uma sensação de normalidade às pessoas, diz Traczyk. Ele vê mais cálculo que humildade na atitude da premiê: "Foi para proteger as chances da CDU de vencer as eleições que Merkel assumiu a culpa pela bagunça", diz o analista. Se ela falhar, não enfrentará as consequências, já que deixará neste ano o cargo que ocupa desde 2005. Seu partido, porém, precisa evitar novos desgastes, sob pena de, na pior das hipóteses, ser alijado do governo por uma coalizão entre o Partido Verde, o liberal FDP e o SPD, de centro-esquerda. Pelo menos no discurso, Merkel se mostrou confiante um dia depois de chamar para si a responsabilidade pelo anúncio desastrado. "Vai demorar mais alguns meses, mas a luz no fim do túnel é visível. E vamos derrotar esse vírus", disse nesta quinta (25) em novo pronunciamento no Parlamento. "É o caso quando o copo está meio cheio e meio vazio. Se sempre concluirmos que ele está meio vazio, não desenvolveremos nenhum poder criativo neste país para sair da crise", afirmou a líder alemã. Merkel na pandemia 6.jan.2020 - vigilância prévia Ainda sem nenhum caso confirmado de coronavírus, a Alemanha criou um comitê permanente de vigilância após o alerta feito pela China, uma semana antes, de uma doença ainda misteriosa. 10.fev.2020 - fora do radar O primeiro caso de Covid-19 havia sido detectado em 27 de janeiro, mas a principal dor de cabeça de Merkel era a queda da líder de seu partido União Democrata-Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer, após coligação com a ultradireita em estado alemão. A associação fez Merkel declarar publicamente que o comportamento da CDU era "inaceitável" e que a eleição deveria ser cancelada. 11.mar.2020 - 70% serão infectados Na semana em que a Itália decretou confinamento, Merkel previu dificuldades com a Covid: "Quando o vírus está solto, as pessoas não têm sua imunidade preparada e não há nenhum tratamento ou vacina, uma alta porcentagem da população, que especialistas colocam entre 60% e 70%, será infectada enquanto esse quadro persistir". Mas a Alemanha não fechou fronteiras ou implantou controles sanitários na divisa com a Itália, como haviam feito Suíça, Áustria e Eslovênia, e só implantou um bloqueio na semana seguinte. 18.mar.2020 - pronunciamento inédito Pela primeira vez em 15 anos como primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel falou em rede nacional na TV, após fechar fronteiras, lojas, escolas e fábricas para conter a pandemia. Com um discurso em tom calmo, ela citou sua experiência pessoal: "Para uma pessoa como eu, para quem a liberdade de movimento foi um direito duramente conquistado, tais restrições só podem se justificar por sua absoluta necessidade". O discurso de 12 minutos foi visto por 30 milhões de pessoas 21.mar.2020 - adeus à austeridade Principal defensora da austeridade na Europa, a Alemanha abandonou a política fiscal que garantiu seis anos consecutivos de superávit nas contas públicas e aprovou um empréstimo de EUR 356 bilhões (cerca de R$ 2 trilhões, ao câmbio da época) para financiar seus planos de socorro ao sistema de saúde e a empresas e trabalhadores afetados pela pandemia. O valor da dívida equivale a 10% do PIB alemão --o maior da Europa. "Faremos o que for necessário para salvar o país, sem ficar perguntando a toda hora como isso afeta nosso déficit", havia dito dez dias antes. 22.mar.2020 - de quarentena Merkel entrou em quarentena depois de ter contato com um médico que recebeu diagnóstico de Covid-19, mas continuou trabalhando de casa. "A situação é séria. E vocês precisam levá-la a sério. Desde a reunificação da Alemanha... Não, não. Desde a Segunda Guerra Mundial não há em nosso país um desafio que dependerá tanto de nossa ação solidária conjunta", havia dito dias antes. 15.abr.2020 - primeira-ministra dá uma aula No mesmo dia em que anunciou um relaxamento da quarentena na Alemanha, Merkel explicou, de forma clara e didática, como um aumento mínimo no número de novos casos de coronavírus pode afetar o sistema de saúde alemão. "Temos que aprender a viver com o vírus até que haja vacina ou tratamento contra ele", disse ela. 23.abr.2020 - sobre gelo fino Segundo a chanceler, o país ainda "caminha sobre gelo muito fino", e a população terá que viver com as medidas de contenção de transmissão por muito tempo. "Não estamos na fase final desta pandemia, mas no começo." "Precisamos mostrar o máximo de resistência e disciplina, para não ter que ficar passando de um lockdown para outro", disse Merkel aos parlamentares. 6.mai.2020 - sonhos de verão Merkel anunciou um relaxamento maior do confinamento, com a retomada gradual das aulas, mas avisou que o governo acionaria um freio de emergência. Enquanto países europeus faziam planos para a temporada de férias, ela disse em entrevista que era cedo para sonhar com noites de verão internacionais. 18.mai.2020 - Merkel + Macron Ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, Merkel apresentou uma proposta de um fundo de 500 bilhões de euros para a reconstrução da UE após a pandemia, baseado tanto em empréstimos quanto em repasses a fundo perdido. "A UE está enfrentando o maior desafio de sua história. Em tempos como esses, é preciso adotar um ideal, e neste caso é o ideal europeu. O Estado nacional sozinho não tem futuro." 6.jun.2020 - pacote de recuperação Merkel anuncia um pacote de 130 bilhões de euros para recuperar os danos à economia provocados pela pandemia. 23.jun.2020 - novo alerta Apesar dos números sob controle, surtos de Covid-19 em frigoríficos alemães ligaram o alerta para o risco de uma segunda onda de contágio. 1º.jul.2020 - canto do cisne A primeira-ministra alemã assume a Presidência rotativa da União Europeia em meio a altas taxas de popularidade, ajudadas por suas medidas contra as crises sanitária e econômica durante a pandemia. 17.jul.2020 - aniversário Durante a distensão do verão, líderes fazem reunião presencial em Bruxelas, e Merkel ganha presentes por seu aniversário. 15.ago.2020 - levem a sério A taxa de contágio na Alemanha atinge os maiores índices desde abril, e Merkel começa a discutir com governadores dos 16 estados novo pacote de restrições, após epidemiologistas alertarem sobre a chegada de uma segunda onda. Entre as medidas estão regras mais duras para o uso de máscaras, com previsão de multas, e a extensão da proibição de eventos, como torcidas em jogos de futebol e shows. "Teremos que viver com esse vírus ainda por muito tempo. Por favor, levem a sério", disse ela. 31.ago.2020 - coronacéticos Coronacéticos fazem protestos em várias cidades durante o verão. Manifestantes tentam invadir o Reichstag numa atitude chamada de "vergonhosa" por Merkel, segundo um porta-voz do governo. 28.out.2020 - salvem o Natal A segunda onda da Covid-19 se instala na Europa, e a Alemanha reimpõe restrições e amplia seu programa de auxílio (Kurzarbeit). Com novos casos dobrando a cada semana, Merkel diz que os hospitais estão em risco se o ritmo for mantido. Quanto mais cedo o país agir, "mais tempo ganharemos até as férias de Natal", afirmou ela aos chefes dos 16 estados, que concordaram com as novas restrições. Bares, restaurantes, teatros, piscinas e academias de ginástica fecharão até o final de novembro, e as reuniões públicas serão limitadas a duas famílias ou até 10 pessoas. Viagens desnecessárias são desencorajadas, e os hotéis são aconselhados a não hospedar turistas. Escolas, creches e lojas, no entanto, permanecerão abertas. 29.out.2020 - inverno difícil Em discurso no Parlamento, Merkel diz que os alemães têm a chance de mostrar ao coronavírus que ele "escolheu o anfitrião errado". "Este inverno vai ser difícil, quatro longos meses", disse ela ao concluir seu discurso. "Mas isso vai acabar." 25.nov.2020 - novos recordes A Alemanha bateu o recorde de casos diários (32 mil) desde o início da pandemia, e o número de mortes também pressiona. A líder alemã prorrogou as medidas de restrição pelo menos até 20 de dezembro e admitiu que elas podem permanecer até janeiro. 16.dez.2020 - de novo o confinamento A Alemanha registrou um número recorde de mortes por Covid-19 no mesmo dia em que entrou em um novo confinamento parcial que pode durar mais que o esperado diante da preocupante propagação do novo coronavírus. 9.jan.2021 - as semanas mais duras Dados oficiais indicam que a economia alemã encolheu 5% no ano anterior, mas as restrições à circulação são mantidas, porque os números mostram aumento no contágio. Merkel afirma que as semanas seguintes serão as mais duras da pandemia até então. "Médicos e equipes médicas em muitos hospitais estão trabalhando à beira da sobrecarga, e o que ouvimos sobre as mutações do vírus também não diminui a ansiedade. Pelo contrário, aumenta", afirmou ela em discurso. A primeira-ministra pediu que as pessoas reduzam ao máximo o contato e cumpram as regras básicas para evitar o contágio. 16.jan.2021 - liderança Merkel mantém sua popularidade em alta, e seu partido escolhe como novo líder Armin Laschet, o candidato que mais representa a continuidade de suas políticas. 21.jan.2021 - o risco da variante Merkel diz que a chegada da variante B.117, identificada primeiro no Reino Unido, ameaça a Alemanha. "Se seguirmos os rumos britânicos, não estaremos falando sobre se as escolas devem ou não abrir, mas sobre ambulâncias e hospitais superlotados. Mas se todas as regras forem cumpridas temos uma chance justa", afirmou. O uso de máscaras cirúrgicas ou com fator de proteção FFP2 se torna obrigatório em locais públicos e escolas, creches, lojas não essenciais, e cabeleireiros ficam proibidos de abrir até pelo menos 14 de fevereiro. 11.fev.2021 - sem controle "Perdemos o controle dessa coisa", diz Merkel em reunião com os governadores. A variante B.117 avança no país, elevando o número de novos casos de Covid-19. No final do mês, as autoridades de saúde alemãs relutam em permitir o uso da vacina da AstraZeneca em idosos. 14.mar.2021 - derrotas eleitorais Em meio a um escândalo sobre a compra de máscaras de proteção, o partido de Merkel perde votos em duas eleições regionais. 23.mar.2021 - nova pandemia Merkel fala em "nova pandemia" devido à variante B.117 e decreta confinamento total no feriado de Páscoa. 24.mar.2021 - mea-culpa Merkel diz que confinamento ajudaria a conter contágio preocupante, mas que não houve planejamento suficiente e anúncio foi um erro. Pede desculpas por aumentar a insegurança e volta atrás nas medidas.