MEC cortou pela metade verba para divulgar Enem 2021

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O Ministério da Educação (MEC) cortou em mais da metade o investimento para divulgação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo GLOBO.

Para a prova de 2020, o MEC do governo Jair Bolsonaro desembolsou R$ 2,4 milhões em publicidade. O número caiu para R$ 1,1 milhão este ano, uma redução de 51,5% e que, na resposta dada pela pasta, não incluiu a contratação de itens como pesquisas, jingle e adesivos, presentes no ano anterior.

A título de comparação, a campanha voltada para as escolas cívico-militares, um dos poucos projetos centrais de educação apresentados pelo governo Bolsonaro, recebeu R$ 600 mil do MEC em 2019. A expectativa é atender 108 mil estudantes até 2023, número bem abaixo dos 3,1 milhões de inscritos do Enem este ano.

Para a diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Costin, "em meio à maior crise que a educação viveu", esse era o momento de fazer o oposto, ou seja, acentuar a comunicação com os estudantes.

— É como se o MEC não considerasse importante que os alunos prestassem o Enem. Deixar de investir em publicidade para informar sobre as inscrições, as cotas para estudantes de escola pública e a própria isenção da taxa de quem faltou no ano passado é uma forma de estragar não só a vida desse jovem no curto prazo, mas de todo o país — disse a especialista.

Segundo Costin, a baixa verba publicitária pode ter contribuído para o menor número de inscritos no teste desde 2005, o que se refletiu em escolas vazias neste domingo, sem as filas quilométricas vistas em anos anteriores.

Costin diz também que o maior investimento em publicidade teria sido uma ferramenta importante para engajar alunos que, na pandemia, se afastaram dos estudos por falta de conectividade no ensino remoto ou pela necessidade de trabalhar para ajudar a família:

— Uma estratégia simples como divulgar as inscrições do Enem ajudaria a engajar esse estudante naturalmente. Só de se matricular, ele levaria o estudo mais a sério, se dedicaria à escola e até poderia abandonar o trabalho informal para correr atrás do tempo perdido. Mas o MEC não considerou isso importante — aponta Costin, acrescentando que o Brasil foi na contramão de outros países ao diminuir gastos com a educação na pandemia.

A ex-presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) Maria Inês Fini lamentou que o menor investimento ocorra justamente no momento em que o Enem passa por tantos questionamentos:

— A comunicação é importantíssima para tranquilizar a população, orientar sobre o exame e sobretudo incentivar os alunos a realizar a prova. Esse corte faz parte de uma ação programada. Para o MEC e o Inep, quanto menos visibilidade, melhor. Afinal, o que eles fizeram de política educacional? Nada — afirmou Fini.

Ela também avalia que o menor investimento pode ter contribuído para o baixo número de inscritos.

— É necessário que o aluno tenha motivação para comparecer e fazer a prova a partir não apenas de incentivo dos professores e especialistas, mas por meio de uma ação estrutural do estado brasileiro — disse.

Os dados obtidos pelo GLOBO mostram que a redução na publicidade para divulgar a prova mais importante do calendário brasileiro ocorreu pelo menos desde o governo Temer. De 2019 para 2020, houve uma diminuição expressiva do investimento, que caiu de R$ 3,5 milhões para R$ 2,4 milhões, cerca de 30%.

Procurado, o MEC não se manifestou até a publicação desta reportagem.

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