Mecanismos de proteção adotados na pandemia já eram regra para travestis, diz pesquisadora travesti

ÚRSULA PASSOS
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*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 02.11.2020 - Maria Lucas, 30. Artista e escritora carioca, é mestra em artes da cena pela UFRJ e pesquisadora no MAM-Rio (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) em parceria com o programa de residência Capacete - (Foto: Zô Guimaraes/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 02.11.2020 - Maria Lucas, 30. Artista e escritora carioca, é mestra em artes da cena pela UFRJ e pesquisadora no MAM-Rio (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) em parceria com o programa de residência Capacete - (Foto: Zô Guimaraes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesses dias de ruas esvaziadas, um carro persegue Maria Lucas. O motorista joga a máquina sobre a calçada onde ela andava, ameaçando-a, e coloca o pênis para fora. Ela então tira seu canivete e o homem vai embora. É a partir desse episódio que se desenrola seu ensaio "Próteses de Proteção", vencedor do primeiro lugar do concurso de ensaísmo da revista Serrote.

Partindo das novas medidas de segurança sanitária adotadas pela sociedade, a multiartista carioca aborda no texto a pandemia do ponto de vista da experiência travesti. Segundo ela, em conversa pelo telefone do Rio de Janeiro, o isolamento social sempre foi uma realidade para transexuais e travestis e as máscaras, agora de uso obrigatório, passam a ser, para elas, mais um escudo contra violências cotidianas.

O mais recente boletim da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) mostra que o Brasil teve, nos primeiros dez meses deste ano, 151 assassinatos de pessoas trans. Em 2019, no ano todo, foram 124 mortes, e o Brasil é o país com o maior número de travestis e transexuais assassinadas do mundo.

Maria Lucas trabalhou por anos como drag queen, com o nome MaMa Horn, na cena noturna carioca e paulistana, além de ter feito teatro. Formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela diz que o lugar de artista, porém, já lhe era negado muito antes de ser travesti, por ser de uma família pobre, criada na favela da Rocinha.

No dia 17, a partir das 18h, ela e os outros dois ganhadores do concurso de ensaios, Evandro Cruz Silva e Raphael Grazziano, participam de uma conversa com os editores da Serrote no canal do Instituto Moreira Salles no Youtube. A revista está à venda em livrarias e no site do IMS.

PERGUNTA - No ensaio publicado pela Serrote, são mencionadas próteses diversas, como cílios postiços, mas a partir do uso das proteções exigidas pela pandemia. Como se relacionam as próteses de hoje com as de antes?

MARIA LUCAS - Essas próteses e mecanismos atuais de proteção, como ficar em casa, distanciamento social, álcool em gel, são práticas que, de formas distintas, sempre foram utilizadas por nós, pessoas trans, que já somos distanciadas dos ambientes sociais, expulsas, de diversas formas, e que somos vistas como um corpo errado. Nós já temos que nos proteger diariamente contra múltiplas violências. Agora é como uma segunda camada de proteção.

Como travesti, penso nisso o tempo todo: com quem eu falo, como eu chego e como adentro nos lugares. Porque o mundo é construído de uma forma hostil para qualquer tipo de corpo que esteja distante do que é ser homem, distante do lugar do macho, e isso inclui as bichas, bichas travestis, as mulheres cis, as mulheres trans e nós travestis.

P. - O Paul Preciado, filósofo trans espanhol, citado em seu ensaio, fala em próteses como partes do corpo, um corpo que é todo construção e não natural. Vê assim a ideia de prótese?

ML - Falar da construção de um corpo travesti -que se dá por próteses identitárias- é falar sobre a construção de um corpo que precisa se defender e se proteger diariamente.

Quando eu começo a crescer e a me apropriar de extensões que são proibidas para meu corpo, começo a entender o que é prótese, sem precisar ler Preciado, inclusive. Por mais que ele seja muito importante e eu goste muito dele, é ainda muito distante da nossa realidade. Falar sobre "queer", enrolar a língua e ter de entender alguma coisa de inglês para ler sobre isso está distante.

É diferente de quando encontro uma amiga travesti e falamos pajubá [conjunto de palavras e gírias LGBTs], falamos sobre ser sapatão, viado, bicha, travesti.

Esses nomes são jogados sobre nós e crescemos odiando o apelido, a ofensa. Num determinado momento você cresce e percebe que não, percebe que quer ser isso e se empodera. A maravilhosidade e as agruras de ser o que todo mundo odeia, ou de ser o que ninguém quer ser.

P. - E como tem sido falar sobre sua vivência?

ML - Muito do que eu produzo é sublinhado como político ou como autobiográfico, e eu me pergunto: se eu fosse um homem cis escrevendo sobre a minha vivência, a minha produção artística também seria vista como autobiográfica e política? Pessoas como eu continuam sendo vistas como o outro. Quando produzo, é a partir de uma subjetividade que é altamente violentada, apagada, e que faz parte de um grupo marginalizado socialmente.

Preciso falar que não somos uma minoria, somos uma multidão. Tem uma legião de travestis há séculos neste Brasil tentando fazer algo. Temos uma presença maior nos últimos tempos no mainstream, porque é um assunto pelo qual as pessoas se interessam, mas precisa ser de verdade. É preciso não só passar os olhos sobre o texto, mas ler; não só escutar a música da Linn da Quebrada rebolando, mas ler o que ela escreve, assistir a uma entrevista dela.

Quando eu tive de sair na quarentena, saí de máscara, e entendi que muitas vezes eu recebia olhares por ser um corpo grande, com curvas, mas quando eu tinha de abrir minha boca as pessoas ouviam e entendiam: "é uma travesti". Foi quando comecei a me dar conta de que isso tem a ver com a objetificação do corpo feminino, porque se isso acontece porque meu rosto está vendado, então o que importa? É uma bunda grande? É um peitinho nascendo? Ou é ter uma voz grossa e um rosto com traços do que a sociedade entende como masculino?

P. - E o que pensa da ideia de passabilidade [noção de que uma pessoa trans pode aparentar, ao olhar do outro, ser uma pessoa cisgênero]?

ML - Na travestilidade atual se questiona muito a necessidade de aquendar a neca [esconder o pênis, em pajubá], de fazer a barba etc., porque somos diversas. Eu nunca tive isso -mas pode ser que um dia eu tenha- de querer ter uma figura completamente feminina e querer ser lida como uma mulher trans ou cis, porque me identifico com o nome travesti. Acho maravilhoso. Se tenho alguma característica socialmente lida como masculina ou feminina, para mim não importa, é uma característica minha e eu sou uma travesti.

Eu questiono esse termo passabilidade, porque é como se quiséssemos sempre nos passar por alguma coisa, e isso leva a um grande clichê do corpo trans: a ideia de que se nasceu no corpo errado. A ideia de que é um homem que quer ser mulher ou nasceu mulher e quer ser homem.

Eu não nasci no corpo errado, eu nasci no meu corpo, só que nasci numa sociedade com padrões muito errados.

Sou privilegiada, porque faço parte de uma minoria que não trabalha com prostituição. Se eu tivesse, como muitas, essa única saída para ter dinheiro, precisaria estar perto de um ideal de feminilidade por conta do trabalho.

O termo mulher trans é criado pela cisgeneridade, pela medicina. Travesti -isso que minha mãe abominava, que a sociedade abomina, que eu tinha medo, porque está na rua, no gueto, no escuro, e é perigoso- é o que eu sou. Travesti é uma identidade latinoamericana, brasileira. Eu preciso me orgulhar de ser o que a sociedade odeia.

P. - A sociedade controla os corpos trans e travestis?

ML - Sim, porque se tem entendimentos muito errados. Ou você é a pessoa que tem transtorno, ou então precisa ser medicada.

P. - Seu processo de transição, de nome social e com hormonização, começou no fim do ano passado. Como está sendo essa experiência na pandemia?

ML - Eu não achava que ia me hormonizar. Pesquisei e entendi a questão das travestis, aqui no país e ao redor do mundo, e eu fui tomando outros passos com meu corpo. Aí entramos na questão da homogeneização. Não é uma transformação corporal, não é uma hormonização, que vai fazer você mais trans ou travesti.

Comecei uma transição social em dezembro, quando eu disse "agora não dá mais, é travesti, e meu nome é esse", e comecei um processo de retificação de documentos, de hormonização, de conseguir o diploma do meu mestrado com o nome retificado, de falar para mim mesma "eu não sou homem e eu não me identifico com isso".

Comecei um processo com a Fiocruz para começar a me hormonizar, fiz todos os exames, mas a pandemia também dificultou isso, porque os exames de acompanhamento foram adiados.

Sinto que as pessoas cis têm uma grande curiosidade sobre isso. Tudo bem também, mas é um saco quando sua vivência é sempre uma grande curiosidade.

P. - Como é ser a primeira ou a única em muitos espaços?

ML - Nesta edição do jornal, ou na revista Serrote, vou ser mais uma vez a única ou a minoria de pessoas trans com voz, então quero que essa voz seja um dos primeiros contatos, ou o único contato, que uma pessoa que lê esse veículo de informação vai ter com o tema, para que pare e se questione sobre ela mesma.

Quando tenho que falar sobre questões transfóbicas, sempre digo que isso não é sobre mim, não é um problema meu, é sobre você.

Quando eu comecei a entender que precisava transicionar para viver melhor, coloquei no Google a palavra travesti e tudo o que aparece é sobre morte, violência.

Eu trabalho a partir disso -sair nesta entrevista inclusive- para uma reconfiguração de um imaginário social. Porque enquanto ele não mudar, não vamos estar numa equidade, e ainda seremos as únicas, as primeiras, a minoria.

Eu gostaria de, em algum momento, falar sobre moda, sobre amor, comida, qualquer outro assunto que eu tenha a capacidade de escrever a respeito, mas, atualmente, se eu for escrever sobre uma vivência travesti brasileira em 2020, com o atual presidente no poder e em época de pandemia, eu preciso falar de exclusão, de violência e de apagamento.