Medalha de ouro ou lata? Na Lagoa, equipamentos esportivos em bom estado dividem espaço com outros sem conservação

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RIO — Olimpíada, agora, só em 2024 em Paris. Mas para boa parte dos praticantes de esportes na Lagoa Rodrigo de Freitas, todo dia é dia de Jogos ao redor dela ou dentro da água. Skate, futebol, basquete, corrida, ciclismo, tênis, remo e vôlei são algumas das categorias que atraem amantes de atividades físicas. Mas nem todos podem dar medalha de ouro aos equipamentos onde se exercitam. Enquanto os fãs da fadinha Rayssa Leal fazem manobras em pistas recém-reformadas, por exemplo, os admiradores de Richarlison precisam driblar campos com o piso de grama sintética em péssimo estado, dignos de medalha de lata. Há esportes, como o tênis, cujas quadras ao mesmo tempo merecem o ouro, caso das situadas perto do Clube Monte Líbano, com piso recém-pintado; e a lata, como a localizada no trecho próximo ao Parque da Catacumba, cheia de rachaduras.

Já os praticantes de caminhada, corrida e ciclismo percorrem uma pista irregular, repleta de falhas, buracos e desníveis ao longo de quase oito quilômetros. A atividade aeróbica ao ar livre beneficia a saúde, e a paisagem é deslumbrante, mas em muitos trechos da ciclovia compartilhada é preciso manter o olhar no chão para não sofrer um acidente.

— A pista atrai muita gente e precisa ser reformada. O asfalto é irregular, tem buracos demais. Quando chove isso fica mais evidente, pois surgem dezenas de poças pelo caminho. As falhas são ruins para quem corre, porque podem causar lesões nos joelhos e tornozelos — diz Ricardo Feitoza, que corre na Lagoa três vezes por semana.

Corrida com obstáculos

Heitor Wegmann, presidente da Associação de Moradores do Jardim Botânico, enviou para a equipe do GLOBO-Zona Sul uma série de fotos de buracos na ciclovia ao redor do cartão-postal e deu o sinal de partida para esta reportagem: “Aproveitando o embalo das Olimpíadas, daria para fazer uma matéria sobre corrida com obstáculos na Lagoa Rodrigo de Freitas.”

Sem se identificar, um morador conhecido de Wegmann conta que já se machucou na subida da rampa do heliponto. Ele diz que a Lagoa está cheia de pontos instáveis, onde se corre o risco de tropeçar. E não é de hoje. O caso dele ocorreu há dois anos, quando caiu e ficou com um perna inteira, até a altura da bacia, dentro de um buraco. Felizmente, sofreu apenas arranhões.

Depois de meses aberto, o antigo buraco naquele trecho foi tampado pela prefeitura. Mas ali perto da tal rampa há um problema crônico e atual de alagamento. Frequentemente, para evitar a enorme poça, quem corre ou pedala precisa dar a volta por trás do heliponto, pelo caminho alternativo que só deveria ser obrigatório durante pousos e decolagens de aeronaves.

De acordo com a Secretaria municipal de Conservação, uma vistoria foi feita mês passado para levantar os problemas da pista. Ela assegura que vem atuando pontualmente nos reparos necessários. Segundo a prefeitura, está sendo avaliada, também, a necessidade de um contrato específico de manutenção para a malha cicloviária da cidade. Para os trechos da ciclovia da Lagoa perto do Parque da Catacumba e do Parque dos Patins, a secretaria afirma que será feito um estudo específico de análise de solo envolvendo vários órgãos da prefeitura, de modo a programar as obras necessárias.

Gol contra

Se Richarlison, Daniel Alves, Nino, Paulinho e outros craques da seleção medalha de ouro em Tóquio decidissem reunir a turma campeã para uma pelada informal na Lagoa não teriam onde pisar com as chuteiras sem a certeza de um acidente. O campo de futebol do Parque dos Patins é um verdadeiro inimigo da bola e dos atletas, mesmo amadores ou iniciantes. Além de grades de proteção quebradas e buracos, o gramado sintético perdeu o jogo para a terra batida, que domina todos os setores do campo.

Um projeto social que organiza ali aulas para crianças de comunidades da Zona Sul corre o risco de deixar as quatro linhas por conta das más condições. Criador do programa social e treinador dos jovens, Antônio de Souza reclamou em recente entrevista ao “Bom dia, Rio”, da TV Globo:

— Algumas crianças já torceram o pé e ficaram meses sem jogar.

Peladeiros e aprendizes sofrem também com o estado precário do campinho conhecido como Maconhão, perto do acesso ao Túnel Rebouças.

A Secretaria de Esportes afirma que os campos estão sendo vistoriados. Sem informar o valor, a pasta garante que já foi feito um orçamento para a recuperação dos espaços. O começo das obras depende da liberação de verba.

Remar, remar e ‘morrer’ na Lagoa

Antes da consolidação definitiva do futebol, as regatas tinham alta popularidade, principalmente até a década de 1920. Apesar de a modalidade ser a origem de três dos quatro grandes clubes da cidade (Botafogo, Flamengo e Vasco) e ter muitos praticantes na Lagoa, as adversidades vêm se tornando cada vez mais complicadas.

Além de problemas como vazamento de esgoto, que incomodam tanto os praticantes de esportes náuticos quanto os pedestres ao redor, existem ainda estruturas de ferro próximas ao espelho d’água que podem trazer riscos para quem pratica esporte.

O pedagogo e empreendedor social Leonardo Saboia não está no time dos remadores, mas também navega naquelas águas: ele pratica iatismo.

— Essas estruturas de ferro para fazer as amarrações das raias náuticas, que ficam logo abaixo do espelho d’água, mas muito próximas dele, são extremamente perigosas para barcos, lanchas e botes — diz.

Sob a aparente calma, as águas da Lagoa escondem problemas antigos. Na Rio-2016, o lugar recebeu as provas de remo e canoagem. Para que tudo corresse bem, foi preciso um processo de desassoreamento, visando a retirar sedimentos e aumentar a profundidade. A qualidade da água foi outra preocupação de equipes estrangeiras, que reclamaram da grande quantidade de algas.

Com tudo pronto, o brasileiro que mais brilhou nas raias de competição foi Isaquias Queiroz. Agora atleta do Flamengo, ele voltou ao pódio em Tóquio. Com o ouro, tornou-se o terceiro maior medalhista brasileiro na história olímpica. O feito ecoou nas redes sociais, onde uma campanha pediu que a prefeitura rebatizasse a Lagoa Rodrigo de Freitas com o nome do canoísta baiano.

Basquete, vôlei e futsal x skate

O brilho das três medalhas de prata conquistadas pelos skatistas Kelvin Hoefler, Rayssa Leal (ambos do street) e Pedro Barros (do park) na Olimpíada de Tóquio refletiu de maneira expressiva no interesse pelo esporte. As duas pistas da Lagoa, perto da sede do Flamengo, receberam melhorias que agradaram a novos e antigos aficionados por manobras radicais.

As pistas de skate, no estilo bowl e street, passaram por reparos estruturais no piso, para eliminar as rachaduras. Os corrimãos de proteção também foram reformados. A pista de street ganhou novos obstáculos, e os bancos de entorno receberam melhorias.

De acordo com a prefeitura, a reforma teve como ponto de partida uma iniciativa do skatista Joaquim Mello, de 12 anos.

— Ele nos pediu ajuda, e é com muito orgulho que entregamos ao Rio essas pistas de skate totalmente revitalizadas. Além de serem um espaço importante para o treinamento desse esporte, agora modalidade olímpica, elas podem ser usadas pelo pessoal do skate que vem apenas se divertir. Quem sabe não sairão daqui novas Rayssas e novos Kelvins? — destaca a secretária de Conservação, Ana Laura Secco.

Praticantes de esportes disputados em quadras vivem outra situação. Ou melhor, situações distintas. É o que acontece no caso das quadras de basquete: em outro ponto da Lagoa, perto do Parque da Catacumba, há duas, sempre disputadas por jogadores. Enquanto uma apresenta rachaduras e poças, a outra foi pintada recentemente — recebeu um desenho elaborado pelo artista plástico Antônio Ton, dentro do projeto Paraíso do Basquete, iniciativa do jogador da modalidade Daniel Lorio, que revitaliza áreas públicas.

As quadras de vôlei, geralmente pouco utilizadas para o esporte, ainda não foram contempladas com melhorias. Na mesma situação estão as de futsal, modalidade que ficou fora dos Jogos de Tóquio.

Vitórias e derrotas para os fãs de tênis

As duas quadras de tênis que ficam diante do clube Monte Líbano seriam elogiadas pelas medalhistas de bronze nas duplas, Laura Pigossi e Luisa Stefani. Elas estão tinindo de novas: foram pintadas no final de julho por agentes da Comlurb. As tintas foram doadas pelo projeto Tênis na Lagoa, que oferece, há quase 18 anos, aulas gratuitas do esporte a crianças e adolescentes de comunidades como Rocinha, Vidigal, Tabajaras e da Cruzada São Sebastião.

Mais de quatro mil jovens já foram beneficiados pela iniciativa, que se mantém graças a doações de amigos de seu fundador, o professor Alexandre Borges. Todo ano, ele procura reservar uma verba para a pintura das quadras.

— É importante que as quadras estejam sempre pintadas para que os alunos possam visualizar melhor os limites e possamos enxergar bem se a bola foi dentro ou foi fora — diz Borges.

O objetivo do projeto, ele conta, é melhorar a autoestima, estimular o protagonismo, aumentar a consciência corporal e estimular a incorporação de hábitos saudáveis na vida dos alunos. E, de quebra, descobrir novos talentos do esporte.

— Fico muito feliz quando vejo esses jovens com uma raquete e uma bola nas mãos, podendo competir em campeonatos. Estou sempre lutando para ajudar na educação deles, para que eles evoluam através do esporte — afirma Borges, que, além de encorajar um bom desempenho escolar, ainda batalha por bolsas de estudo em cursos de inglês para os alunos mais esforçados.

Um dos destaques da leva de 160 alunos da vez é Carlos Henrique Gomes da Silva, de 14 anos, vencedor do campeonato estadual de tênis na categoria duplas este ano e quarto lugar no ranking do estado. Ele está no projeto desde os 6 anos.

— Vi uma aula quando estava passeando com minha mãe pela Lagoa e fiquei encantado, senti vontade de jogar. O tênis é tudo para mim e me ensinou a ter disciplina, responsabilidade. Trouxe novas amizades e uma chance de dar um futuro melhor à minha família — diz o jovem, que mora na Cruzada São Sebastião.

As quadras de tênis que ficam perto do heliponto e do Parque da Catacumba ainda carecem de manutenção. Em nota, a Secretaria municipal de Esportes informa que, assim como os campos de futebol, as quadras estão no projeto de reforma, que depende de verba para ser iniciado. (Colaborou: Natália Boere)

* Estagiário, sob a supervisão de Milton Calmon FIlho

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