Médica da linha de frente pegou coronavírus e passará Dia das Mães isolada

Giorgia Cavicchioli
·14 minuto de leitura
Dra. Cristhieni com os filhos Lucas (à esquerda) e Pedro. Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Cristhieni com os filhos Lucas (à esquerda) e Pedro. Foto: Arquivo Pessoal

Na linha de frente do combate ao coronavírus, a infectologista Cristhieni Rodrigues, se dividia entre os atendimentos que fazia no Hospital das Clínicas e no Hospital Santa Paula, ambos em São Paulo, quando precisou se afastar dos trabalhos na última segunda-feira (4) por ter contraído o Covid-19.

Em casa desde então, ela e seu marido, que também foi acometido pelo vírus, precisam tomar todos os cuidados possíveis e imagináveis para não contaminarem os dois filhos: Lucas, de 13 anos, e Pedro, de 19. “Eu sempre achei que algum dia eu ia acabar sendo contaminada. Aliás, esse é objetivo do isolamento: que as pessoas se contaminem aos poucos e que tenha leito para todo mundo”, afirma.

Por conta da doença, o Dia das Mães de Cristhieni será sem grandes comemorações, sem abraços e beijos. No entanto, ela diz que conseguirá passar por isso pensando em um bem maior: a proteção de todos. “Eu vou estar aqui em casa, com meus filhos, mas sem grandes toques e esperando que ano que vem a gente esteja em uma situação melhor”, diz.

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Leia a entrevista completa:

Yahoo: Me conte um pouco sobre sua trajetória como profissional da saúde e também sobre sua vida fora do hospital. Se formou quando? Desde quando atende no pronto socorro?

Cristhieni Rodrigues: Eu tenho 50 anos, me formei jovem, com 23 anos. Eu fiz faculdade em Santos (litoral de São Paulo), então, eu sou santista. Eu vim para São Paulo quando fui fazer especialização na USP (Universidade de São Paulo), com 27 anos. Eu fiz infectologia na faculdade de medicina da USP e, hoje, eu trabalho meio período no serviço privado e meio período no hospital público, no Hospital das Clínicas. Eu também faço consultório privado.

Yahoo: E na sua vida pessoal? Tem quantos filhos? É casada? Me fale um pouco sobre você.

Cristhieni: Eu tenho dois filhos, um de 19 anos, que faz medicina. Ele já está no segundo ano. E também tenho um filho de 13 anos. Entre um e outro eu demorei seis anos porque tudo sempre foi muito corrido. Eu gosto muito do que eu faço. A infectologia é uma paixão. E, na verdade, eu acabo dizendo que eu tenho dois filhos únicos. Por conta da rotina mesmo eu acabei tendo essa dificuldade de ter um filho perto do outro. Mas eu sempre tentei conciliar tudo, junto com meu marido, que não é profissional da área da saúde.

Yahoo: Eles entendem essa sua dedicação pelo trabalho?

Cristhieni: Eu tenho o costume de dizer que eu tenho um filho que quis fazer medicina, apesar de saber que eu trabalho muito. Mas ele sabe que eu faço isso por amor. Ele sabe que a mãe dele trabalha muito, mas é muito feliz naquilo que faz. Mesmo assim, fica sempre essa cobrança interna de querer estar presente, mas não conseguir. Mas, enquanto eu estou em casa, eu estou presente. Ver meu filho fazendo medicina me deixa até mais feliz, por ele ver que eu faço isso por amor. Eu sempre estudei muito. Eu fiz pós-doutorado já mais velha, acabei três anos atrás. Eu consegui me organizar. A minha família e a do meu marido não é de São Paulo, mas ele me ajuda muito. Também tem a ajuda de quem trabalha em casa. Eles me ajudaram muito nesse caminho. Eu sempre dei sorte de encontrar pessoas muito boas para me ajudar.

Yahoo: Como está sendo esse período de coronavírus para você?

Cristhieni: No meio dessa crise toda, dessa coisa tão pesada, a gente está vivendo em estado de isolamento. Está sendo uma experiência diferente e estamos todos em casa. Eu peguei o Covid-19 na segunda-feira (4), meu marido pegou também. Então, desde então, eu entrei de licença. Nossos filhos não pegaram e estamos tentando nos isolar dentro da nossa própria casa. É difícil com dois doentes e dois não doentes. Eles estão respeitando os espaços e eu estou o tempo todo no telefone para tentar dar a melhor assistência para quem está precisando, mesmo estando em casa.

Dra. Cristhieni (à direita) com colegas de trabalho durante uma comemoração de Halloween. Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Cristhieni (à direita) com colegas de trabalho durante uma comemoração de Halloween. Foto: Arquivo Pessoal

Yahoo: E seus filhos estão como?

Cristhieni: Eles também estão em aula, né? Um deles está no ensino fundamental e tem aula virtual. Mas estamos em pequenos nichos da casa. O mais velho faz faculdade em Sorocaba (interior de São Paulo) e ele voltou para casa para ficar isolado com a gente. Só para você ter uma ideia, eu voltei para casa outro dia e eles tinham adotado um cachorro enorme. A gente tinha uma cachorrinha que morreu ano passado, mas eu cheguei em casa e tinha esse cachorro enorme. Ele está alegrando a casa. Parece que muitas pessoas estão adotando animais durante a quarentena…

Yahoo: Quando você começou a atender os pacientes que têm Covid-19? Como foi esse trabalho desde o começo até agora?

Cristhieni: O primeiro caso notificado aqui no Brasil foi no dia 26 de fevereiro, que é o dia do meu aniversário. Eu tinha marcado uma festa para esse ano, com buffet e tudo. Eu nunca me dei uma festa, mas aí a festa precisou ser cancelada. Foi o primeiro contato que eu tive com o coronavírus. O pessoal do buffet até tentou conversar comigo, mas eu disse: “Não. Parou tudo. O nosso País vai parar. Acabou. Vamos fazer ano que vem, quando der para fazer”. A gente passou a ver os primeiros casos e a se preparar para receber os pacientes. Foi uma coisa que eu nunca tinha visto. Os hospitais passaram a se preparar aumentando o número de leitos, capacitando equipes…

Yahoo: Como foi o processo de entender o perigo do vírus?

Cristhieni: Eu vejo muita gente que está de fora, eu vejo muito em mídia social, pessoas que não entendem o que está sendo feito. Dentro dos hospitais, a gente viu um trabalho tão bonito sendo feito… nós nos preparamos pensando no futuro e agora estamos conseguindo cuidar das pessoas e recebendo os frutos disso. Nós temos dificuldades ainda e os hospitais estão tentando ir atrás do que é possível fazer dentro de uma pandemia. O problema não está só no nosso País. Até em países de primeiro mundo está tendo. Desde o primeiro caso que eu atendi, sempre paramentada, a gente podia ver a gravidade pela situação do paciente.

Yahoo: Como é essa situação?

Cristhieni: Você olha um paciente jovem com dificuldade para respirar… não é só aquilo que só paciente idoso sofre. A gente está perdendo amigos, colaboradores… se espalhou aquilo de que não é bem assim, de que é um exagero, e isso dói muito. Dói muito quando você vê que pessoas estão fazendo passeatas sem máscara porque você sabe que não é isso, que as pessoas têm que se proteger e ter consciência coletiva. Você não está usando máscara só por você, você está usando pelos outros. Se você tiver o vírus de forma leve e não usar máscara, você vai estar contaminando muita gente. Essa situação deveria ter despertado o senso coletivo de proteção nas pessoas.

Yahoo: Precisaria de uma mudança?

Cristhieni: Essa é uma mudança que deveria ser muito grande na sociedade. A gente deveria pensar que tem outras pessoas ao nosso redor e que a gente precisa pensar nisso em um mundo em que a gente vive o individualismo. Para o profissional da saúde, saber como o vírus é transmitido e não conseguir segurar isso, é muito difícil. Para nós, que estamos na linha de frente, não saber o que vamos fazer amanhã, o que vai acontecer, é muito difícil…

Yahoo: E como foi para você quando pegou o vírus?

Cristhieni: Eu sempre achei que algum dia eu ia acabar sendo contaminada. Aliás, esse é objetivo do isolamento: que as pessoas se contaminem aos poucos e que tenha leito para todo mundo. Então, eu sempre estive preparada para me contaminar em algum momento. Estamos aí, na linha de frente, há quase dois meses inteiros e eu não tive contaminação. É muito tempo… até por eu estar tão exposta. Apesar de eu estar protegida, apesar de a gente se cuidar, sempre tem aquele computador que você coloca a mão…

Yahoo: Como você descobriu que tinha coronavírus?

Cristhieni: Eu senti os primeiros sintomas e eu achei que era só uma dor no corpo, por eu estar muito cansada. O que me chamou a atenção foi que, a partir do quarto dia, eu perdi totalmente o olfato. Aí eu já saí, fui para o hospital e, em 12 horas, eu já tinha o resultado. Eu não tenho nenhum fator de risco. Apesar disso, deu medo. Meu marido tem um pouco mais de risco que eu e eu fiquei preocupada com ele. Na hora que eu soube, eu chorei. Eu fiquei com medo, apesar de saber que eu não tenho risco. O pior de tudo é que eu não tenho nenhum tratamento para iniciar. Eu tenho que esperar para ver como o meu organismo vai responder.

Yahoo: Como é esse sintoma da falta de olfato.

Cristhieni: Você não sente o cheiro de nada. Você pode colocar um vidro de perfume no nariz que você não sente nada. Você sente seu nariz ardendo, mas não sente o cheiro de nada. Eu já sabia que o teste viria positivo quando eu não senti nenhum odor. Agora, eu estou mais tranquila. Eu não frequentava nenhum lugar além do hospital e da minha casa. Eu parei tudo. Agora, só estou em casa, estou afastada. Meus filhos também não saem de casa. A minha funcionária, eu dispensei. Meus filhos não saem de casa para nada e meu marido também está de home office. Apesar de eu saber como se faz tudo, de usar os equipamentos, não tem jeito. O vírus é muito contagioso. Eu poderia ter me contaminado na primeira semana, mas não aconteceu.

Yahoo: Como era sua rotina antes do vírus e como é sua rotina agora?

Cristhieni: Meu dia começa às 6h. Eu dou café para o meu filho mais novo, deixo ele na escola e começo a minha rotina no trabalho. Ele volta de transporte escolar e, quando ele chega, a minha funcionária está em casa. Eu vou coordenando tudo a distância. Eu tenho um grupo de WhatsApp com as mães e isso ajuda bastante. Elas vão atualizando a lição de casa que eles têm, aí eu vou ligando e perguntando se ele fez a lição. Normalmente, eu chego em casa por volta das 20h. Aí eu dou uma conferida se está tudo ok e deixo ele mais à vontade depois. Ele sabe que, se ele vier com nota ruim, ele vai ter as consequências. Vai perder celular, computador, vídeo game. A gente vai tentando fazer dessa forma. Ele faz atividade física, quando chega de noite, a gente janta junto. Mas, eles são acostumados assim, eu sempre estudei muito e eles estão próximos disso.

Yahoo: E agora, com o coronavírus? Como estava tudo até você ficar isolada?

Cristhieni: O que mudou é que agora eu estava saindo o mesmo horário e eles ficavam em casa com aula virtual. Eles ficavam em casa e eu estava acompanhando a distância também. Eu acabei chegando mais tarde esses dias, umas 22h. Aí eles ainda estavam acordados e a gente tomava um lanche ou um suco juntos. Outra coisa é que eu acabo tendo muita conferência virtual no final de semana. Tem muita reunião on-line. Antes, no final de semana, dava para ficar mais tranquila. Agora, estamos fazendo tudo de casa.

Yahoo: E como está sendo desde que descobriu que você e seu marido estão com o coronavírus?

Cristhieni: Assim que a gente descobriu, eu e meu marido estamos ficando mais no quarto. Os computadores ficam na sala e cada um tem seu quarto. Mas, tem momentos que a gente se encontra, sim. Mas tem álcool em gel pela casa, a gente usa máscara quando precisa. Quando meus filhos precisam ir na padaria ou coisa assim, eles vão de máscara… mas o isolamento domiciliar é difícil. Eu tenho que ir até a cozinha para fazer alguma coisa para comer, por exemplo. Mas a gente tá se cuidando ao máximo. Todas as janelas estão abertas, eu não compartilho talher ou coisa assim, mas como está todo mundo no mesmo apartamento, esse vírus já se espalhou… mas eles estão bem e são 14 dias que eu não vou poder ter contato próximo com eles.

A infectologista e a família. Foto: Arquivo Pessoal
A infectologista e a família. Foto: Arquivo Pessoal

Yahoo: Seus filhos são grandes e já entendem a gravidade do vírus, né? Eles ficam preocupados?

Cristhieni: O pequeno fica um pouco mais. O mais velho faz medicina e entende melhor. Mas, no geral, eles têm uma convivência muito grande com doença desde que são pequenos. Assuntos da infectologia são pesados e eles sabem muito bem sobre outras doenças como Aids, infecção hospitalar… eles sempre tiveram contato com isso, com morte… eles têm tranquilidade em relação a isso. Mas medo mesmo eu não senti da parte deles. Mas eles ficam chateados com algumas posturas da população em geral. Eles chegam para mim e falam: “Mãe, olha que absurdo o pessoal achando que é uma gripe boba”. Eles têm também uma preocupação com aqueles que têm menos condições e que vão ter menos acesso à saúde. Eles estavam preocupados com a moça que trabalha aqui e é hipertensa… o que eles sentem falta mesmo é de não poder sair, de poder ver os amigos. Mas talvez isso não seja mais forte por conta dos computadores. Eles fazem chamadas entre eles, com os amigos...

Yahoo: Mudou muita coisa do contato com eles? Como está sendo estar na mesma casa e não poder abraçar e beijar seus filhos?

Cristhieni: Eu gosto de, de noite, deitar com o mais novo na cama e jogar alguma coisa junto, conversar, ler junto… e isso a gente não está fazendo. A gente sente falta, lógico, mas não é nada do outro mundo, não. Eu sinto isso mais com os meus pais que eu não vejo há mais de três meses. Eles moram em Santos e isso a gente sente muita falta. O que me incomoda muito é não poder trabalhar.

Yahoo: Como será o seu Dia das Mães esse ano?

Cristhieni: Na verdade, não planejamos nada. Como mãe, eu sei que esse é um momento difícil e que a gente tem que abrir mão de algumas coisas por um bem maior. O que me incomoda mesmo é não poder dar atenção para a minha mãe. Nós somos em três filhas e as três trabalham na área da saúde. Uma delas já se contaminou bem no começo e já pode passar o Dia das Mães com a minha mãe. Eu falei com ela sobre tudo o que ela deve fazer quando chegar lá: tomar banho, tirar a roupa que veio… e ela que vai acabar fazendo essa parte de filha esse ano. Mas, o pensamento que a gente tem que ter agora, é que isso é por um bem maior. Eu vou estar aqui em casa, com meus filhos, mas sem grandes toques e esperando que ano que vem a gente esteja em uma situação melhor.

Yahoo: É para um bem maior, né?

Cristhieni: O triste disso é que a gente está acostumado e treinado para lidar com as perdas de vidas que acontecem. O que a gente não pode aceitar é que a gente não possa dar um atendimento para aquela pessoa. Essa é a dificuldade. A dificuldade não é o morrer em si. É isso que a gente tem que pensar: muita gente morre. O que não dá para aceitar é que a pessoa não vai ter assistência médica. Por isso, nesse momento, as pessoas têm que ficar em casa. A gente não vive só uma crise de saúde. A gente vive uma crise política, social e econômica. É triste que tudo isso esteja acontecendo ao mesmo tempo quando a gente poderia estar se preocupando só com a saúde mesmo. Eu espero que, nesse dia, a gente consiga refletir bastante para fazer nossa parte melhor, para que ano que vem a gente possa se abraçar.